Curiosidades
Animador brasileiro de Garfinho fala sobre trabalho em novo filme de Toy Story
Cláudio de Oliveira, nascido em São Paulo, integra a equipe da Pixar desde 2013; Toy Story 5 chega aos cinemas nesta quinta-feira
Criado a partir de um garfo plástico, massinha de modelar e um limpador de cachimbo, Forky — o Garfinho — conquistou o público ao estrear em Toy Story 4 , em 2019. Sete anos depois, o personagem retorna às telas no quinto filme da franquia, que chega aos cinemas nesta quinta-feira (18), animado novamente pelas mãos do brasileiro Cláudio de Oliveira.
— Como eu já tinha trabalhado com o Garfinho anteriormente e tenho uma ligação muito gostosa com o personagem, pedi para animá-lo mais neste filme. Como também não preciso aprender novamente como ele se movimenta ou como suas expressões são construídas, isso acabou me dando mais liberdade para brincar e ser um pouco mais criativo — contorno o animador, de 47 anos, ao GLOBO.
Embora o personagem não tenha, no novo longa, a mesma participação de destaque vista no quarto filme, quando integrou o elenco principal, o paulista — que já foi mensageiro, instrutor de dança e comissário de bordo antes de trabalhar com animação — diz não se incomodar com a intimidade mais breve do velho conhecido.
— Eu não me importo com o fato de ele não ter sido um dos personagens principais; só de ele estar de volta já me satisfez muito. Geralmente, isso não acontece com tanta facilidade, então realmente foi algo muito prazeroso para mim.
Forky aparece logo no início do trailer de Toy Story 5 , em uma cena de seu casamento com a faquinha Karen Beverly. O momento dos votos dos noivos — ou melhor, dos talheres — dá continuidade ao encontro do casal apresentado no fim de Toy Story 4 , quando Karen é levada por Jessie ao quarto de Bonnie e se apresenta à turma como o novo brinquedo da menina.
Encantado pela companheira, Forky se apresenta e declara: “Nós somos brinquedos, lindos brinquedos”. A frase encerra a trajetória do personagem, que passou boa parte do quarto filme acreditando não ser um brinquedo por ter sido criado a partir de materiais usados, tentando repetidamente se jogar no lixo.
— Na cena em que eles se conheceram, eu animei o Garfinho e meu amigo animou a faquinha. Estávamos na mesma sala, e é muito legal ver os dois voltando agora em um casamento no novo filme.
Cláudio afirma ter animado, em Toy Story 5 , Forky, Karen e algumas cenas de um dos personagens mais conhecidos da franquia: o astronauta e patrulheiro espacial Buzz Lightyear.
Inspiração vem da vida real
Em Toy Story 5 , o novo personagem é Lilypad, um tablet em formato de sapo, feito de borracha — como muitos dispositivos infantis —, que chega para disputar a atenção de Bonnie com os demais brinquedos. Embora seja uma obra ficcional, já que, até onde se sabe, os brinquedos não falam nem se mexem, o novo filme da Pixar se aproxima da realidade ao trazer alertas sobre o excesso de telas na vida das crianças.
Diferentemente de outros personagens não humanos, Lilypad e Forky não têm braços e pernas convencionais, nem são bonecos de pano como Woody e Jessie. Lilypad é representada por uma tela quadrada com olhos, uma pequena boca e pequenas “patinhas”. Já Forky tem o corpo rígido formado por um garfo, pés feitos de palitos de picolé e braços de limpadores de cachimbo.
A ausência de membros, que normalmente ajudavam no trabalho dos animadores, tornou esses personagens um desafio à parte. O paulista conta que chegou a fazer alguns testes com Lilypad, embora não tenha sido o responsável por sua animação. Ainda assim, comparou a complexidade de animação ao desafio enfrentado com Forky.
— A Lilypad talvez tenha uma limitação física um pouco maior do que o Garfinho por não ter um corpo, mas, por outro lado, ela tem uma ferramenta que pode ser utilizada para expressar, que é a tela. Com o Forky, por exemplo, eu tive que levá-lo para casa e fazê-lo manualmente para entender como eram os movimentos dele. No início, achamos que ele estava se confundindo demais para um garfo. Eu gosto muito dessa brincadeira de encontrar criatividade nas limitações dos personagens.
Para Cláudio, animadores funcionam como atores nesse gênero. A inspiração para criar os movimentos dos personagens vem, segundo ele, da vida cotidiana e das próprias memórias.
— Alguns colegas se inspiraram em filmes e em outras animações. Eu, pessoalmente, gosto de me inspirar no que vejo no meu dia a dia ou em memórias que tenho. Acho que há mais chance de alguém assistindo à cena se conectar com aquilo quando é algo realmente verdadeiro e real.
Sem IA nas animações
No primeiro Toy Story , lançado em 1995, a tecnologia já fazia parte do enredo: brinquedos artesanais, como Woody, um boneco de corda, dividiam espaço com figuras de plástico equipadas com lasers e LEDs, como Buzz Lightyear. No novo filme, a tecnologia deixa de ser apenas tema e se torna personagem central, mas ainda não assume o protagonismo no processo de animação da franquia, que segue feito manualmente, sem uso de inteligência artificial.
— Nós não utilizamos nada de IA em nossos filmes. Eles ainda são animados manualmente, porque, mesmo que tudo seja feito no computador, cada decisão criativa é tomada por nós. Eu espero que existam muitas ferramentas feitas por IA para que as pessoas tenham mais tempo para tomar decisões criativas. Acho que pode ser uma ferramenta muito potente e interessante, mas que não tira as nossas decisões criativas — explicadas o animador.
Cláudio afirma que o processo de animação é demorado tanto pelo trabalho manual envolvido quanto pela necessidade de alinhar cada cena à visão do diretor.
— A gente tenta colocar a visão do diretor na tela, mas também tenta apresentar a nossa visão e ver se aquilo se encaixava. Então, demora um pouco mais por causa disso. Cada segundo que a gente assiste tem 24 quadros, e precisamos animar cada um deles, além de ajustar manualmente, se necessário, cada movimento da boca, por exemplo. Geralmente, são cerca de dois a três segundos animados por semana.
Em entrevista à AFP em 2019, o paulistano contou que nunca havia pensado em trabalho com animação. Ao se mudar para os Estados Unidos para acompanhar a esposa, decidiu que queria estudar e “tentar fazer algo mais artístico”.
Foi então estudar animação no Santa Monica College. Trabalhou na companhia de efeitos visuais Sony Imageworks antes de ingressar no Walt Disney Animation Studios, onde participou do desenvolvimento de filmes como Enrolados para Sempre e Detona Ralph . Em 2013, entrou na Pixar, onde atuoso como animador em sucessos como Divertida Mente , Carros 3 , Coco e Os Incríveis 2 .
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