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Biografia revela como Dercy Gonçalves enfrentou rótulos para viver sua liberdade

Artista, que se tornou uma máquina de fazer dinheiro nos anos 1950, teve carreira intensa e barulhenta ao longo de oito décadas

Agência O Globo - 14/06/2026
Biografia revela como Dercy Gonçalves enfrentou rótulos para viver sua liberdade
Dercy Gonçalves

Poucos artistas brasileiros deixaram marcas tão fortes na memória do público quanto Dercy Gonçalves. Não apenas pela presença em cena, mas, sobretudo, pela forma como falava da vida. Suas opiniões vinham frequentemente temperadas por palavrões, o que lhe rendeu a fama de indecente e pornográfica.

Formada artisticamente no circo mambembe e no teatro de revista, Dercy pertencia a um tempo em que palavrões ainda surpreendiam plateias. O público ria às gargalhadas — às vezes de nervoso diante da ousadia, às vezes porque ela sabia, de fato, fazer graça com tudo. A própria artista reconheceria que a persona desbocada foi uma estratégia de sobrevivência: “Eu não ia vender tóxico, ia? Ia virar traficante?”.

Pelo bem ou pelo mal, era impossível ficar indiferente a Dercy. Assim ela atravessou 101 anos de vida e participou de cerca de uma centena de produções, entre teatro, televisão e cinema. Nascida em 1907, em Santa Maria Madalena, no estado do Rio de Janeiro — cidade onde fez questão de ser enterrada com o caixão em pé —, a menina inquieta e respondona apanhou muito do pai antes de fugir para buscar a fama na capital.

A consagração não veio fácil, mas foi definitiva. Antes de ter o talento reconhecido para o canto e para a comédia, Dercy percorreu pequenas companhias e vendia perfumes para complementar a renda. Em 1929, deixou para trás o nome de batismo, Dolores, e passou a se apresentar como Dercy.

Casou-se e descasou-se, mas dizia não gostar de sexo. Nos anos 1930, quando começou a despontar por combinar “a delicadeza da cantora com o escracho da humorista”, ganhou mais espaço — e também se tornou mãe, em 1934. Nunca quis exercer esse papel e chegou a interromper gestações outras vezes, mas assumiu a filha à sua maneira e seguiu em frente.

O meio artístico, profundamente machista, não era receptivo a artistas que também fossem mães, e Dercy enfrentou um período de ostracismo. Aos trancos, porém, começou a decolar. Nos anos 1950, tornou-se uma máquina de fazer dinheiro. Essa trajetória é esmiuçada em Dercy — A diva debochada, biografia assinada pela jornalista Adriana Negreiros, autora de Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço (Objetiva, 2018).

Nesta entrevista concedida por e-mail, Adriana fala sobre a personagem polêmica que, 18 anos após a morte, ainda provoca fascínio e discussão.

Você consegue definir Dercy em três palavras?

Genial, irreverente — palavra que ela detestava — e delicada.

Delicada? Como assim?

Dercy era delicadíssima porque tinha algo raro: a capacidade de prestar atenção no outro. Prova disso era a maneira como não gostava da “deixa”, recurso típico do teatro usado para marcar o momento em que outro ator entra em cena. Ela dizia que teatro era vida. E que, no teatro, como na vida, é preciso prestar atenção no outro. Quando se presta atenção, sabe-se o momento certo de “entrar em cena”. Isso me parece delicadíssimo.

Como essa biografia pode surpreender o leitor?

Dercy Gonçalves foi uma das grandes damas do teatro brasileiro. Foi uma atriz cômica que atuou do circo mambembe à televisão em alta definição, passando pelo teatro de revista e pelo cinema de chanchadas. Foi considerada genial por alguns dos melhores críticos de teatro de sua geração, como Décio de Almeida Prado, Sérgio Viotti e Sábato Magaldi. Isso pode surpreender o leitor que guarda dela apenas a imagem reducionista de uma velhinha desbocada, que dizia palavrões em programas vespertinos de televisão.

Esse mesmo leitor também poderá se surpreender ao descobrir que, na intimidade, Dercy era uma mulher de comportamento moralista e conservador. Não admitia palavrões em casa, não gostava de sexo e achava que mulheres não deveriam tomar a iniciativa na cama.

Dercy era o nome artístico. Ela nasceu Dolores e adotou a alcunha quando começou a excursionar como artista mambembe por pequenas cidades do Sudeste. Gostava de dizer que Dercy era da rua, não levava desaforos para casa; Dolores era quieta, doméstica. As duas conviviam na mesma mulher.

Dercy se inspirou em alguém para se tornar quem foi? Quem foram seus ídolos?

Quando sonhava em ser artista, ainda criança, Dercy se inspirava nas estrelas do cinema mudo que via na única sala de projeções de Santa Maria Madalena, como a americana Theda Bara e a polonesa Pola Negri. Tentava imitar a maquiagem e o corte de cabelo dessas atrizes e, por se comportar assim, chegou a levar surras do pai.

No Brasil, admirava Margarida Max e Otília Amorim, estrelas do teatro de revista, além de Oscarito, a quem chamava de “divino”. Como Dercy, ele era um artista do improviso.

A despeito disso, eu não diria que Dercy se inspirou em alguém em especial para se tornar quem foi. Ela é produto de seu tempo e das circunstâncias em que conduziu a própria existência. Foi uma artista que fez do improviso na vida — para driblar a pobreza, a violência e o preconceito — uma marca de seu trabalho nos palcos.

