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Jorge Drexler leva Gonzaguinha para o candombe em novo disco

Agência O Globo - 13/03/2026
Jorge Drexler leva Gonzaguinha para o candombe em novo disco
Jorge Drexler leva Gonzaguinha para o candombe em novo disco - Foto: Reprodução / Instagram

Inspirado pelo fenômeno das rodas que encontrou em sua cidade natal, artista voltou às raízes africanas da música uruguaia e gravou recriação de 'O que é o que é?': 'Quis uma homenagem responsável, com referências ao samba, mas fazendo uma adaptação própria'


O cantor e compositor , de 61 anos, tinha muito o que falar numa ensolarada manhã de terça-feira em que reuniu a imprensa no estúdio Elefante Blanco, em Montevidéu, para ouvir o seu 15º álbum, “Taracá”. Mergulho na rítmica do candombe — expressão cultural afro-uruguaia, com raízes na herança dos escravizados, assim como o samba no Brasil —, o disco (que sai esta sexta-feira) tem, contudo, um assunto que se destaca para nosotros.

'Absolute cinema':

Em documentário da Netflix:

Ganhador do Oscar de melhor canção original em 2005, com “Al otro lado del río”, do filme “Diários de motocicleta”, de , Drexler gravou desta vez “¿Qué será que es?”, versão em espanhol de “O que é o que é?” (1982), samba de Gonzaguinha (1945-1991) — em suas palavras para os jornalistas latinos ali reunidos, “um compositor brasileiro que morreu muito jovem, e que eu adoro, embora não seja tão conhecido fora do Brasil como alguns de seus contemporâneos, como , ou ”. O artista dizia torcer para que os brasileiros não estranhassem sua versão, feita com músicos uruguaios de uma roda de candombe.

— Esta música sempre me chamava a atenção nas rodas de samba, quando tocava no Brasil, e era um momento de elevação espiritual. Tem uma série de questões ontológicas e filosóficas sobre o ser e sobre a vida, que ampliam o escopo do gênero musical. É o tipo de reflexão que se encontra mais em livros do que em canções — explicou. — Adoro a estrutura dela: começa com um refrão grandioso, com toda a sua glória, passa por várias partes menores, atravessa estágios de dor e perplexidade, terminando de volta naquela parte maior, a celebração. Sem saber qual a definição de vida, Gonzaguinha fica com aquela que lhe dá uma criança. Para mim, essa criança era (o filósofo holandês Baruch) Espinosa.

Ao GLOBO, Jorge Drexler disse ser essa uma adaptação feita “com o maior respeito... na verdade, com o maior amor”. Na quarta-feira, saiu o clipe de “¿Qué será que es?”, feito com imagens de Super 8 do cantor e seus irmãos na infância.

— Sei que é uma música muito importante no Brasil. Minha intenção é levá-la a outro público, da América Latina, misturada com o candombe. Quis uma homenagem responsável, com referências ao samba, mas fazendo uma adaptação própria, como os brasileiros fazem. Quando pega uma canção de Cole Porter, ele não a canta no ritmo original, a leva para seu próprio terreno. Esse é o ato de amor mais sincero.

“Taracá” marca uma volta de Drexler ao Uruguai, que acontece a partir de 2024, quando completou 60 anos de idade e quase 30 anos de Espanha. E também o ano da morte do pai, o otorrinolaringologista e escritor Günther Drexler Schlein.

— Foi o ano em que deixei de ser filho para ser só pai. Senti a necessidade de me reconectar com o Uruguai, não sei bem por quê — disse ele, que dedicou a Schlein, no novo álbum, a canção de encerramento, “Las palabras”. — Fiquei morando na Espanha por causa dos meus filhos. Agora que os mais novos estão na adolescência, consigo passar mais tempo no Uruguai.

A reconexão com a cidade natal o fez ficar mais assíduo e íntimo das rodas de candombe. Segundo ele, um fenômeno que “tomou de assalto o Uruguai há apenas um ano” e mudou a relação da sociedade com o “nosso ritmo afro por excelência”.

— Quem vai assistir a uma roda de candombe, que deriva das rodas de samba, não está apenas vendo um palco com músicos, está vendo a sociedade em uma roda. Embora todos os músicos sejam compositores, têm a generosidade de tocar repertório comum do povo, e as pessoas se veem através desses músicos. Vou para lá como quem vai para a terapia — disse o cantor, que à noite, após a entrevista, brindou convidados com um show de “Taracá” e uma roda de candombe no Centro Cultural La Callenda, onde fica a oficina de tambores do lendário percussionista Lobo Núñez.

‘Uma fase interessante’

Para Drexler, a música uruguaia vive uma fase “particularmente interessante”.

— Tem figuras muito novas como Facundo Balta, da música popular uruguaia, a MPU. Ele faz uma ponte superinteressante entre a música urbana, o trap e a nova geração, liderada por Tadu Vázquez, que é o novíssimo produtor de trap e de toda a movida urbana que acontece em Montevidéu e Buenos Aires — afirmou o cantautor, que incorporou os dois produtores a “Taracá“.

Drexler também encontrou a Susi — Selección Uruguaya Sinfónica, orquestra jovem dirigida pelo maestro e acordeonista Nacho Algorta (“grande compositor, grande cantor e pianista, o nosso Tom Jobim agora”). E ainda trabalhou com o produtor Lucas Piedra Cueva, o grupo Falta Y Resto e o violonista Julio Cobelli:

— Eram muitas novidades que me fizeram voltar para gravar aqui.

Da interação com os uruguaios, surgiram faixas como “Toco madera” (brincadeira com o duplo sentido de se bater na madeira da superstição e de tocar a madeira no candombe) e “El tambor chico”, homenagem a um dos três tambores do candombe, “que é como o metrônomo, como o coração rítmico”.

— Ele toca todas as batidas do compasso, exceto a fundamental. Indica um evento circundando-o, sem tocá-lo, como um copo circunda a água — poetizou. — É um tambor que implica, por um lado, a humildade zen de servir. Você precisa deixar um espaço intermediário entre o que toca e a batida central. Acho que é um instrumento de transe, uma ferramenta espiritual.

“Taracá” ainda tem faixas como “Te llevo tatuada”, que Drexler fez tentando aprender com a porto-riquenha Young Miko a fazer um reggaeton carregado de sexualidade. Na hora do encontro, ela contou que não queria fazer rap, mas cantar. Ele se lembrou de uma composição não finalizada.

— Compusemos a segunda parte e gravamos com dois violões. Eu ficava insistindo com o Mauro (produtor): “Vamos adicionar a base de percussão e o Auto-Tune.” Mas ele deixou só com os violões.

Drexler faz shows no Brasil em maio — dia 23 em São Paulo (Espaço Unimed), 29 e 30 em Porto Alegre (Auditório Araújo Vianna). E contou como a mãe o fez se apaixonar pela música do país.

— No aniversário dela de 15 anos, falaram: “O que você escolhe, uma viagem ou uma festa? E ela: “Quero passar um carnaval no Rio.” A partir daí, todo o imaginário da minha mãe sobre o Brasil se centrou na música. Nunca tive aulas de português, eu aprendi em casa, cantando João Gilberto.

Silvio Essinger viajou a convite da Sony Music