Curiosidades
Saiba quem é o autor de mangás que todos querem publicar
Caso de Shintaro Tago mostra como um dos principais nomes do ero-guro, gênero que mistura erotismo e grotesco, se transformou em fenômeno editorial no Brasil
Selecionar imagens de quadrinhos do japonês Shintaro Kago para uma reportagem sobre o trabalho dele não é uma tarefa fácil. O autor é um dos expoentes do estilo ero-guro, gênero que combina erotismo, grotesco e violência, explorando o corpo humano de forma extrema, deformada ou perturbadora.
Mesmo com um tema tão delicado, o mangaká se tornou um fenômeno no Brasil por uma particularidade: praticamente toda editora quer publicar um de seus livros. Ele já está no catálogo de seis editoras e, em breve, sairá por uma sétima (a Tábula colocou em pré-venda o “Dia da cabeça voadora” e já anunciou mais um).
A saga continua.
Cem anos esta semana:
— Ele é um fenômeno editorial porque é fácil licenciar seus mangás — explica Bruno Zago, editor responsável pelos quadrinhos japoneses na Pipoca & Nanquim, que publicou do autor “A princesa do castelo sem fim”, em 2024, e lança “Harem End” em julho — Ao contrário de muitos licenciantes japoneses, os responsáveis pelo catálogo de Shintaro Kago são bem mais acessíveis.
Fama de vender bem
Segundo Zago, os mangás do autor aparecem em catálogos de licenciamento ao lado de obras europeias e norte-americanas, algo pouco comum à maior parte das obras japonesas, que costumam ser negociadas de forma separada:
— Toda editora brasileira já faz negócio com alguém que licencia os livros de Shintaro Kago e, como mangá tem fama de vender bem, quando pinta um título japonês fácil em algum catálogo, a editora logo pega.
Foi mais ou menos assim que o editor André Conti, da Todavia, descobriu e publicou Shintaro Kago pela primeira vez no Brasil. Houve também uma boa parcela de sorte. Em 2016, ele foi convidado a participar do programa de rodadas de negócios do Festival de Angoulême e, lá, conheceu alguém bem especial.
— Acabei me sentando, por acaso, ao lado de Gary Groth, que participava do mesmo programa que eu e é um dos fundadores da editora Fantagraphics e do Comics Journal, uma das figuras mais importantes da história do quadrinho — conta Conti, entusiasmado, por mensagem de áudio. — E, durante o evento, iam aparecendo para falar com ele, que era um cara bem legal, autores como Jason, Trondheim... e eu ali do lado.
Dica de ouro
Assim como Groth, Conti na época também estava em busca de novos títulos de quadrinhos para licenciar por sua nova casa editorial, a Todavia, que nasceria poucos meses depois daquele ano de 2016.
— Então eu perguntei qual livro de seu catálogo, cujos direitos ele tinha e estava representando, era “O” livro — lembra Conti. — Aí ele me olhou e respondeu: “Sem dúvida, aquele pelo qual eu estou mais apaixonado, que acho incrível, mais novo, mais tudo, é o Shintaro Kago!”.
Conti diz que o “novo” amigo estava com uma prova em inglês do livro “Dementia 21”, de Shintaro Kago, nas mãos e resolveu emprestar a ele:
— Como meu gosto para os quadrinhos foi um pouco moldado por ele, peguei o livro emprestado e li naquela mesma noite, no hotel. Achei incrível, engraçado, inusitado... muito diferente, repulsivo e, ao mesmo tempo, muito convidativo. Amei. Enfim, foi “apenas” uma recomendação de Gary Groth.
Um dos mais conhecidos editores de mangás no Brasil, Cassius Medauar também encontrou um Shintaro Kago para chamar de seu, pela Conrad, que acaba de lançar “Parasitic City Vol. 1”, o trabalho mais recente e extenso, do mangaká.
— Acho que o sucesso do autor vem um pouco na onda de Junji Ito e acredito também que o mundo de hoje aceite melhor esse estilo “bizarro” dele! — diz o editor, hoje responsável pelo gênero na JBC, selo da Companhia das Letras. —Aqui, na JBC, acho que por enquanto ele não se encaixa em nossa linha editorial, mas não descarto ter um de seus títulos no futuro.
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