Curiosidades

Crítica: 'Um hino à vida' traz olhar pessoal sobre caso de violência sexual

Relato sobre crimes sexuais delega a vergonha dos atos aos agressores, não à vítima

Agência O Globo - 27/02/2026
Crítica: 'Um hino à vida' traz olhar pessoal sobre caso de violência sexual
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O caso de estupro recorrente sofrido por Gisèle Pelicot, praticado por seu próprio marido e que ganhou repercussão internacional em 2024, é detalhado agora em “Um hino à vida”, obra escrita por ela em parceria com a jornalista e escritora Judith Perrignon. O livro remete tanto ao jornalismo literário de Janet Malcolm quanto ao memorialismo contundente de Annie Ernaux, ao lançar um olhar distanciado e reflexivo sobre a própria trajetória.

Gisèle estava casada havia 50 anos quando descobriu que, entre 2011 e 2020, seu marido, Dominique Pelicot, a dopava com medicamentos e convidava outros homens para violentá-la. Após a revelação dos crimes, ela passou a se culpar por não ter percebido a relação entre os sintomas e os abusos sofridos.

De início, a obra reúne informações já divulgadas pela imprensa. Mas, afinal, por que ler essa autobiografia? Ao costurar memórias da infância e do casamento com o momento em que tomou conhecimento dos crimes — por meio dos investigadores — até o desfecho do julgamento, que em 2024 condenou o marido e outros 51 homens, o relato conduz o leitor a se questionar, junto com Gisèle, como tamanha atrocidade pôde acontecer.

A leitura impõe o enfrentamento do horror do caso e provoca uma sensação de vulnerabilidade: mesmo sendo uma situação extrema em perversidade, a dinâmica e o passado do casal quase não despertavam suspeitas. Gisèle conclui que o crime poderia ter ocorrido com qualquer mulher.

“Então, de repente, me sentia culpada. Culpada de não ter visto nada, de não ter me protegido melhor”, escreve a autora, que posteriormente se revolta: “Quanto mais a história se espalhava, mais as pessoas insinuavam que eu não poderia ter permanecido totalmente passiva. Começava a compreender o calvário que vivem as mulheres que denunciam um agressor e que contam apenas com sua boa-fé, sua coragem, seu corpo e sua memória ferida contra a frieza de um policial ou até mesmo de um conhecido. Eu, no meu infortúnio, não precisei dizer nem provar nada. A polícia fez isso por mim (...) E, apesar de tudo isso, ainda era preciso convencer as pessoas.”

Ao afirmar que a culpa e a vergonha não devem recair sobre a vítima, mas sim sobre os agressores, Gisèle assume o protagonismo de sua narrativa e devolve a responsabilidade a quem de fato a detém.

Estupro, agressão e feminicídio são formas extremas de desumanização das mulheres, gerando sentimentos de paralisia e perda de autonomia sobre o próprio corpo. Esses sentimentos, presentes ao longo de todo o livro de Pelicot, ecoam a cada novo caso, como as revelações dos arquivos Epstein ou a crescente onda de feminicídios no Brasil.

Trazer à tona a história de Gisèle é reconhecer o quanto o machismo ainda persiste em nossa sociedade e, ao mesmo tempo, resgatar sua humanidade. Enquanto o estupro desumaniza a mulher, a literatura devolve sua humanidade ao revelar sua dor e força diante das adversidades. Essa retomada de protagonismo evidencia como a vergonha, na realidade, está enraizada no machismo estrutural, e não nas vítimas.

Assumir a voz dessa narrativa é também devolver o problema à coletividade. Delegar a vergonha a quem realmente a merece e escancarar a desumanização cometida são formas de exigir que a sociedade tome providências para que a violência seja devidamente julgada e os verdadeiros culpados, responsabilizados.

“Havia perdido o medo dos olhares, já não temia que as pessoas soubessem. A vergonha precisava mudar de lado. (...) Todos precisavam ver os 51 estupradores. Eles é que deveriam se curvar. Não eu”, decreta Gisèle em seu relato.

* Bruna Meneguetti é escritora e jornalista