Os críticos que queriam atribuir alguma nobreza ao trabalho de Dercy, como se ela precisasse disso, costumavam dizer que ela descendia da commedia dell’arte, teatro popular surgido na Itália, no século XVI, em contraposição à comédia erudita. Dercy debochava dessa explicação e dizia que sua escola havia sido a fome, o abandono e os maus-tratos. “Sou da escola da liberdade”, afirmava.

Como era Dercy longe dos palcos e do público?

Em família, Dercy era conservadora e moralista. Fez questão de que sua única filha, Decimar, se casasse virgem — ao que consta, a recomendação foi seguida. Não admitia que a filha e os netos dissessem palavrões e zelava para que não seguissem seu caminho profissional.

Quis que a filha se tornasse bailarina clássica, projeto que não avançou — segundo Dercy, por falta de talento da menina. Também contratou professoras estrangeiras, uma espanhola e uma francesa, para ensinar boas maneiras à filha.

Dercy sempre pareceu muito bem resolvida com a vida. Ela guardava mágoas?

Tinha tristezas e mágoas, como é próprio do ser humano, mas não se deixava guiar por esses sentimentos. Dercy experimentou um amplo repertório de violências de gênero. Foi estuprada em sua primeira experiência sexual e voltaria a ser violentada com mais de 70 anos. Nas ocasiões em que tratou desse tema, não foi ouvida: seus interlocutores recebiam os relatos como se fossem piadas.

Também enfrentou violência patrimonial, sendo enganada por homens com quem se relacionou. Não foi uma mulher que tenha tido sorte no amor. Apreciava homens mais jovens e, quando queriam ofendê-la, era comum que eles a chamassem de velha — o mesmo adjetivo era usado por críticos na imprensa.

Dercy passou a vida sendo acusada de pornográfica e imoral, e teve seu trabalho diminuído por aqueles que não compreendiam sua genialidade. Tinha, portanto, um caminhão de tristezas e mágoas pelo qual poderia trafegar pela estrada da vida. Mas escolheu outro veículo: a alegria, o bom humor, a irreverência e a capacidade de perceber o ridículo no outro e nas situações.

Ela não permitiu que as pancadas da vida a paralisassem. Ao contrário, transformou os golpes em inspiração para o trabalho.

Como Dercy conseguiu sobreviver a dois períodos fortes de censura? Ela costumava se manifestar sobre questões políticas?

Dercy enfrentou a censura em diversas ocasiões ao longo da vida, quase sempre sob a acusação de atentar contra o decoro e os bons costumes. Em uma das situações mais pitorescas, precisou mudar o nome do espetáculo Cara malfeita, porque houve associação com a aparência do presidente Eurico Gaspar Dutra. A peça passou a se chamar Cara bem-feita, em evidente provocação.

Dercy não era considerada uma artista subversiva em termos políticos, mas imoral e indecente. Nunca enfrentou a suspeita de ser “comunista”, por exemplo — o que não faria sentido, já que sempre demonstrou apreço e simpatia por políticos conservadores e mais à direita, chegando a apoiar candidatos alinhados aos militares.

Uma das poucas ocasiões em que a censura a Dercy envolveu questões políticas ocorreu em 1973, durante a apresentação da peça Os marginalizados, baseada em texto de Abílio Pereira de Almeida. Na montagem, ela explicava como funcionava o pau-de-arara, instrumento de tortura usado no regime militar.

Como ela conseguiu furar os bloqueios e ser tão querida em uma sociedade conservadora?

Dercy sempre teve a imensa popularidade a seu favor. Apesar de ser alvo de críticas por parte da imprensa especializada, lotava teatros Brasil afora. Tinha uma maneira única e espontânea de atuar, além de fazer a plateia participar dos espetáculos, baseados no improviso.

Ela mudava os textos das peças conforme a reação do público. Era a rainha do improviso e tinha uma capacidade de comunicação que impressionava até seus pares mais experientes.

Parece não haver outra atriz que tenha exercido sua liberdade de expressão tanto quanto Dercy. Ela deixou seguidores?

Dercy costumava dizer que não tinha discípulos. Não identificava nenhuma herdeira de seu estilo próprio. Ainda assim, admirava Marco Nanini, com quem atuou nos palcos. Ele costuma dizer que aprendeu com ela o tempo certo da comédia.

A vida dela não foi exatamente fácil. Qual foi o segredo de sua longevidade?

Dercy teve boa saúde, apesar de ter enfrentado um câncer aos 84 anos. Não era dada a excessos etílicos ou alimentares, embora também não seguisse à risca a receita da longevidade — não era fã de exercícios físicos, por exemplo.

Ao mesmo tempo, embora tenha passado 71 de seus 101 anos sendo chamada de velha — a partir dos 30, já começou a enfrentar comentários etaristas —, nunca aceitou se comportar como se esperava que idosos se comportassem. Trabalhou até o fim da vida, manteve uma presença pública ativa e gostava de dizer que era isso que a mantinha viva e em forma. Se ficasse em casa, trancada, morreria.

Serviços

Dercy: A diva debochada. Autora: Adriana Negreiros. Editora: Objetiva. Páginas: 304. Preço: R$ 79,90.