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Grande sertão: savana

A obra-prima de Guimarães Rosa continua produzindo futuros. Há livros que envelhecem. Outros frutificam e espalham sementes.

Agência O Globo - 16/05/2026
Grande sertão: savana
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Em maio de 1956, “Grande Sertão: Veredas” foi lançado pela José Olympio Editora, marcando profundamente a literatura brasileira. Setenta anos se passaram desde então. Para comemorar a data, o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, promoveu uma sessão especial de leitura do romance. Estive presente no evento, ao lado de Leda Maria Martins e Bruna Beber, há exata uma semana.

Enquanto ouvia minhas companheiras declamando trechos e lia também, folheava-me com a vitalidade das palavras de João Guimarães Rosa. Mesmo sete décadas após sua publicação, o romance permanece tão inovador, vigoroso e surpreendente — tanto na linguagem quanto no enredo — quanto em seu lançamento.

“Grande Sertão: Veredas” transformou-se para sempre em literatura brasileira. O que sabemos é que a sua influência também alcançou, de maneira decisiva, a literatura angolana e, posteriormente, a moçambicana.

Em 1964, o angolano José Vieira Mateus da Graça foi enviado para o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, sob acusação de envolvimento com movimentos independentistas. No local, hoje museu, estavam presos opositores do regime salazarista e vários nacionalistas africanos.

Naquele período, José da Graça já era conhecido como Luandino Vieira, nome sob o qual publicou o volume de contos “Luuanda”, premiado em 1965 por uma das mais respeitadas instituições literárias portuguesas. O prêmio gerou escândalo político, resultando no fechamento da Associação Portuguesa de Escritores, acusada de prestigiar um “terrorista”.

Em 1969, Luandino recebia, ainda preso, um exemplar de “Grande Sertão: Veredas”. O diretor do presídio tentou ler a obra para verificar seu teor, mas acabou desistindo logo nas primeiras páginas.

— Isto é ininteligível — teria dito ele.

A falta de compreensão da polícia política portuguesa acabou beneficiando Luandino — e, por extensão, toda a literatura angolana.

Lendo Guimarães Rosa, Luandino descobrem que também poderia subverter a língua portuguesa, adaptando-a ao contexto angolano e criando uma literatura própria, distante da matriz portuguesa. Era um projeto tanto literário quanto político.

Os livros de Luandino passaram a ter densidade e um sabor singular. Em obras como “Lourentinho, Dona Antónia de Sousa Neto & eu” ou o notável “Nós, os do Makulusu”, percebe-se a influência de Rosa, embora já inseridos num universo distinto.

Décadas depois, um jovem moçambicano leu Luandino e, ao estudar o português popular de seu país — profundamente influenciado pelas línguas locais —, realizou experimento semelhante. Assim nasceu Mia Couto.

Se Luandino pode ser considerado filho literário de Rosa, Mia Couto é seu neto. Essa linhagem extraordinária compõe uma das mais fascinantes aventuras da literatura em língua portuguesa.

Setenta anos depois, “Grande Sertão: Veredas” segue produzindo futuros. Existem livros que envelhecem; outros, como este, frutificam e espalham sementes — do sertão à savana.