Curiosidades

Após mostra cancelada na Aliança Francesa, fotógrafa planeja lançamento de livro

Radicada em Paris, a catarinense Andrea Eichenberger teve a individual suspensa na unidade de Botafogo, no Rio, na véspera da abertura

Agência O Globo - 11/06/2026
Após mostra cancelada na Aliança Francesa, fotógrafa planeja lançamento de livro
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Morando há 20 anos na França, a fotógrafa catarinense Andrea Eichenberger acompanhou, à distância, os acontecimentos políticos e sociais que marcaram o Brasil desde 2013. O período culminou em duas eleições presidenciais vencidas por campos ideológicos opostos: Jair Bolsonaro, em 2018, e Luiz Inácio Lula da Silva, em 2022.

Nesse intervalo, Andrea passou a observar como elementos do cotidiano brasileiro ganharam conotação política e passaram a ser associados a um ou outro lado da polarização nacional.

A partir de dois alimentos — a coxinha, relacionada a eleitores de perfil conservador, e a mortadela, associada ao campo progressista —, a fotógrafa reuniu objetos, gestos e expressões identificados com a política brasileira. Ela também convidou pesquisadores de diferentes áreas para escrever verbetes sobre cada item.

Do recorte entre 2013 e 2023 nasceu o projeto “Pequena enciclopédia sociopolítica ilustrada do Brasil contemporâneo”, que reúne imagens e textos sobre símbolos como a camisa da Seleção Brasileira, o patinho de borracha — incorporados por setores da oposição de direita no processo de impeachment de Dilma Rousseff —, a panela, usada em protestos durante pronunciamentos televisivos de autoridades por grupos de diferentes posições políticas, e o gesto de “arminha”, identificado com o eleitorado de Jair Bolsonaro.

A mostra já foi apresentada em diferentes espaços, como o Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais de Covilhã, em Portugal, em 2023; o FestFoto, em Porto Alegre (RS); e o festival Photaumnales, em Noyon, na França, ambos em 2025.

Convidada a ocupar a Galeria Aliança Francesa, na unidade de Botafogo, Zona Sul do Rio de Janeiro, Andrea não imaginava que acabaria protagonizando um episódio ligado à própria polarização política brasileira. A fotógrafa já havia realizado no local a individual “O espaço da alteridade”, entre 2021 e 2022.

No mês passado, já no Rio para a inauguração da exposição, Andrea afirma ter sido surpreendida por uma mensagem de WhatsApp da direção da instituição comunicando o cancelamento da mostra na véspera da abertura.

— Foi me dito que, por ser uma associação de caráter cultural e de ensino, a Aliança Francesa não pode ter posicionamento político e, por isso, não poderia expor o trabalho. Eu respeito a posição deles, mas por que deixaram para colocar isso com a exposição já montada? — questiona Andrea. — Houve um convite deles. Há mais de um ano enviei um PDF detalhando todo o conteúdo do projeto, estava tudo aprovado. Foram muitas conversas, várias trocas de e-mail. Dá a impressão de que ninguém procurou saber do que se tratava a exposição.

Segundo a fotógrafa, havia sido firmado um contrato de três anos para que o projeto circulasse por outras unidades da escola no Brasil. No entanto, após visitar a montagem, a diretora-geral das Alianças Francesas no Brasil, Nathalie Lacoste-Yebra, teria decidido pelo cancelamento.

Na mensagem atribuída à direção, a justificativa foi a seguinte: “Ao analisar mais atentamente algumas das obras em exposição, percebo que elas contêm posicionamentos políticos explícitos sobre a vida política brasileira e nomes de figuras políticas. No entanto, a Aliança Francesa, como instituição e associação cultural brasileira, está vinculada a uma estrita neutralidade política, especialmente no contexto atual. Portanto, infelizmente, não poderemos prosseguir com a exposição nem com a inauguração prevista para amanhã”.

Andrea afirma que tentou negociar uma alternativa para manter a exposição aberta ao público.

— Tentei até negociar uma saída, de colocar um aviso de que os conteúdos eram de inteira responsabilidade dos autores, mas nem assim abriram a mostra. Me esforcei muito por essa exposição, deixei de fazer outros trabalhos para ficar em função disso. Viajei para o Rio, estava tudo montado — relata. — Fizemos impressões maiores, que foram coladas nas paredes. No outro dia de manhã, uma pessoa próxima foi até a Aliança e disse que já estava tudo vazio.

A notícia começou a repercutir nas redes sociais depois que Andrea publicou um post com o cartaz da exposição marcado com a palavra “Anulada”, em vermelho, sobre a arte.

— Passei mal por três dias com essa situação, não conseguia nem sair à rua. Não pude nem ver a exposição montada. Postei no meu perfil pessoal no Instagram, mas não consegui avisar a todas as pessoas que convidei. No dia da abertura, recebi vários telefonemas de pessoas que foram lá e se depararam com as portas fechadas e o cartaz com um “X” em cima, avisando que a exposição estava cancelada — conta. — Foi uma falta de respeito não só comigo, mas com todos os profissionais envolvidos na mostra e com o público.

Enquanto busca novos espaços para apresentar a mostra no Brasil, a fotógrafa planeja o lançamento de um livro em edição bilíngue, em português e francês.

— Já existe um projeto impresso, uma boneca do livro, com as imagens e os verbetes. Por enquanto, tenho o apoio de uma fundação na França, que paga parte da impressão, e vou batalhar nos próximos meses por verba para publicar até o final do ano — afirma.

Procurada, a Aliança Francesa não respondeu aos contatos da reportagem até o momento da publicação. O espaço segue aberto para manifestação.