Curiosidades

Danish String Quartet leva ao Municipal música de câmara sem pose de museu

Formado ainda na adolescência, grupo defende concertos mais vivos e a presença de crianças em recitais

Agência O Globo - 19/06/2026
Danish String Quartet leva ao Municipal música de câmara sem pose de museu
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Mesmo com a seleção de seu país fora da Copa do Mundo, o dinamarquês Asbjørn Nørgaard, violista do Danish String Quartet, sabe que futebol é assunto sério. Questionado se torceria mais pela Noruega ou pela Suécia, vizinhos escandinavos, ele não hesitou.

— Definitivamente pela Noruega; nosso violoncelista é norueguês! E Noruega e Dinamarca foram o mesmo reino até 1814. Aliás, é uma vergonha que a Dinamarca não tenha se classificado para esta Copa!

Ótimo: músicos e plateia já têm algum rigor em comum.

O DSQ se apresenta no sábado, 20 de junho, às 16h, no Theatro Municipal do Rio, pela Série O Globo/Dellarte Concertos Internacionais. O grupo é formado pelos violinistas Frederik Øland e Rune Tonsgaard Sørensen, pelo próprio Nørgaard e pelo violoncelista norueguês Fredrik Schøyen Sjölin. São três dinamarqueses e um norueguês unidos por uma intimidade musical rara, mesmo em um gênero no qual a palavra “entrosamento” costuma ser usada com generosidade excessiva.

No caso deles, o termo faz sentido. Øland, Sørensen e Nørgaard se conheceram ainda adolescentes, em um acampamento de verão para músicos amadores. Em 2001, quando tinham 15 e 16 anos, foram acolhidos por Tim Frederiksen, professor da Real Academia Dinamarquesa de Música, que os treinou a partir dos quartetos de Haydn. Sjölin entrou para o grupo em 2008. O resultado é uma sonoridade moldada desde cedo não pela soma de quatro carreiras prontas, mas pela construção coletiva de uma linguagem.

— Crescemos juntos — diz Nørgaard. — Desenvolvemo-nos como músicos, mas também como pessoas.

Para ele, essa trajetória aparece no modo como o quarteto produz som nos instrumentos de cordas e, sobretudo, na confiança interna do grupo.

— Vamos nos segurar se alguém cair.

A infância, nesse caso, não é apenas uma anedota biográfica. Nørgaard conta que todos ouviram música de câmara desde muito cedo, embora não necessariamente em recitais formais. Para eles, a música de câmara era, antes de tudo, “uma maneira divertida de passar tempo com os amigos”. Depois das muitas horas solitárias de estudo de um instrumento, tocar com outras pessoas parecia a própria razão de todo aquele esforço. A frase ajuda a entender o DSQ: antes de ser uma especialidade, a música de câmara foi uma forma de sociabilidade.

Por isso, Nørgaard também defende a presença de crianças nos concertos.

— A música clássica não deveria ser algo que não se pode tocar ou compartilhar com pessoas reais. Não somos um museu — afirma.

A ressalva vem de um pai de filhos pequenos: crianças são bem-vindas, desde que se comportem com respeito ao ambiente. A observação é simples, mas toca em um ponto sensível: a música de concerto só sobrevive como linguagem viva quando deixa de ser tratada como patrimônio intocável.

Essa ideia de música como convivência atravessa também o programa carioca, que reúne a Suíte italiana, de Stravinsky, extraída do balé Pulcinella; o Quarteto de cordas nº 16, op. 135, último quarteto de Beethoven; e um conjunto de canções folclóricas nórdicas a serem anunciadas.

Para Nørgaard, a obra de Stravinsky é uma “peça mística”. Construída sobre melodias barrocas, pode parecer arcaica e tradicional à primeira escuta. Mas, sob a superfície de dança antiga, o compositor espalha seu veneno moderno: “pequenas gotas de ácido numa bela pintura”, como define o violista. É uma imagem precisa para uma música que sorri — mas sorri de lado.

Beethoven, por sua vez, aparece no programa em estado de enigma. O op. 135 carrega a célebre pergunta escrita pelo compositor no último movimento — “Deve ser?” — e a resposta: “Deve ser!”. Nørgaard observa que ninguém jamais soube exatamente a que esse “deve” se refere. Para ele, a peça também pode parecer clássica e evidente, mas está cheia de desvios estranhíssimos.

— É um pequeno cubo de música, curto, denso e místico.

Entre Stravinsky e Beethoven, as canções folclóricas não entram como descanso, concessão ou número de simpatia. O Danish String Quartet tornou-se conhecido também por trazer melodias nórdicas para o centro de sua identidade, em discos como Wood Works, Last Leaf e Keel Road. Nørgaard diz que todos cresceram cercados por canções e danças escandinavas, embora elas ocupassem pouco espaço na formação clássica. Primeiro, uma melodia arranjada por Rune entrou como bis. Aos poucos, o folclore “começou a rastejar” para dentro dos programas principais.

— Não vemos conflito em passar da música clássica mais intelectual para uma simples melodia folclórica. Esse “conflito” foi inventado por pessoas que não entendem realmente de música — afirma.