Curiosidades
Lumineers: 'Uma armadilha para o artista jovem é achar que todas as músicas precisam ser sobre ele'
Prestes a vir ao Brasil para uma série de shows, o cantor Wesley Schultz credita a sobrevivência de sua banda à capacidade de reconhecer uma boa história: 'Acho que todos nós somos meio vampiros, estamos sempre procurando por algo que nos prenda'
Metade da dupla que fundou os Lumineers, um dos mais bem-sucedidos grupos do folk-rock mundial, Wesley Schultz abre o coração ao GLOBO. E diz que um dos motivos pelos quais ele e o parceiro Jeremiah Fraites continuam gostando de fazer música, depois de mais de 20 anos juntos, é porque, desde o começo da carreira, eles não baseiam a criação “em um reflexo do que acontece na era moderna”.
— Nós gostávamos muito de música, e estávamos criando nossa própria versão do que amávamos. E acho que as melhores bandas sempre fazem isso — ensina o cantor, violonista e compositor, a poucos dias de voltar ao Brasil para shows no Rio de Janeiro (dia 22, no Vivo Rio), em Curitiba (24, na Live Curitiba) e São Paulo (25, no Suhai Music Hall). — Tem uma música ótima do Led Zeppelin, "Brony-Y-Aur Stomp”, e eu lembro de ter conhecido o (cantor) Robert Plant e queria contar para ele que essa música tinha inspirado “Flowers in your hair”, mas pensei: “Nossa, ele vai achar que a gente copiou!”.
Milton Nascimento:
Martinho da Vila inicia sua ‘última grande turnê’, ao lado de Mart’nália:
Já uma outra banda, The Felice Brothers, tinha uma canção que, segundo Schultz, serviu de inspiração para “Ho Hey”, até hoje o grande hit dos Lumineeers:
— Anos depois, conheci alguns dos integrantes que disseram: “Não, ela não soa nada parecida”. Acho que cada um de nós tem suas ideias sobre como se inspira...
Amigos de Nova York que começaram no circuito de covers e só depois resolveram compor, Schultz (hoje com 43 anos) e Fraites (40) passaram de 2002 a 2009 tentando a sorte, até que se mudaram para Denver, no Colorado, em busca de melhores oportunidades. Lá, em 2011, já como The Lumineeers, gravaram “Ho hey”, a música que abriria as portas do mundo no ano seguinte, em meio a uma onda de grupos de indie-folk, liderada pelos ingleses do Mumford & Sons (que, por sinal, vêm este ano ao ).
— Lembro-me de ouvir os Avett Brothers no rádio com aquela música “I and love and you” (de 2009), e pensar: “Nossa! Se eles estão tocando isso, talvez toquem nossa música um dia!” E aí o Edward Sharpe apareceu no programa do (David) Letterman e pensei: “Caramba, isso é incrível.” — recorda-se o cantor. — Eles estavam tocando isso, e depois Mumford & Sons, e um monte de outras bandas. Senti que estávamos sendo aceitos pelo mainstream, foi o timing perfeito para o lançamento do nosso disco. De repente, o mundo inteiro disse: “É, eu já ouvi isso!”
O sucesso de “Ho hey” foi tão grande que lhes valeu a fama — dividida com “Home”, de Edward Sharpe and the Magnetic Zeros — de criadores de um gênero musical, a stomp clap hey music, uma variação meio caricata da country music.
— Acho que sim, a gente batia os pés (stomp), batia palmas (clap) e dizia a palavra "hey". Então, eu me aproprio disso — brinca o artista.
Wesley Schultz crê que parte da longevidade do Lumineers — e o fato de terem tido outros hits além de “Ho hey” — vem do interesse em compor sobre diferentes pontos de vista, não apenas sobre si mesmos.
