Curiosidades

No primeiro concerto na Zona Leste de São Paulo, Projeto Aquarius une música sinfônica ao pop e ao funk

Com a Orquestra Experimental de Repertório regida por Wagner Polistchuk, espetáculo gratuito neste domingo no Parque do Carmo terá participações de Gloria Groove e MC Tha

Agência O Globo - 15/05/2026
No primeiro concerto na Zona Leste de São Paulo, Projeto Aquarius une música sinfônica ao pop e ao funk
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O Projeto Aquarius, que já teve edições em conhecidos pontos paulistanos como o Monumento do Ipiranga e o Ibirapuera, desembarca pela primeira vez na periferia de São Paulo. O Parque do Carmo receberá neste domingo, a partir das 14h, o concerto gratuito que unirá a música sinfônica da Orquestra Experimental de Repertório com o repertório de Gloria Groove e MC Tha, ambas crias da Zona Leste paulistana, região onde acontecerá o concerto.

— A sensação de cantar num lugar tão significativo para mim, dentro da Zona Leste e num parque que por muitas vezes foi meu quintal na infância, é indescritível. Me sinto profundamente feliz com os movimentos da vida e com a oportunidade de voltar para casa, para a Zona Leste, com a bagagem cheia de vivências para dividir — diz MC Tha.

U2:

'Além do que eu podia esperar':

Gloria Groove tem uma sensação parecida:

— A Zona Leste é a minha base, onde estão minhas raízes, minha história e as pessoas que me viram sonhar muito antes de tudo isso acontecer. Poder viver esse momento ali, diante desse público, torna tudo ainda mais emocionante — descreve. — Foi um processo lindo e também desafiador transformar faixas como “A queda” e “Leilão” em versões sinfônicas. O público vai reconhecer as músicas, mas acredito que também vai se surpreender com as novas emoções que esses arranjos trazem. Vai ser um encontro muito especial.

Para muitos, será uma oportunidade de acessar o gênero conhecido como erudito, já que a música clássica, quase sempre associada às salas nobres do Centro da cidade, será combinada com os ritmos que são mais populares nos extremos da capital paulista.

A designer Bruna Becher, fã de Gloria Groove, vai atravessar a cidade para ver o espetáculo. Moradora da Vila Andrade, bairro periférico na Zona Sul de São Paulo, Bruna entende essa união de estilos como algo fora do comum.

— Acho muito legal quando tem misturas de ritmos musicais diferentes. Geralmente via isso quando era relacionado à MPB, então ficará ainda mais interessante misturando o rap e o funk com música clássica.

Cecília Meireles, profissional que faz extensão de cílios e moradora do bairro Jardim Santo André, é outra que considera a ocasião especial:

— A expectativa é muito grande por uma coisa totalmente diferente aqui na Zona Leste.

Numa rápida sondagem, a reação do público à iniciativa do Projeto Aquarius de trazer para a periferia a possibilidade de conhecer um concerto pertinho de casa (já que os espetáculos raramente acontecem nos bairros mais distantes do Centro) só reforça a necessidade de democratizar o consumo da música sinfônica nas regiões mais populares da capital paulista.

— Para nós, periféricos, o acesso a orquestra é muito restrito. Então a gente se empenha para ir ver — enfatiza Fernando Carvalho, produtor cultural que vive em São Mateus.

O bairro onde Fernando mora figura entre os piores distritos no quesito quantidade de espaços públicos de cultura. A região ocupa a 69ª posição entre os 96 distritos da capital paulista, segundo o Mapa da Desigualdade de São Paulo, feito em 2025.

Regente do espetáculo do Aquarius, o maestro Wagner Polistchuk exalta a ocasião também como acesso a diferentes tipos de música.

— O que a gente sempre espera é que as pessoas que vão assistir à música clássica acabem recebendo informações diferentes, enquanto a pessoa que for ver a MC Tha e a Gloria Groove também poderá ver a música clássica.

