Curiosidades
AI slop: Novelinhas de frutas e vídeos de bichinhos fofos viralizam com baixa qualidade e riscos; entenda
Especialistas alertam que vídeos gerados por inteligência artificial, apesar do apelo, podem disseminar desinformação, reforçar estigmas e impactar a capacidade cognitiva
Perfis em redes como Instagram, TikTok e Shorts do YouTube estão parecendo uma feira. —com características humanas, coloridas e cheias de graça — proliferaram ao estrelarem vídeos gerados a partir de inteligência artificial. Protagonistas de “novelinhas” em que cada episódio tem até um minuto de duração, as frutas contam histórias de traição, treta de família e outros babados típicos de folhetim.
Abacatudo, Moranguete e Bananildo:
Degeneração cerebral:
Engraçados e até ingênuos à primeira vista, para especialistas em cultura digital esses vídeos não passam de “AI slop” (em português, lixo de IA ou chorume de IA). Isso porque, além de cuidar de investir em design e conteúdo de qualidade, as frutinhas (ou bichinhos) podem esconder notícias falsas e até promover estigmas sociais, de gênero e raça. Além disso, servem de “alimento” para as próprias ferramentas de IA generativa, que passam a reproduzir conteúdo medíocre. Mais: comentários até, veja só, para deteriorar nossa capacidade cognitiva. Para as redes sociais, no entanto, elas são mais uma isca para a gente permanecer engajada, scrollando, scrollando...
A “maior novidade de todos os tempos da última semana” chega para fazer companhia aos infinitos vídeos de animais e objetos antropomórficos, como a xícara Ballerina Cappucina, que já inunda as redes.
— Todos esses vídeos, de frutas a bichinhos, são de baixa qualidade e feitos para capturar a atenção — diz Nina da Hora, cientista da computação.
Perigo à vista
As brigas da “Moranguete” e do “Abacatudo”, duas das frutas mais populares das redes, estão longe, portanto, de serem apenas entretenimento. Para especialistas como Nina da Hora, muitas dessas novelinhas carregam mensagens problemáticas. Misoginia é um exemplo: as personagens femininas estão sempre envolvidas em histórias de ciúme, submissão e sedução.
— Esses materiais, criados com linguagem de animação, encantam o público infantil e jovem e, muitas vezes, reproduzem desinformação e violência de vários tipos — diz Mariana Ochs, coordenadora do EducaMídia, programa de educação midiática do Instituto Palavra Aberta.
Crianças e adolescentes são os mais afetados, mas os adultos também não escapam. Para estudiosos, a capacidade cognitiva de todo o mundo sai prejudicada à medida que se passa muito tempo olhando gatinhos (ou cachorrinhos, passarinhos, coelhinhos) em atividades triviais de humanos como... lavando louça.
—Esses vídeos nos dão uma sensação de que tudo é meio igual e previsível, sem alma, e nos fazem perder a concentração e a conexão com a realidade— diz Anderson Rocha, professor titular de Inteligência Artificial da Unicamp e coordenador do laboratório Record.ia. —Para o cérebro, na questão do desenvolvimento crítico, é péssimo. Se ele está em formação, é pior ainda.
Com a popularização de ferramentas de IA como ChatGPT, é cada vez mais fácil tentar emplacar um viral. No caso das novelinhas de fruta, ao que tudo indica, o modismo começou no TikTok com a @ai.cinema021. A conta, sem dono conhecido, lançou o “Fruit Love Island”, paródia do reality show de relacionamento britânico “Love Island”.
O engajamento foi avassalador, a ponto do TikTok derrubar alguns dos posts por suspeita de uso de robôs. Mas o “estrago” já estava feito: as frutas povoaram o mundo todo, tagarelando em vários idiomas.
Atualmente, existem até cursos que prometem ensinar o caminho das curtidas. Em um deles, a partir de R$ 9,99, é possível comprar pacotes para “criar vídeos com IA que viralizam e geram renda extra”. Quem lê pensa que vai sair diplomado roteirista de Hollywood. A promessa é de ensinar na criação de “personagens que grudam na mente do público” e estruturas narrativas com ganchos e finais para novelinhas de frutas.
— (Geralmente) os criadores geram vários vídeos de baixo custo para ver qual deles faz sucesso — diz Anderson. — Quando descobrem o que funciona, começam a ganhar dinheiro em cima das plataformas, que também saem ganhando.
Apesar de terem diretrizes contra conteúdos automatizados e não originais, algoritmos de plataformas como TikTok, YouTube e Instagram acabam impulsionando novidades de frutas justamente para manter as pessoas mais tempo conectadas.
—Note que são sempre vídeos que favorecem a rolagem rápida — diz Anderson. — Então, ganha o criador, ganha a plataforma. E, com certeza, apesar de achar que está ganhando, o usuário é quem sai perdendo alguma coisa.
Uso legítimo
Com tanto “lixo” produzido pela IA, pode ficar cada vez mais difícil separar o joio do trigo. A chamada “poluição informacional”, alertam os estudiosos, ajudam a impactar a qualidade das próprias ferramentas de IA. Vira um círculo vicioso, afinal, os serviços de IA são treinados com dados que já estão disponíveis na internet. Se o ambiente está lotado de textos e vídeos de baixa qualidade, os sistemas vão se abastecer de dados medíocres e repetitivos e entregar... mediocridade e reprodução.
—A IA precisa de diversidade, de diferentes estilos de escrita e temática — destaca Anderson Rocha, da Unicamp. — Por isso, temos uma IA melhor quando treinada por conteúdo feito por humanos. A lógica dos geradores artificiais de vídeo é a mesma: se você oferecer um monte de frutinhas e cachorrinhos alto-falantes, eles só tendem a piorar. Mas o problema não é a IA em si, é o uso preguiçoso e industrial dela.
Enquanto apontam o conteúdo para o conteúdo de baixa qualidade, especialistas também ressaltam que não se deve demonizar as ferramentas de IA. Para muitos, o importante é despertar o senso crítico sobre essas modas digitais, afinal, muitas pessoas acabam se sentindo tentadas a entrar em uma tendência, não necessariamente com segundas intenções (além do engajamento, claro). Nos últimos dias, por exemplo, perfis de empresas, políticos, prefeituras e tempos de futebol foram totalmente ocupados por imagens fofinhas de frutas.
—É tudo sedutor, então, precisamos de um grande esforço educativo para nos perguntar: o que pode ter aqui que não estou vendendo? — diz Mariana Ochs, do EducaMídia. — Mas é importante não desqualificar o uso legítimo da IA nas artes visuais, no audiovisual, na publicidade. O problema é a utilização genérica, pouco reflexiva e aprofundada.
Pesquisadores alertam ainda que é especialmente importante estar de olho no que surge nas redes num ano eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral proíbe deepfakes, a manipulação de um rosto ou de uma voz a partir da IA. Mas como agir em relação a uma história de frutas ou bichinhos que também pode tomar partido com fake news?
— precisamos pensar em como agir quanto a esses conteúdos sintéticos — diz Nina da Hora. — É fácil colocar um político com cara de fruta, por exemplo. O TSE vai ter que se posicionar quanto a isso.
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