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No dia de seu aniversário de 50 anos, Toz Viana abre a mostra 'Ciclo': ' Quero viver outros 50, a meta é o Oscar Niemeyer'

Referência do grafite carioca, artista apresenta telas e obras tridimensionais na Galeria Movimento, na Gávea

Agência O Globo - 15/03/2026
No dia de seu aniversário de 50 anos, Toz Viana abre a mostra 'Ciclo': ' Quero viver outros 50, a meta é o Oscar Niemeyer'
Toz Viana - Foto: Reprodução / Instagram

No ateliê que ocupa há três anos na Praça Bandeira, Zona Norte do Rio, Tomaz Viana, o Toz, instalou um balanço de tecido colorido, que envolve quem nele senta como um grande abraço de personagens como Shimu, Nina e Insônia, transformados por ele em parte da paisagem da cidade por meio do grafite, do qual integrou a primeira geração local, há três décadas. Da mesma forma, ele desconstrói as formas pintadas nos muros nas obras apresentadas na individual “Ciclo”, a ser inaugurada hoje na Galeria Movimento, na Gávea, onde o público poderá identificar as bolas carregadas pelo Vendedor de Alegria nos círculos das telas e nas esculturas de meia esfera presas às paredes.

Relatório anual Art Basel/UBS:

Fernando Young:

Além das mudanças na carreira — da street art dos anos 1990, explorada pelo jovem soteropolitano em mudança definitiva para o Rio, às galerias, feiras de arte e instituições como o MAC Niterói, o Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e a Caixa Cultural — o título da mostra também aborda a passagem do tempo. Neste domingo, Toz celebra, junto da abertura da mostra, o seu aniversário de 50 anos, idade com a qual garante estar confortável.

— Acho que os 40 anos me assustaram mais. Você ainda acha que tem de se provar, que não conquistou o que queria. Com 50 anos estou tranquilo, me sinto parte dessa produção artística da cidade, que vai do Maxwell (Alexandre) ao (Carlos) Vergara. Antes me revoltava mais com algumas coisas, ou reagia mais a opiniões, hoje estou mais calmo. Talvez seja porque esteja mais seguro do que estou fazendo — avalia Toz. — Quando tinha 20 anos, os 50 pareciam muito diferentes. Era uma idade que nem imaginava chegar, aprontei muito. Hoje quero viver mais 50, a meta é o Oscar Niemeyer (risos).

Curadora da mostra, Paula Mesquita aponta como Toz segue trabalhando as formas desenvolvidas no grafite em diálogo com referências da História da Arte e da produção contemporânea, como já havia feito em sua .

— Ele traz um vocabulário marcado pela cor, pela repetição, pelo gestual, que vai dialogar com o legado construtivo, em algumas obras. O círculo é fechado, mas traz a ideia do movimento, da continuidade, que é forte na produção dele — analisa Paula. — Quando deixa os personagens e a narrativa e vai para o abstrato, o Toz se volta para a forma primordial do círculo. Que está presente no Vendedor de Alegrias, mas quando é feita vazada, com pontos de cor, cria uma vibração no espaço.

Do período em que se tornou um carioca honorário, os últimos dez anos Toz tem vivido em Santa Teresa, bairro em que costumava subir para grafitar e que hoje mantém quase um museu a céu aberto com suas obras, como no muro frontal ao célebre Bar da Fatinha e na fachada do Nega Tereza Bar, ambos na Rua Áurea, ou nas paredes inteiramente cobertas de uma casa na Rua Oriente. O artista também trabalhava em casa, até transferir o ateliê para o galpão na Praça da Bandeira, de propriedade de Ricardo Kimaid, diretor da Movimento.

— Fiquei uns 12 anos com ateliê em casa, era o meu sonho. Pintar a hora que eu quisesse, do lado dos meus cachorros. O problema é que sou workaholic, ia dormir meia-noite e às 7h da manhã já voltava para a tela, sem nem tomar café direito. Foi importante fazer essa separação, me organizar para sair para trabalhar. Fui CLT por anos, depois tive escritório de design. Precisei voltar a isso, separar as instâncias da vida — conta Toz. — Santa Teresa sempre absorveu bem o grafite, é um bairro de artistas, os próprios comerciantes nos convidavam. Era um lugar onde a gente tinha tempo de trabalhar, desenvolver melhor o que queria fazer.

É no bairro também que o artista promove um trabalho social voltado a crianças e jovens por meio do jiu-jitsu, luta que pratica desde os 15 anos e na qual é faixa-preta. No Projeto Paz, ele recebe alunos da vizinhança, das comunidades do Fallet, Fogueteiro e Coroa, chegando até o São Carlos e a Mineira.

— Comecei com um projeto de grafite, mas é difícil quando não há uma estrutura na escola para dar o suporte. Então o jiu-jitsu virou uma ferramenta possível, porque não tem interpretação. É técnica, repetição, disciplina. E eles podem aplicar isso na vida, cria um propósito, um autocuidado — comenta. — Para mim foi importante, como também foi o judô, a capoeira. A luta te ensina a ser resiliente, quando se está na frente do adversário você tem que se superar, não dá para dar uma desculpa, deixar para lá. Na arte foi fundamental, para eu apostar no que queria, acreditar nas minhas convicções.