Curiosidades

Agitador cultural ganha biografia ‘precoce’ que intercala momentos divertidos com a vivência de oito anos na prisão

'Dias de Glória, noites de cárcere', do dramaturgo Marcus Galiña, revisita trajetória do carioca Julinho Barroso

Agência O Globo - 14/03/2026
Agitador cultural ganha biografia ‘precoce’ que intercala momentos divertidos com a vivência de oito anos na prisão
Agitador cultural ganha biografia ‘precoce’ que intercala momentos divertidos com a vivência de oito anos na prisão - Foto: Reprodução / Instagram

Em tempos de histórias cada vez mais padronizadas, encontrar alguém com trajetória fora do comum é raro — especialmente quando se trata de personagens do povo. Julio Cesar Barroso, conhecido nos círculos culturais do Rio como Julinho Barroso, é uma dessas abordagens. Agora, sua vida inspirou o livro “Dias de Glória, noites de cárcere”, definido pelo próprio autor como “uma fotografia precoce de um negócio rasta”. A obra é assinada pelo dramaturgo e diretor Marcus Galiña.

Diferente das biografias tradicionais, trata-se de uma narrativa romanceada, gênero muitas vezes visto com desconfiança, mas que aqui se destaca pelo tom surreal e pelas passagens reais da vida de Julinho — incluindo mais de oito anos nas prisões cariocas.

A história começa justamente com sua prisão, em outubro de 1994. Na ocasião, Julinho decidiu comprar alguns baseados em uma favela próxima à sua casa, na Glória, Zona Sul do Rio, para curtir um show de James Brown. Convicto, afirmou: “Nem Deus me impeça de ver esse show!”

No entanto, o destino foi outro. Durante a compra, a polícia chegou atirando. Julinho tentou fugir e acabou baleado de raspão no pescoço. Sobreviveu, mas foi descoberto ao ser tratado como crime, apesar de portar documentos e recibos que comprovavam ser trabalhador legalizado.

“Então por que correu?”, questionou o policial. “Vou tirar tiro parado?”, respondeu Julinho. Apesar do argumento, foi socorrido, operado e, posteriormente, condenado como gerente do tráfico, quando era apenas usuário — um reflexo da justiça racista, como aponta o texto.

O 'filho endiabrado'

Ali começava sua maior aventura. Desde criança, Julinho já era conhecido como “o filho endiabrado”: ​​aos 4 anos, visitou uma delegacia após ser embriagado por uma empregada. Sua juventude foi marcada por episódios no underground carioca dos anos 1980 e 1990, alternando momentos leves com as memórias do cárcere, em referência a Dostoiévski.

Os relatos da prisão são especialmente marcantes, unindo cruzeza e humor. O cotidiano atrás das séries é retratado com honestidade, mostrando conflitos, rebeliões, laços de lealdade e até momentos de paz. Julinho não se apresenta como vítima ou herói, reconhecendo suas escolhas e consequências. “Sempre fui precoce nas experimentações psicodélicas”, admite, lembrando também do tempo em que foi coroinha e trabalhador das noites do Rio.

Além dos personagens ricos e humanos, a obra traz reflexões instigantes. A experiência de Julinho, somada à vivência na Glória, permitiu que ele se tornasse, aos 58 anos, um agitador cultural respeitado. Na prisão, dedicado à filosofia, com especial interesse por Michel Foucault, autor de “Vigiar e punir”.

Marcus Galiña acerta ao dar voz a Julinho, reproduzindo o linguajar das ruas sem superficialidade. O estilo lembra grandes cronistas como Lima Barreto e João Antônio, ao abordar o racismo e as contradições sociais com oralidade marcante.

O lançamento do livro será na próxima terça-feira, dia 17, às 18h, com sarau musical, poético e performático, no Circo Voador, sob os Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro.