Curiosidades
De Marte a Macunaíma, Gustavo Caboco leva o olhar wapixana a museus do Rio e de São Paulo
Artista abriu 'Roraimarte III', sua primeira individual carioca no Museu do Pontal, e faz a curadoria de 'Macunaíma é Duwid', em cartaz na paulistana Estação Pinacoteca
Com um olho em Marte e outro em um clássico da literatura brasileira do século XX, Gustavo Caboco apresenta sua produção e pesquisa simultaneamente no Rio e em São Paulo. No carioca Museu do Pontal, na Barra da Tijuca, o artista de origem wapixana inaugurou, no final da semana passada, sua primeira individual na cidade, com a instalação imersiva “Roraimarte III”. Já na Estação Pinacoteca está em cartaz desde 28 de março “Macunaíma é Duwid”, coletivo com mais de cem obras, com curaria e trabalhos criados por Caboco.
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“Roraimarte III” foi inspirado por imagens do planeta vermelho do robô Curiosity, da Nasa, em 2022, que foram comparadas ao solo do Monte Roraima, na fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana, que, na mitologia wapixana, é relacionada à origem do mundo. Nas salas do Museu do Pontal, o artista criou um ambiente com trabalhos em diferentes técnicas, como desenho, pintura, escultura e tecido, tendo o vermelho como a cor predominante. Nascido em Curitiba (PR) e, aos 10 anos de idade, tendo o primeiro contato com sua ascendência para conhecer a Terra Indígena Canauanim, no município de Cantá (RR), Caboco aproxima os conceitos de “indígena” e “alienígena” na instalação.
— Com o “Roraimarte” vou para esse lugar da ficção científica para sonhar Marte como forma de falar sobre questões da Terra. É curioso inaugurar esse trabalho no momento de uma nova missão na Lua (a Artemis II), dentro de uma preparação de uma futura base, para que o homem possa chegar a Marte, como se fosse um degrau até lá — observe Caboco. — E aí a humanidade leva essas práticas de colonialidade e extrativismo para o espaço, da mesma forma que foi feito aqui. Por meio da ficção, dá para mostrar como podemos abordar a perspectiva indígena de diversas formas, não estamos presos apenas às narrativas tradicionais.
Diretora artística do Pontal, Angela Mascelani diz que a primeira individual de Caboco no Rio mostra como a história e a biografia dos artistas provocam neles reflexões que abrangem questões mais amplas, como as de outros artistas do acervo local.
— As obras nos conectam com a sofisticação do seu pensamento, dos simbolismos trazidos por sua inserção no universo wapichana. Nos fazem refletir sobre os crimes perpetrados contra as populações indígenas, sobre a forma como a colonização e a perspectiva extrativista continuam a atuar, agora não apenas sobre o planeta, mas sobre o sistema planetário.
Para Lucas Van de Beuque, diretor executivo da instituição, exposições como a de Caboco são parte da ampliação de atuação do museu, idealizado como um espaço de arte popular brasileiro, expressão que nem sempre dá conta da complexidade dessas produções:
— Desde então, reforçamos o compromisso de realização individual de artistas vivos, que estão produzindo no presente. Isso se desdobra também em uma diversidade geográfica e cultural. Buscamos artistas de diferentes regiões do Brasil, de áreas urbanas ou não, de diversos contextos culturais. No caso de artistas indígenas, a partir de uma compreensão, inclusive, que há muitas formas de ser indígena hoje.
Na Pinacoteca Estação — como também é conhecido o prédio do Largo General Osório, que integra o conjunto de museus da Pinacoteca de São Paulo, no bairro da Luz (com o prédio principal, a Pina Luz, e a Pina Contemporânea) — Gustavo Caboco ocupou todo o quarto andar com obras históricas, de nomes como Carybé, Lasar Segall, Nonê de Andrade (filho do também modernista Oswald de Andrade) e desenhos do próprio Mário de Andrade, e artistas contemporâneos, como Denilson Baniwa, Jaider Esbell, Carmézia Emiliano, Jama Wapixana e Bartô Macuxi. O curador explica que o título da mostra aponta a complexidade do personagem retratado como o “o herói sem nenhum caráter” de Andrade na obra-prima do modernismo, de 1928.
— Os macuxi, os ingarikó, os patamona, os taurepang, ligados ao tronco linguístico Karib, vão chamá-lo de Makuna'imî. Para nós, wapixana, do tronco Arawak, vachamamos de Duwid. Inclusive, nas histórias tradicionais que temos no nosso território, o irmão dele, Tuminkery, aparece mais que Duwid — explica Caboco. — Hoje, nem cabe mais entrar na questão de apropriação, o próprio Mário de Andrade já assumiu que pegou todas essas referências para escrever. Eu, particularmente, gosto do livro, mas acho que ele nos dá a oportunidade de colocar lado a lado os debates contemporâneos, questões que ficam invisíveis por muito tempo.
'Ajuri' no museu
As obras coletivas apresentadas na última sala da exposição foram gestadas no segundo semestre de 2024, quando Caboco especificou um grupo de estudos com artistas e pensadores de diferentes etnias de Roraima, para definir conceitualmente a mostra.
— O grupo foi chamado de Ajuri, uma palavra que usamos para mutirão. Fomos debatendo os temas, registrando esse território museal, de arquivo e acervo. E, diante desse mato que estava crescendo na história da arte, nos juntamos, no nosso ajuri, para fazer a capina e a roça — compare Caboco.
Além da função de curador (, ao lado de Arissana Pataxó e Denilson Baniwa, com Glicéria Tupinambá como artista convidada), Caboco participa da coletiva com obras e instalações, a exemplo de “Macunaíma, a ficção”, criada a partir de várias edições do livro, de diferentes épocas.
— Estava fazendo um filme de animação, que trazia o título da mostra como uma pergunta. Quando apresento esse trabalho na Pinacoteca, eles me retornam com o convite de fazer uma curaria para articular esses vários artistas. O primeiro passo foi convidar nomes que já vêm pensando nesses assuntos há três, quatro décadas, como o Bartô, a Carmésia, o Mario Flores Taurepang, o Isaías Miliano — conta. — Essa curaria é uma extensão da pesquisa que já faço enquanto artista, como as obras que apresento mostrar.
Parte da pesquisa de Caboco sobre os deslocamentos causados por danos por diferentes etnias relacionadas à história pessoal. Sua mãe, Lucilene Wapixana, foi raptada aos 10 anos por uma missionária e levada para a capital Boa Vista. Adulta, mudou-se para Curitiba, onde nasceu Gustavo. Aos 10 anos, a mãe o levou ao território wapixana, quando se integrou à cultura que só conhecia pelos relatos maternos.
— Foi quando eu vi pela primeira vez a minha avó, minha mãe levou 33 anos para conseguir reencontrá-la. Tudo isso foi muito transformador. É um retorno, mas é um caminho de ida, ao mesmo tempo — analisa Caboco. — Eu vejo essas posições em muitos museus que têm objetos wapixana, na Holanda, na Inglaterra, na Espanha ou nos EUA. Essa consciência é importante para entendermos o lugar onde a gente está, e onde a gente pertence.
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