Curiosidades
Em ‘A estrada’, último álbum com o irmão, Lô Borges transformou despedida em metáfora
Antes de morrer, em novembro, cantor definiu com o letrista Márcio Borges o conceito do disco, marcado por imagens de viagem e partida
Entre 2019 e 2025, Lô Borges lançou sete álbuns de inéditas — um por ano. O ritmo intenso acabou surpreendendo até seu parceiro mais constante, o irmão Márcio Borges, que admitiu não conseguir acompanhar a produção do compositor.
— Lô era compulsivo, fazia duas, três músicas por semana. Meu ritmo nunca foi acelerado. Depois que fiquei mais velho, menos ainda. Ele foi procurar outros parceiros — conta Márcio, que completou 80 anos em janeiro.
Morte inesperada
Antes disso, porém, Lô fez um pedido ao irmão: “A nossa saideira nós temos que fazer.” A ideia era reunir dez composições inéditas da dupla. O resultado é ‘A estrada’ (Deck), álbum conceitual recém-lançado, no qual todas as faixas formam uma espécie de viagem. Entre os títulos estão ‘Pousada’, ‘18 rodas’, ‘Encruzilhada’ e ‘Última parada’.
— Era para ser apenas uma metáfora da nossa vida. Virou uma premonição terrível. Era metáfora da despedida e virou a despedida em si — emociona-se Márcio.
Lô Borges, nome artístico de Salomão Borges Filho, morreu em 2 de novembro do ano passado, aos 73 anos. A morte foi inesperada. Segundo o relato, ele tomou dois remédios para dormir sem saber que eram incompatíveis. Desmaiou, vomitou, o vômito atingiu o pulmão e, apesar dos esforços médicos, não resistiu.
— Estou péssimo, de forma que você nem pode imaginar. Perdi um amigo, irmão, parceiro, companheiro. Eu era conselheiro dele e ele era meu conselheiro. Foi a pior experiência da minha vida. Nunca senti tanto a passagem de alguém. Nada se equipara à perda do meu Lôzinho — diz Márcio, que, no período de um ano, também perdeu duas irmãs, Sônia e Sheila.
Muitos clássicos
Na estimativa feita por Lô, cerca de 70% de suas músicas têm letras de Márcio. Entre as mais conhecidas estão ‘Clube da Esquina’, ‘Clube da Esquina nº 2’ — ambas com colaboração de Milton Nascimento na melodia —, ‘Para Lennon e McCartney’, também com Fernando Brant na letra, ‘Tudo que você podia ser’ e ‘Um girassol da cor do seu cabelo’, todas da década de 1970.
Aos 18 anos, Lô já tinha canções fazendo sucesso. Aos 20, em 1972, seu nome apareceu ao lado do de Milton Nascimento na capa do histórico álbum duplo ‘Clube da Esquina’. O amigo, dez anos mais velho, exigiu da gravadora Odeon que Lô também tivesse posição de destaque no disco.
Márcio relata que não foi possível contar a morte de Lô a Milton, diagnosticado com demência por corpos de Lewy, doença degenerativa que afeta, entre outras funções, a memória.
— Ele está com a saúde muito debilitada, a cabeça vai e volta. Eu, a minha família e o Augusto, filho dele, decidimos poupá-lo — explica o letrista.
Apesar da tristeza, Márcio tenta se manter ativo. Ele acaba de lançar o romance ‘Oito canoas para o céu’, escrito há 20 anos, mas ainda inédito, agora reescrito em parceria com a filha, Helena Borges. Também celebra ‘A estrada’, cujas músicas foram criadas entre o fim de 2023 e meados de 2024.
— Ele me mandou nove temas. Disse que ‘Chegada’, a última faixa, seria só dele. Parece que estava prevendo o fim — afirma o irmão, o segundo de uma família de 11 filhos. Lô era o sexto.
A compulsão criativa do compositor era tamanha que ele gravava mais de um álbum ao mesmo tempo e precisava guardar parte do material, já que não fazia sentido lançar tudo de uma vez. Lô decidiu que ‘A estrada’ sairia em homenagem aos 80 anos de Márcio. O disco chegou um pouco depois — e sem ele presente.
Não é álbum póstumo
A produção de ‘A estrada’ é assinada pelo guitarrista Henrique Matheus e pelo contrabaixista Thiago Corrêa. Para Thiago, não faz muito sentido classificar o trabalho como álbum póstumo, já que o disco foi concluído com Lô ainda vivo e aprovado integralmente por ele.
Como era de costume, Lô gravou todas as melodias no violão e as enviou ao letrista — neste caso, Márcio. Depois, retornou ao estúdio de Henrique para registrar a voz.
— Dava carta branca. Não se interessava em saber do processo. “Me mostrem quando estiver pronto.” Era da coletividade. Escolhia as pessoas, não as notas que a pessoa tocava — relata Thiago, de 46 anos.
O contrabaixista começou a gravar com Lô em 2019 e passou a integrar a banda de shows em 2023. Seu pai, Ivan Corrêa, também foi baixista do cantor no passado. Thiago lembra que Lô dizia que ‘Chegada’ era uma melodia que o acompanhava por toda a vida e brincava que talvez a tivesse composto ainda na barriga da mãe. Um dos versos da letra diz: “São seis horas da manhã, janeiro choveu”. Lô nasceu em 10 de janeiro.
Henrique, de 49 anos, entrou para a banda em 2010 e permaneceu por 15 anos. Ele conta que Lô concebeu a sonoridade de ‘A estrada’ com violão e percussões. Depois, sentiu a necessidade de incluir o grupo no processo. O violão imaginado tinha afinação semelhante à de viola. Em ‘Chegada’, ele quis uma viola de fato e convidou o amigo Tavinho Moura.
O guitarrista recorda o protocolo obsessivo de Lô nos últimos anos:
— Depois de compor, ele vinha ao estúdio gravar. Estava aqui quase toda semana. E a gente se falava todos os dias. Era um amigo. A ficha ainda não caiu.
Henrique reconhece que há material inédito, mas prefere não falar em número de álbuns. A decisão sobre o destino das gravações deve caber à família. Thiago afirma que a última composição de Lô foi uma letra feita para uma melodia sua. Márcio, por sua vez, diz que não há parcerias inéditas entre os irmãos: tudo o que os dois criaram foi gravado.
Mais lidas
-
1ACIDENTE AÉREO
Vídeo mostra momento em que helicóptero atinge o solo no Recreio dos Bandeirantes
-
2RIO DE JANEIRO
Apagão deixa bairros da Grande Tijuca sem luz e afeta trânsito na Zona Norte do Rio
-
3DOCUMENTAÇÃO
Detran Alagoas é o primeiro do Brasil a ofertar carros automáticos gratuitos para exames práticos
-
4FÓRMULA 1
Kim Kardashian leva o estilo WAG à Fórmula 1: o que significa sigla associada à namorada de Lewis Hamilton
-
5ACIDENTE AÉREO
Pilotos mortos em colisão de helicópteros no Recreio tinham longas carreiras na aviação