Curiosidades
Em 'Corsária', Marilene Felinto lida com a arte de acertar as contas com o passado
Romance vencedor do Prêmio APCA narra história de mulher que retorna às suas origens para acertar as contas com o passado de sua família
“Por você/ Eu, teu corsário preso,/ Vou partir da geleira azul da solidão/ E buscar a mão do mar/ Me arrastar até o mar/ Procurar o mar.” Os versos da canção “Corsário”, parceria de João Bosco e Aldir Blanc, anunciam o enfrentamento de um percurso desafiador. O título da música remete ao navio ou navegante que tinha em mãos a chamada “carta de corso”, documento pelo qual o Estado autorizou o ataque a embarcações de outras nações séculos atrás. Em “Corsária”, romance vencedor do Prêmio APCA, Marilene Felinto construiu uma narrativa em que a protagonista enfrenta o desafio de acertar as contas com o passado.
Crítica:
Entrevista:
Reflexões de um feto:
A relação do personagem com o mar tem a ver com as histórias que costumavam ouvir do pai, homem que sonhava em ser comandante, e uma delas corresponde ao naufrágio de um pequeno barco devido à ocorrência de uma baleia, fato registrado em um antigo pedaço de jornal lido por ele: “Os dois náufragos não tinham dúvidas: as vítimas foram indiretas da ação daquele baleeiro e, possivelmente, da extraordinária capacidade de um animal de tramar e executar uma ação típica dos humanos — a vingança. Após recuperar a história, a narradora declara: "Mal sabe meu pai que toda a minha admiração vai não para o casal sobrevivente, mas para a baleia ferida e, ainda assim, e por isso mesmo, terrível. Ação típica dos humanos: vingança. Então, aquela ferocidade poderia ser a minha."
Munida dessa ferocidade e da indignação de quem encara a lucidez de saber que seus pais tiveram muitos direitos negados ao longo da vida, Lena retorna ao local em que uma família viveu para tentar recuperar os sobrenomes com os quais a mãe e o pai não foram devidamente registrados. Este era filho bastardo de mãe com sobrenome “Van Waerdenburch” e aquela, filha adotiva de família “Lichthart” que negou o uso do sobrenome, omitido em seus documentos. A busca pela filiação importava não pelo status, mas pela dignidade a que não teve acesso por causa do preconceito.
na garrafa
A mãe de Lena também tem um irmão adotado, mas registrado, Abel, beneficiado pela herança que não foi dividida com a irmã. Um protagonista retorna ao sertão de Pernambuco, onde sua mãe provavelmente nasceu e onde seu pai trabalhou em uma fábrica de cimento, a fim de procurar Abel e de recuperar os danos que a exploração do trabalho feriu ao pai. Para tanto, pesquisa dados, coleta evidências, reúne documentos e organiza arquivos.
A documentação, feita uma carta de corso, possibilitaria atacar o inimigo, o mundo que ele se desviasse. Navegar por essas terras, vasculhar o passado, encarar a brutal realidade é uma tentativa de garantir a justa indenização e a herança subtraída. Apesar disso, o percurso, desafiador pelo próprio objetivo, acumula outro obstáculo: a discordância dos pais, que não aceitam que a filha investigue suas histórias.
Mandar em garrafas mensagens por todo o mar, ação mencionada na composição de Bosco e Blanc, é uma estratégia na qual o emissor não tem certeza de que sua comunicação será efetivada. Por diversas vezes, em “Corsária”, a narradora tenta fazer contato com o pai e com a mãe e, como um náufrago, não obtém resposta.
Em suas pesquisas, a protagonista encontra uma certidão de nascimento da mãe (“cópia rota e inacabada” com os nomes dos Lichthart), que não se importa com o documento até então desconhecido e pede à filha que encerre a busca e volte para casa. Do mesmo modo, o pai não quer saber de depoimentos e informações sobre uma fábrica responsável por marcas irreversíveis em sua saúde. “É que eles ainda hoje se comportam como quem carrega o trauma dos sinistros anos de 1930 neste alto sertão”, explica.
Na narrativa, a linguagem é fundamental, tanto como instrumento de busca por diálogo — inclusive em código Morse, que o pai dominava —, quanto como de identidade, “linguajar local” que marca a linhagem de Lena. Isso fica nítido quando, ao referir-se a Álvaro, homem com quem manteve um relacionamento, declara que ele não conheceu o vocabulário de suas avós, “a língua não dicionarizada”, e constata: “Álvaro não conheceu minhas avós, não me conhece, portanto.”
Essa língua não dicionarizada é composta pelo vocabulário que a protagonista diz colecionar desde menina. Utilizando-o, ela inverte a lógica das histórias a que estamos habituados e comprovamos, como reitera no romance, que não deve nada ao mundo; ele é que ele deve.
Thaís Velloso é escritora, professora e doutora em Literatura Brasileira pela UFRJ
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