Curiosidades
Siron Franco: ‘Quando você cria um conceito, se prende a uma camisa de força’
Prestes a completar 79 anos, pintor e escultor revisita seis décadas de produção em mostra em Goiânia e em livro recém-lançado
Um pouco mais de um mês de completar 79 anos, em 25 de julho, Siron Franco se vê diante de seis décadas de trajetória artística. Parte desse percurso está reunida nas 140 obras produzidas entre os anos 1960 e 1980 que integram a panorâmica “Expressões” , em cartaz até o dia 30 do mês que vem na Vila Cultural Cora Coralina, em Goiânia (GO). A revisão de sua obra também ganha novo resumo com o lançamento do livro “Pensamento insubordinado” (Sesc/Instituto TeArt), publicação que reúne algumas de suas principais séries.
De modo semelhante, o pintor e escultor convive diariamente com sua produção no ateliê formado por dois galpões em Aparecida de Goiânia, na Região Metropolitana da capital. Ali, pilhas de telas encostadas às paredes por vezes recebem retoques anos — ou até décadas — depois de terem sido consideradas finalizadas. Dividindo-se entre Goiás e São Paulo, Siron dorme em uma barraca modelo iglu, instalada no centro de um dos galpões, na companhia de três cães e um gato, cercada por pinturas, esculturas, mapotecas repletas de desenhos e projetos.
A proximidade com as obras permite que ele comece a trabalhar logo após o café da manhã — ou durante a madrugada, quando costuma perder o sono.
— Meu pai me levou para o Mato Grosso, para o Pantanal mesmo, e a gente dormia em barracas, mas naquelas bem menores. Gosto de dormir assim, é uma coisa meio uterina. Durmo num tatame lá dentro, prefiro à cama — conta Siron. — O tempo todo eu fico desenhando, pintando. Gosto de ter as obras por perto para trabalhar nelas. Às vezes, o sol batendo numa tela me dá uma solução que eu não tinha pensado. Gasto muito pouco, então prefiro ter o meu trabalho comigo a ter dinheiro. Isso é o que eu guardo.
Ao longo das décadas, as obras que passaram a outras mãos fizeram do artista goiano um nome de forte presença em coleções particulares e acervos institucionais, como o MoMA, de Nova York; a Universidade de Essex, na Inglaterra; o Marco (Museu de Arte Contemporânea de Monterrey), no México; e os museus de Arte Moderna do Rio de Janeiro e de São Paulo, entre outros.
A exposição em cartaz em Goiânia nasceu de um recorte da coleção de seu idealizador, Leopoldo Veiga Jardim, diretor regional do Sesc/Senac Goiás. Às 20 obras inicialmente selecionadas, somaram-se mais de uma centena, recebidas de coleções privadas. A mostra percorre séries ligadas à ditadura militar, a problemas ambientais, ao feminicídio — caso das célebres Madonas produzidas nos anos 1970 e 1980 — e à guerra, seja na releitura de 1986 de “Guernica” (1937), de Pablo Picasso, seja na instalação “Notícias internacionais” (2026), formada por cabeças de manequins ricas sobre uma tigela de metal, onde é um bebê de plástico sobre cápsulas deflagradas.
— Todas as obras causam incômodos, provocam uma reflexão. O intuito é esse. A exposição não tem uma ordem cronológica nem uma divisão mais acadêmica. A ideia é deixar aflorar a emoção provocada pelas obras. Você olha e percebe que a arte pode se transformar por completa uma vida — comenta Jardim.
Entre os conjuntos icônicos destacados na mostra, como “Fábulas de horror” , apresentada na 13ª Bienal de São Paulo, em 1975, está a “Série Césio” , uma das mais conhecidas de Siron Franco no mundo. O trabalho denuncia os efeitos do acidente radiológico com o Césio-137, ocorrido em Goiânia em setembro de 1987.
Com quatro telas da coleção do editor Charles Cosac na exposição, representando as quatro vítimas fatais, a série traz a terra da cidade entre os materiais utilizados. O artista cresceu na Rua 57, no Setor Central, a mesma em que uma das cápsulas com material radioativo foi aberta.
— Usei a terra porque, na época da quarentena após o acidente radiológico, ninguém queria comprar nada de Goiás. Carros com placa de Goiânia foram hostilizados fora daqui. Foi minha resposta a isso. Tenho até hoje o projeto de um memorial para o bairro, mas ele nunca foi construído — afirma o artista, que diz se manifestar, por meio de suas obras, contra questões que o afligem. —É uma catarse. Sinto que preciso pintar, como um atleta que sai para correr.
Organizado por Ángel Calvo Ulloa, o livro “Pensamento insubordinado” aborda trabalhos de Siron Franco desde os anos 1960 até a produção recente, incluindo obras que respondem aos ataques de 8 de janeiro de 2023, em Brasília. Com textos de Andrea Giunta, Charles Cosac, Lucia Bertazzo e Paulo Herkenhoff, além do próprio Ulloa, o projeto teve origem na exposição de mesmo nome, realizada em 2023 e dividida entre a Cerrado Galeria de Arte, em Brasília (DF), e o Museu de Arte Contemporânea de Goiás (MAC), em Goiânia.
O título da publicação vem de um texto do próprio artista sobre sua trajetória, em resposta a questionamentos sobre o trânsito por diferentes temas e estilos: “Eu nunca fiquei ligado às correntes porque as correntes só prendem; por isso tenho o pensamento insubordinado. A insubordinação pode trazer o novo”.
— Os meus professores ficaram grilados, sabiam que eu não tinha personalidade. Eu entendi que eles tinham razão. Não tenho uma personalidade, quero descobrir várias outras. Quero ampliar, botar para fora outros pintores que ainda não conheço. “Pensamento insubordinado” tem a ver com isso — comenta Siron. — O Millôr Fernandes me ajudou muito nisso, quando dizia: “Enfim, um escritor sem estilo”. Quando você cria um conceito, prenda uma camisa de força. Quero dar oportunidade a outros seres dentro de mim.
As muitas manifestações do artista continuam surgindo diariamente no ateliê, como na série inédita “Branco de medo” , iniciada durante a pandemia de Covid-19. O conjunto reúne telas brancas com expressões pintadas em núcleos claros, como se as figuras retratadas desaparecessem.
Enquanto mantém a obra em constante expansão, a Siron planeja preservar o acervo em um instituto que pretende inaugurar na capital goiana em 2027, quando completará 80 anos.
— Já tenho um imóvel. A ideia é deixar esse material lá, para o público ter acesso. Sou a cápsula de 13 irmãos e estou chegando aos 80 anos. Mas a minha família é de dinossauros: meu pai morreu com 105 anos. Ainda tenho muito para fazer.
* Nelson Gobbi respondeu ao convite da organização da exposição.
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