Curiosidades
Mostra no Rio celebra os 85 anos de Ney Matogrosso e seu impacto para diferentes gerações de artistas
Com abertura neste sábado (20) no Solar, no Centro, 'Eu prefiro ser' reúne trabalhos selecionados de artistas históricos e contemporâneos e obras comissionadas para a exposição
Uma das mentes por trás do duo AVAF (assume vivid astro focus), Eli Sudbrack lembra de assistir aos 4 anos de idade, no início da década de 1970, ao lado da mãe, a Ney Matogrosso cantando e dançando na TV, com parte do corpo despido.
— Não me lembro qual era a música, mas ficou a imagem dele se aproximando e se afastando da câmera, de uma forma sedutora. Ney é a minha primeira memória queer — diz Sudbrack. — Ele foi uma referência muito forte para o nosso trabalho justamente por criar, a partir de uma perspectiva queer, uma comunicação universal. É justamente no que acreditamos: estabelecer esse diálogo amplo com o público através das cores, da performance, não importa a orientação sexual de cada um.
Siron Franco:
Art Basel:
A relação com o cantor foi materializada em um painel de 4,5 metros de altura, com impressão em vinil e detalhes em néon, com elementos representando vários momentos de sua carreira, como os chifres do álbum de “Água do céu — Pássaro” (1975), o chapéu de “Bandido” (1976), as orelhas de “Destino de aventureiro” (1984). A obra guarda a entrada do Solar, na Rua do Passeio, no Centro do Rio, e convida o público a entrar, a partir deste sábado (20), na coletiva “Eu prefiro ser”, na qual outros 47 artistas participam da homenagem aos 85 anos de Ney Matogrosso, a serem completados em 1º de agosto.
A exposição começou a ser pensada em 2017, cerca de dois anos depois de a instituição ser fundada como Solar dos Abacaxis, no Cosme Velho, para celebrar os 80 anos do cantor, mas os planos foram adiados pela pandemia. Após a mudança para o Centro da cidade, em 2022, os fundadores Bernardo Mosqueira e Adriano Carneiro de Mendonça voltaram a pensar na mostra dentro do programa 2025/2026, que tem a liberdade como eixo temático. As celebrações realizadas no período, como o l, a , e o , delinearam caminhos a seguir na montagem.
— Até pelas homenagens recentes, as pessoas vão chegar aqui conhecendo a história do Ney, sabendo a sua importância. Não queríamos botar fotos que todo mundo já viu, letras de música. A proposta é encontrar alguém que as pessoas conhecem e amam, mas de uma maneira que elas nunca viram antes — diz Mosqueira, um dos curadores da coletiva. — Queremos mostrar essa figura tão complexa e diversa, que é impossível de se conhecer tudo. Deixar essa vontade de pesquisar e pensar mais sobre esse artista que tem a capacidade incrível, ao longo de décadas, da ditadura à democratização, de estar continuamente mudando e encantando os públicos mais diferentes. De crianças a idosos, de conservadores aos mais progressistas.
Na seleção feita junto a Pablo León de la Barra (curador de América Latina do Guggenheim de Nova York) e Matheus Morani, da equipe do Solar, estão obras que fazem referências diretas ao artista ou captam sua essência de liberdade e transformação, de nomes como Ivens Machado, Leonilson, Érika Verzutti, Victor Arruda, Antonio Manuel, Chico Tabibuia, Victor Arruda, Glauco Rodrigues, Flávio de Carvalho, José Tarcísio Ramos e Miriam Inez da Silva. Também integram a mostra obras comissionadas de Tadáskía, Rodolpho Parigi e Thix, e trabalhos inéditos de Laura Lima, Vinicius Gerheim, Alex Cerveny, Randolpho Lamonier e Zé Carlos Garcia.
Mexicano que se divide entre Rio e Nova York, Pablo foi convidado por Mosqueira (ainda no projeto anterior, adiado pela pandemia) para pensar a conexão de Ney com a América Latina, por meio de nomes como o paraguaio Feliciano Centurión e o coletivo chileno Yeguas del Apocalipsis.
— Até pela localização do Mato Grosso, o Ney traz essa consciência da América Latina, e acaba criando uma obra que ressoa além das fronteiras geográficas. Quando postei sobre a exposição, muitos amigos argentinos me escreveram muito empolgados — conta o curador.
Já Morani, o mais jovem do trio de curadores, trouxe a relação de artistas com a obra do cantor, citando como exemplo a escultura “Orvalho” (2025), de Samuel Alves de Jesus, feita de resina, sal e calcita, material que elimina líquido em sua superfície.
— Uma coisa interessante é que cada um dos curadores é de uma geração, o Pablo é da X, o Bernardo é da Y, e eu sou da Z. Então são três “Neys” diferentes com que cada um cresceu. É muito bom poder trazer um pouco do impacto de uma figura de transgressão, de revolução comportamental, para a minha geração — comenta Morani. — A ideia é abordar esse legado por outras perspectivas. A obra do Samuel, por exemplo, um artista nascido em 1999, faz referência a esse corpo em transformação, vivo, que transpira.
A mostra abre ao público neste sábado, ao meio-dia, com karaokê das 16h às 18h, seguido de set da DJ Bieta até as 20h. Amanhã, o espaço recebe o ballroom Pajuball, das 15h às 20h, celebrando referências LGBTQIAPN+ brasileiras, como Ney Matogrosso, Madame Satã, Dzi Croquettes e outros. Para Adriano Carneiro de Mendonça, diretor executivo do Solar, o fato de a exposição se concretizar agora une as celebrações de 85 anos do cantor com os dez anos da instituição, iniciadas ano passado.
— Começamos a sonhar com essa exposição um pouco depois de colocarmos o Solar no mundo, ainda na casa do Cosme Velho, sem o Instituto, nem CNPJ. É muito bom vê-la materializada hoje, tendo mais maturidade curatorial e institucional — diz Mendonça. — Nos últimos 12 meses, tivemos uma visitação de cem mil pessoas. É importante trazer uma figura popular como o Ney em um momento em que o projeto está mais acessível, conectado com diversos públicos.
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