Curiosidades

Cláudio Jorge lança álbum dedicado ao universo negro, incluindo homenagem a Vini Júnior

'Kota, a cor da pele' traz parcerias com Nei Lopes, Elton Medeiros, Wilson das Neves, Chico César e Joyce Moreno

Agência O Globo - 27/05/2026
Cláudio Jorge lança álbum dedicado ao universo negro, incluindo homenagem a Vini Júnior
Cláudio Jorge

Na adolescência, Cláudio Jorge alisava o cabelo. Por volta dos 18 anos, “a consciência veio”, como diz, e ele adotou o estilo black power. Assumiu de vez sua condição de negro.

— Conheci (o fotógrafo) Januário Garcia, presidente do IPCN (Instituto de Pesquisas das Culturas Negras), e conversávamos muito. Paralelamente, comecei minha parceria com Nei Lopes. Isso foi formando a minha consciência, e eu levei para a minha música — conta ele.

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Do muito que compôs sobre esse universo, 13 exemplos estão no álbum “Kota, a cor da pele” (Mills Records). A palavra Kota é usada em Angola para se referir aos mais velhos. Aos 76 anos, Cláudio achou que era a hora de realizar esse antigo projeto.

— É o momento propício. Há muito debate sobre o assunto, muitos negros foram se formando teoricamente. Há muitas falas, livros, e o debate das cotas raciais chamando atenção — diz ele, destacando por que resolveu acrescentar “a cor da pele”. — Quanto mais retinta a pele, maior a dificuldade de ascensão social.

Negro de pele clara, filho do jornalista Everaldo de Barros, cresceu numa família de classe média no Cachambi, na Zona Norte do Rio. Os negros de pele escura moravam na parte de trás do conjunto habitacional, perto da favela do Jacarezinho. Na infância, não sentiu de forma intensa o racismo.

— Tinha noção de ser negro, mas não do tamanho do problema — ressalta ele, que, de qualquer forma, recebia certos cuidados dos pais, juntamente com os irmãos. — Não saímos para ir ao cinema fora do Cachambi sem estarmos impecavelmente vestidos. Era uma forma de proteção.

A mãe fez com que crescesse num ambiente cristão.

— Fui batizado, crismado, ajudei a rezar missa, estudei em escola católica. Meu pai era do candomblé, mas não passava isso para os filhos — recorda. — O candomblé tem tudo de que eu gosto: música, comida, dança e uma explicação do mundo que me interessa.

Sua relação com a cultura negra se tornou permanente. Integrou, por exemplo, o grupo Batacotô, no qual seu violão convivia com percussões de acento africano. Há 39 anos toca na banda de Martinho da Vila. No início dos anos 1980, foi pela primeira vez a Angola, onde conheceu Elvino Gouveia, o Vinito, que financiou “Koto”.

— Acho muito significativo um africano colaborar com um afrodescendente num trabalho sobre esse universo — acredita Cláudio.

Elvino foi amigo de Zero, percussionista que também era babalaô e morreu no ano passado. Para homenageá-lo, Cláudio incluiu seu nome na letra de “Congueiros e ogãs”, composição que já havia dedicado a outro percussionista, Peninha, que fez parte do Barão Vermelho e com quem trabalhou por sete anos na banda de Sivuca.

É a segunda faixa do álbum. A primeira é “Acorda, meu amor!”, em que a letra de Nei Lopes é dita praticamente à capela.

— A música afro-brasileira te sequestra. Às vezes se perde a atenção ao texto, por causa da música e da dança. Queria que a letra do Nei fosse ouvida, intensa. E é um resumo do disco — explica.

Quase todos os parceiros nas composições — assim como os músicos que tocam no projeto — são negros. “Do que é capaz o tambor e o agogô”, uma das cinco do álbum que já tinham sido gravadas, é a última feita com Wilson das Neves, que morreu em 2017. Faz parte de uma série de criações dedicada aos orixás.

“Lágrimas de Deus”, uma das oito inéditas, tem melodia de Elton Medeiros. Cláudio concebeu a letra enquanto assistia ao noticiário da invasão dos Estados Unidos ao Iraque, em 2003, e percebeu, vindo da TV, o som de passarinhos cantando.

— Pode ser que surja uma novidade, que o ser humano dê um salto de consciência, que no futuro as pessoas olhem para trás e digam: “esses caras viviam na porrada!”. Mas não acredito muito — observa.

Para ele, as faixas se emendam, praticamente contando uma história. A parceria com Elton termina com a pergunta “O que fazer para mudar?”, e a música seguinte, com letra de Chico César, é “Muda”.

Não poderiam faltar composições com letras de Nei Lopes. Há “Recado do mar”, “Bate chibata” e “Tia Eulália na xiba”, esta uma das mais conhecidas de Cláudio e que ele ainda não tinha registrado na sua voz.

— É minha primeira parceria com o Nei. Um sucesso nas rodas. Já ouvi até no Uruguai — orgulha-se.

Também tem letras de Arlindo Cruz em “Um novo amor” e Joel Silva em “Histórias e lendas”. Mas também há parceiros brancos: Humberto Araújo em “Onde o samba nasceu” e Joyce Moreno em “O tom do Vinicius”. Esta é uma homenagem a um personagem negro.

— Admiro a postura do Vinicius Júnior. É um jogador de futebol bem-sucedido que encara o racismo. Não tenta ajeitar nada. Vi um jogo em que ele enfrentava o público e pus um poema no Instagram. A Joyce achou que era letra de música, e eu a estimulei a fazer a melodia — conta.

Com outro negro, Ronaldo Barcellos, compôs “Para Wonder e McCartney”, inspirada no duo entre Stevie Wonder e Paul McCartney em “Ebony and Ivory”. É uma defesa da aliança entre negros e brancos não racistas.

— A Beth Carvalho dizia que assumiu a negritude dela. Na comida, na dança, na música, no pensamento, tudo está ligado aos milhões de escravizados trazidos para cá. Isso formatou a alma brasileira — afirma.

A música remete ao início da trajetória de Cláudio.

— O que me levou a ser músico profissional foram os Beatles. Quando apareceram, tiveram muito impacto para mim — lembra. — Toquei guitarra por muito tempo. Tive grupo de iê-iê-iê. Hoje não toco tanto.

Vem tocando um violão que é réplica, feita pelo luthier Álvaro Gomes, do violão do seu avô paterno e no qual aprendeu a tocar.

— (O instrumento) existia desde quando eu não existia. Meu avô dava aula para a minha mãe. Ela largou, e ele pediu para o meu pai ir na casa dela pegar o violão. Foi assim que eles se conheceram — conta.

“Kota, a cor da pele” foi gravado no estúdio de Augusto Martins, cantor com quem Cláudio vem realizando álbuns dedicados ao repertório de artistas negros: Ismael Silva em 2015 e Luiz Carlos da Vila em 2024.