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Do picadeiro às telas: aos 82 anos, Índia Morena estreia como protagonista em ‘Mambembe’

Patrimônio Vivo de Pernambuco, artista iniciou a carreira no circo aos 9 anos e integra grupo de mestres reconhecidos por notório saber em cultura popular

Agência O Globo - 10/06/2026
Do picadeiro às telas: aos 82 anos, Índia Morena estreia como protagonista em ‘Mambembe’
Do picadeiro às telas: aos 82 anos, Índia Morena estreia como protagonista em ‘Mambembe’ - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Margarida Pereira de Alcântara, conhecida artisticamente como Índia Morena, chega pela primeira vez ao protagonismo nas telonas com o longa “Mambembe”, em cartaz nos cinemas brasileiros. No Rio de Janeiro, haverá sessão especial no domingo, no Cinesystem Botafogo, seguida de debate.

Aos 82 anos, a artista acumula mais de sete décadas dedicadas ao circo. Reconhecida publicamente por sua trajetória, Índia Morena é registrada desde 2006 como Patrimônio Vivo de Pernambuco, título concedido a mestres e grupos responsáveis pela preservação de saberes da cultura popular e tradicional.

O convite para viver um dos três papéis principais do filme de Fábio Meira — obra que mistura ficção e documentário ao retratar as desventuras de um topógrafo, interpretado por Murilo Grossi, e seu encontro com mulheres do circo — partiu do próprio diretor. Meira percorreu oito estados do Norte e do Nordeste em busca de picadeiros itinerantes que pudessem inspirar o longa.

— Eu procurava artistas de circo que se parecessem com meu roteiro de ficção. E Índia e Madona Show, também retratada no filme, não se pareciam com essas personagens, mas eram tão fascinantes que mudei o projeto para que elas coubessem nele — conta o cineasta.

Conhecida como A Dama do Circo de Pernambuco, Índia Morena administrou por 43 anos uma trupe própria, o Gran Circo Londres. Ao longo da carreira, apresentou ao respeitável público números de contorcionismo, trapézio voador, acrobacia e canto.

A artista integrou a primeira leva de pessoas registradas como patrimônios culturais vivos em Pernambuco. O estado foi o primeiro do Brasil a adotar uma política de reconhecimento patrimonial voltada também a pessoas. A legislação prevê a valorização de mestres ou grupos detentores de “conhecimentos ou técnicas necessárias para a produção e a preservação de aspectos da cultura tradicional ou popular” de comunidades pernambucanas. Atualmente, há 88 personalidades ou grupos em atividade registrados na categoria.

— A diplomação de Índia Morena como Patrimônio Vivo de Pernambuco consagra a trajetória de uma artista referência do circo tradicional — afirma Renata Borba, presidente da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco.

A própria artista tomou a iniciativa de participar do processo de seleção.

— Eu me inscrevi e, quando fui ver, meu nome tinha saído no jornal. Aí virei patrimônio vivo, ganhei diploma de notório saber em cultura popular. Foi uma alegria imensa — relembra.

Da lama ao picadeiro

Ainda criança, Índia Morena ajudava a garantir a renda da família catando siris e caranguejos nos manguezais do Recife, sua cidade natal. Aos 9 anos, viu uma nova oportunidade em um circo que passava pelo bairro de Afogados. Em 1952, o Circo Democratas promoveu um show de calouros em uma matinê infantil perto de sua casa. O prêmio para quem cantasse melhor, segundo a avaliação do público, era um par de sapatos e um corte de tecido.

A menina, que acabara de perder o pai em um acidente, vivia dificuldades financeiras com a mãe e os cinco irmãos. Mesmo assim, decidiu participar.

— Eu fui escondida da minha mãe, entrei por debaixo da lona e, na hora que chamaram para cantar, subi no palco. Fui muito vaiada e recebi várias ofensas, mas pedi ao locutor para dar uma palavra e disse: “Eu já usei meia de seda e sapato colegial, mas hoje eu não tenho nada porque eu não tenho pai. Vocês que têm pai, zelem por ele. E, se eu ando assim e sou isso tudo que vocês estão dizendo, é para que meus irmãos não vão à casa de vocês pedir uma colher de açúcar”. Aí o circo veio abaixo com uma chuva de aplausos — conta.

