Curiosidades
Rosana Paulino, Adriana Varejão e Diane Lima detalham projeto do Pavilhão do Brasil
Artistas integram o projeto curatorial 'Comigo ninguém pode', sob curadoria de Diane Lima; mostra italiana será inaugurada em 9 de maio de 2026
A curadora Diane Lima e as artistas Rosana Paulino e Adriana Varejão, selecionadas para representar o Brasil na 61ª edição da Bienal de Veneza, apresentaram o projeto 'Comigo ninguém pode', concebido em conjunto pelo trio.
Inspirado em um desenho da série "Senhora das plantas", de Rosana Paulino, o projeto parte das múltiplas camadas simbólicas da planta popularmente conhecida como comigo-ninguém-pode. Por sua toxicidade, a planta tornou-se símbolo de força e resistência, além de ter significado especial para religiões de matriz africana, sendo associada à proteção espiritual e ao afastamento de energias negativas.
Tradicionalmente, o Pavilhão do Brasil em Veneza é assinado pelo curador da edição anterior da Bienal de São Paulo. Nesta edição, a expografia será desenvolvida por Daniela Thomas, e a produção das duas artistas, que abrange mais de três décadas, será apresentada em diálogo. O público poderá conferir obras que abordam temas como a questão colonial, fissuras históricas, reparação e a relação com a natureza.
Processo coletivo e diálogo artístico
— A proposta do Pavilhão parte de uma energia, de um sentimento. O título propõe uma ação, que tem a ver com um processo de metamorfose, presente na obra da Rosana e também nas obras que Adriana apresentará — explica Diane Lima. — São dois mundos que vão coabitar o espaço, com uma atenção redobrada à história colonial brasileira, elementos presentes na prática das duas artistas. Por outro lado, o espaço traz a metamorfose, a espiritualidade e a natureza como formas de resistência.
Rosana Paulino destaca o caráter coletivo do projeto:
— Todo o processo foi feito a três. Foram muitas conversas que nortearam a construção de trabalhos novos e de remontagens que estamos apresentando. Além do diálogo entre nós, há a conversa entre as obras e com a estrutura do pavilhão, que trouxe desafios técnicos — afirma a artista.
Memória e representação
Adriana Varejão ressalta como temas históricos e de memória estarão presentes no pavilhão, entrelaçando as pesquisas das duas artistas.
— Quando montei minha exposição em Lisboa, uma das salas tinha o título "Faca amolada". Os portugueses diziam que ninguém mais sabe o que é isso, pois é português arcaico. Perguntei à minha filha de 10 anos o que significava, e ela respondeu: "uma faca afiada". As memórias se preservam, mesmo que sua origem se perca — observa Adriana. — "Comigo ninguém pode" traz a ideia de uma memória enraizada, uma metáfora muito bonita do trabalho da Rosana. Isso me afetou, porque sempre trabalhei com o barroco, um estilo que não é ligado à natureza, mas sim à representação. Usei essa ideia para simular ruínas que se metamorfoseiam em elementos naturais.
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