Curiosidades

'Empolgante', 'Cheio de energia', 'Vibrante': como a crítica internacional vê 'O agente secreto'

Desde o Festival de Cannes do ano passado, o filme de Kleber Mendonça Filho tem sido abraçado pela crítica internacional

Agência O Globo - 14/03/2026
'Empolgante', 'Cheio de energia', 'Vibrante': como a crítica internacional vê 'O agente secreto'
O Agente Secreto - Foto: Divulgação

Tubarões, Perna Cabeluda, medo misturado com carnaval, cinema embolado com cadáveres largados na rua. Piraça. Dona Sebastiana, vestidinho florido e cigarro na mão, espalhando conselho, bisbilhotice e autoridade em seu pequeno território, o condomínio que abriga refugiados de todo tipo. “O agente secreto” é tão brasileiro que eu fiz. Alguns brasileiros disseram, inclusive, que o filme de Kleber Mendonça Filho é tão pernambucano ou, mais especificamente, recifense, que um sudestino seria incapaz de compreendê-lo, captá-lo, amá-lo. E, no entanto, desde que o filme teve suas primeiras sessões no Festival de Cannes, em maio do ano passado, vem sendo abraçado com força pelo público e pela crítica nacional e internacional, conquistando prêmios mundo afora, incluindo Cannes, o Globo de Ouro e o Critics Choice, além das quatro restrições ao Oscar.

Quando o cinema entrou em guerra:

Setenta Fi:

Um dos maiores defensores do filme, David Rooney, crítico-chefe da revista americana The Hollywood Reporter, escreveu, lá em maio: “Momentos de humor anárquico em meio ao suspense genuínos são exatamente o que torna o quarto longa-metragem de ficção de Kleber Mendonça Filho todos uma obra original tão empolgante” e “A magia do filme é que esses elementos incongruentes cabem organicamente no panorama geral, sem diluir a vida ou minar o caráter de filme ou morte para o personagem central”.

'Interessante e único'

Mais recentemente, já em março deste ano, Peter Bradshaw, crítico-chefe do jornal inglês The Guardian, defendeu que “O agente secreto” deveria ganhar o Oscar de melhor filme — não filme internacional, mas melhor filme do ano. David Fear, da revista Rolling Stone, recomendou que o leitor visse o longa-metragem o mais rápido possível.

O jornalista alemão Patrick Heidmann, que colabora com veículos como FAZ e Berliner Zeitung, colocou “O agente secreto” entre seus dez filmes favoritos do ano passado.

— Como ele lida com um período e lugar específico, isso o torna especialmente interessante e único — disse ele ao GLOBO. — Tenho certeza de que muitas coisas passaram por mim despercebidas, especialmente aquelas sobre o Recife, mas o fato de elas estarem lá fez com que o filme parecesse tão rico, tão vívido e verdadeiro. Gostei muito de como sempre compreendi que, embora seja, em grande parte, uma história sobre o passado, é também uma história sobre o presente, em termos de política, sociedade etc., e esses desdobramentos cíclicos estão acontecendo em todo o mundo neste momento.

Depois da New Yorker:

Ao longo do ano, Heidmann sentiu que nenhum outro filme era tão original, inventivo e singular em sua visão e direção.

— Anárquico, surreal, político, cheio de energia. Fora que Wagner é sempre brilhante, e o elenco em geral é fantástico — completou o jornalista.

Para a crítica venezuelana radicada na Alemanha Janina Pérez Arias, “O agente secreto é um dos melhores filmes dos últimos anos, em nível racional”. Em entrevista ao GLOBO, ela descreveu a obra de Kleber Mendonça Filho como “uma obra imensa e vibrante que cativa o cinéfilo, mas que também fascina públicos de todos os tipos”.

— Conseguir isso em nossa era atual de superprodução audiovisual, na qual o TikTok e os Instagram Reels servem como base principal para o entretenimento, é um verdadeiro feito — disse ela. — Em um nível emocional, o filme toca em muitas fibras dentro de mim. Como latino-americana, e especificamente como venezuelana, vejo neles elementos de uma cultura afim à minha; rio do humor daquelas conversas na casa de Dona Sebastiana, assim como sinto o sufocamento e o perigo de uma ditadura que persegue, silencia e mata. As conexões com o presente são palpáveis ​​e dolorosas.

Em sua opinião, os votantes da Academia tiveram uma tarefa e tanto ao escolher entre “O agente secreto” e “Valor sentimental” na categoria filme internacional:

— Vale lembrar que Hollywood adora se ver refletida ou, melhor dizendo, “terapizada” (no sentido de submeter-se a uma terapia) na tela grande. Esse é um ponto a favor de “Valor sentimental”. Da mesma forma, ela aprecia se ver homenageada, de uma forma ou de outra, e essa é uma carta que “O agente secreto” pode ter a seu favor.