Para democratizar o acesso a cultura e lazer, a cidade de São Paulo tem um desafio geográfico. Segundo a pesquisa “Um olhar estratégico para o orçamento da cultura e o investimento social privado”, realizada em 2025 pelo Observatório Ibira 30, cerca de 60% dos equipamentos culturais estão no Centro da cidade. A pesquisa também revela que, para pessoas que residem em bairros mais afastados, além da distância, há dificuldade de acessar esses espaços por causa de limitações no transporte público. Para os moradores do bairro de Cidade Tiradentes, no “fundão” da Zona Leste, por exemplo, o trajeto até o Centro pode levar duas horas.

— O próprio deslocamento da pessoa é mais complicado. Então é sempre muito importante que a gente vá lá também e não só pedir que as pessoas venham até o Theatro Municipal ou até a Sala São Paulo. É importante a orquestra estar perto delas também — diz o maestro Wagner Polistchuk.

A professora Fernanda Ribeiro, moradora de Itaquera há 36 anos e vizinha do lugar que receberá o Aquarius, no Parque do Carmo, reforça a ideia, dizendo que a quantidade de espaços culturais em Itaquera não é o bastante para a população local:

— Não é suficiente, acredito que a gente deveria ter muito mais espaços com disponibilidade para ver shows e peças de teatro.

Na Zona Sul paulistana, na terceira maior favela do Brasil, segundo o último Censo do IBGE, está a Orquestra Filarmônica de Paraisópolis, projeto que busca popularizar a música clássica no local.

Para Paulo Rydlewski, criador e maestro da Orquestra Filarmônica de Paraisópolis, a atitude de unir a música clássica com ritmos populares é essencial na divulgação do gênero:

— É uma atitude inclusive necessária para que as pessoas conheçam o poder e o potencial de uma orquestra de transformar as músicas e gerar beleza, cultura e educação. Hoje tenho alunos que vão para o baile funk, mas adoram Beethoven com a mesma paixão.

Público presente

Como forma de aproximar os clássicos dos moradores de Paraisópolis, a orquestra local tem cursos de formação em música, com 680 alunos.

— É extremamente importante ter eventos de música clássica na periferia. O público aqui é muito diverso e eclético, é primordial ter acesso a esse tipo de música e cultura — diz a analista de projetos culturais Renata Oliveira, moradora do Parque São Lucas, na Zona Leste.

A reivindicação de Renata esbarra em limitações. O principal palco de música clássica de São Paulo é o Theatro Municipal, no Centro. E, mesmo com as iniciativas de democratização da casa, as apresentações de coral, orquestra e balé não alcançam todas as regiões de forma equilibrada. O “Municipal Circula” é uma iniciativa que busca ampliar o consumo da música de concerto e dança, porém, foram apenas oito os espetáculos do corpo artístico do Theatro Municipal realizados nos CEUs (Centros Educacionais Unificados) nas periferias. Apresentações que reuniram 3.468 pessoas, média de 433 espectadores em cada sessão.

Enquanto isso, 395 sessões de espetáculos aconteceram dentro do Theatro Municipal, segundo dados do relatório anual de 2025 realizado pela organização Sustenidos, responsável pela gestão do teatro. Eis mais uma prova de que são bem-vindas mais iniciativas como o Projeto Aquarius.

— O Aquarius é um projeto com uma história muito significativa junto à Petrobras. Apoiamos pela segunda vez sua edição paulistana. Estamos presentes em São Paulo levando energia a projetos de destaque, sempre contribuindo para o acesso e desenvolvimento da cultura — afirma Milton Bittencourt, gerente setorial do Patrocínio Cultural da Petrobras.

Ministério da Cultura e Petrobras apresentam o Aquarius SP através da Lei Rouanet. O evento tem o oferecimento da Prefeitura de São Paulo e do Governo de São Paulo como Estado Anfitrião. O projeto conta, ainda, com Patrocínio Master da Fundação Theatro Municipal, Patrocínio da Vivo, Apoio da Motiva, por meio do Instituto Motiva, Sabesp e da Porto, Apoio Institucional do Metrô de São Paulo, assessoria de Imprensa da InPress, parceria da P&G Cenografia, produção da SrCom e realização CBN, O GLOBO, Ministério da Cultura, Governo Federal, ao lado do povo brasileiro.