— Por exemplo, “Cleopatra” é uma história contada da perspectiva de uma mulher, e eu me orgulho muito dessa canção. Ela não é convencional — diz. — Acho que ter histórias e personagens sempre me abriu portas. A capacidade de reconhecer uma boa história, seja de um amigo, ou de alguém que você conhece por acaso, é algo que nos diferencia dos outros compositores. Acho que todos nós somos meio vampiros, estamos sempre procurando por algo que nos prenda, algo que nos cative, algo interessante. E nem sempre precisa ser a nossa vida. Uma pequena armadilha da cultura individualista na música hoje é a do artista jovem achar que todas as músicas precisam ser sobre ele.
Assim como os compatriotas do grupo , o Lumineers é um grupo de muitas músicas com nomes de mulheres: “Cleopatra”, “Ophelia”, “Gloria” e até uma “Gale song” (nome que, a bem da verdade, pode servir a homens e mulheres).
— E temos “Darlene”, “Elouise”... — vai lembrando Schultz. — Eu estava cansado de ouvir canções de amor cujos títulos eram expressões genéricas, então me pareceu mais concreto chamar a música de “Angela” do que de "Home at last", mesmo que o refrão seja esse... talvez “Angela” desse um ar de mistério à música.
“Ho hey” e “Ophelia” valeram aos Lumineers a entrada em um (ainda hoje) seleto clube: o dos artistas com músicas que ultrapassaram um bilhão de plays no .
— Significa muito estar na companhia desse tipo peculiar de pessoas — esclarece o cantor. — Lembro-me de ter pesquisado e percebido que havia apenas umas 13 bandas com duas músicas com mais de um bilhão de execuções no Spotify. Era incrível que não houvesse tantas bandas assim (no meio de uma multidão de artistas solo). Para nós é legal, porque são momentos (nos shows) em que você se sente como se estivesse tocando um cover, como se estivesse num karaokê. As pessoas todas sabem a letra, a música faz parte da vida deles há muito tempo, e você está ali só para curtir o momento.
Para ele, é algo da natureza humana querer ver os seus artistas favoritos ao vivo. E, não à toa, uma das maiores forças dos Lumineers está em seus shows.
— Eu estava ouvindo Harry Nilsson ontem à noite, e lembrei que ele era famoso por ter um medo enorme de palco. E, como resultado, isso limitou o número de pessoas que realmente tiveram a oportunidade de ouvi-lo. E eu também acho que a personalidade se revela quando você vê alguém ao vivo. Você consegue sentir a vibe da pessoa — diz. — Em 2012 e 2013, a gente fazia mais de 150 shows por ano, mas agora acho que algo entre 50 e 90 shows por ano é muito mais viável. Porque, se você fizer isso direito, estará contribuindo muito para uma espécie de troca. Você não é apenas uma máquina que liga e desliga, há algo que você busca, uma conexão, você sente que está unindo pessoas e, com sorte, compartilhando uma emoção. Você está tentando criar algo juntos, e isso exige certo nível de sacrifício.
Kid Abelha:
No Brasil, onde já se apresentaram um punhado de vezes e onde contam com hits como “Ho hey”, “Ophelia”, “Stubborn love”, “Sleep on the floor” e “Cleopatra”, Wesley Schultz diz ter encontrado um público para lá de animado.
— Você recebe um nível de emoção que que não se vê em qualquer lugar. É algo muito raro, e parece que isso acontece em todo o país. O público é emotivo e se sente à vontade para expressar isso. Não é como em alguns países, onde as pessoas são muito mais... eu diria estoicas ou reservadas. Esse não é o caso no Brasil — garante. — O público brasileiro conhece nossas músicas! Tocar aí foi uma experiência reveladora. E ver a multidão se mover como uma coisa só é incrível, nunca tinha presenciado nada parecido.
Desta vez, eles vêm com um novo album, “Automatic” (2025), do qual estão fazendo turnê.
— O comentário mais frequente em todas as nossas postagens é “venham para o Brasil”, isso virou quase um meme da nossa banda. Não importa o que a gente poste, sempre tem alguém comentando “venham para o Brasil”. Então, uma vez que a gente não vai aí toda hora, o que a gente busca fazer é tocar músicas de todos os nossos álbuns, incluindo as de “Automatic”. O problema é encaixar tanta coisa em um único show! — admite o cantor.
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