Em seguida, Índia Morena cantou “Coração materno”, de Vicente Celestino, e foi ovacionada. Venceu o concurso, ganhou os sapatos e o tecido, que rendeu um vestido para ela e para as duas irmãs. Mais do que o prêmio, ficou a paixão pelo circo.

No ano seguinte, aos 10 anos, a menina assistiu a uma apresentação do Circo Itaquatiara e decidiu que queria construir a vida nos picadeiros.

— Fui ao circo e vi uma menina fazendo contorcionismo. O nome dela era Linda Moreno. Quando vi o show, pensei: “Vou-me embora nesse circo”, porque o que ela fazia ali eu já praticava em casa, sozinha — lembra Índia Morena.

Para seguir o sonho, a menina encontrou uma forma de convencer a mãe a deixá-la partir em turnê com o Itaquatiara: convidou a dona do circo para ser sua madrinha de Crisma. O plano deu certo. Ela deixou o trabalho no mangue, viajou com a trupe e iniciou a vida artística.

Ao longo da carreira, os talentos de Índia Morena foram apresentados em diferentes regiões do Brasil e também no exterior. Estados Unidos, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia estão entre os países que receberam seus números. A artista passou por diversos circos, com destaque para o Gran Bartolo, o Itaquatiara e o Edson — este último, mais tarde, transformado em sua própria companhia.

Em 1977, após a falência do Circo Edson, Índia Morena recebeu o que restou da estrutura como pagamento por seu trabalho. Ao lado do marido, Maviael Ribeiro, reergueu a lona e criou o Gran Londres Circo, onde pôde colocar em prática a experiência acumulada em mais de duas décadas de carreira.

Reconhecida como uma das grandes contorcionistas de Pernambuco, ela também passou a se dedicar ao canto e à apresentação de espetáculos, atividades que ainda realiza ocasionalmente.

O grupo circulou pela Região Metropolitana do Recife e permaneceu em atividade por mais de 40 anos. As portas do circo foram fechadas em 2020, quando a mãe de Índia Morena adoeceu e a artista decidiu vender a companhia. Atualmente, ela organiza um museu sobre sua vida em um espaço anexo à casa onde mora, em Jaboatão dos Guararapes, na Grande Recife.

Associação circense, Patrimônio Vivo e atividades públicas

Em 1993, ao completar 40 anos de carreira, Margarida e o marido fundaram a Associação dos Proprietários e Artistas Circenses do Estado de Pernambuco (Apacepe). A entidade atua em defesa dos circenses pernambucanos e reúne acervos de materiais das trupes disponibilizados por seus integrantes.

A atuação em favor da memória e da organização da categoria contribuiu para que Índia Morena ganhasse notoriedade e fosse reconhecida como Patrimônio Vivo de Pernambuco. A candidatura ao título ocorre por meio de edital público, e os nomes são escolhidos por um conselho da Fundarpe, vinculada à Secretaria de Cultura do Estado.

Os contemplados devem cumprir atividades estabelecidas pela pasta, de acordo com seus saberes. Em contrapartida, recebem uma bolsa mensal: R$ 2.479,41 para artistas individuais e R$ 4.958,85 para coletivos.

Hoje, a maior parte das atividades profissionais de Índia Morena está relacionada aos compromissos como Patrimônio Vivo. Ela se dedica principalmente a palestras e oficinas em escolas públicas. Também participa de eventos culturais, como o Festival de Inverno de Garanhuns, que ajudou a fundar, e o festival Pernambuco Meu País.

Protagonismo no cinema

Feliz com a estreia como protagonista, Índia Morena lembra que “Mambembe” não marca sua primeira experiência no cinema. Ela já participou, como elenco de apoio, do aclamado “O Auto da Compadecida”, dirigido por Guel Arraes e inspirado na peça de Ariano Suassuna, autor por quem a artista guarda grande admiração.

Além da sessão especial no Cinesystem Botafogo, no Rio de Janeiro, “Mambembe” está em cartaz em São Paulo (SP), Belo Horizonte (MG), Salvador (BA), Goiânia (GO), Fortaleza (CE), João Pessoa (PB) e Manaus (AM).