Curiosidades

Menos estímulo, mais prazer: cafés especiais impulsionam nova cultura e estilo de vida no consumo da bebida

Movimento desafia lógica do 'commodity' e aposta em experiência, ritual e identidade

Agência O Globo - 11/01/2026
Menos estímulo, mais prazer: cafés especiais impulsionam nova cultura e estilo de vida no consumo da bebida
- Foto: Depositphotos

Antes de criar o Café di Preto, uma microtorrefação especial com proposta inclusiva, Raphael Brandão fazia parte da imensa parcela de brasileiros que consome a bebida sem grandes perguntas. A cafeína estava no cotidiano, mas nunca como uma experiência profunda. As preocupações dos conhecedores do assunto, como origem do grão, métodos de torra, notas sensoriais, formas de extração e preparação ainda eram distantes.

E Drummond decretou o verão:

Carpinejar, Clarice Lispector, Harry Potter:

A relação começou a mudar há cerca de sete anos, impulsionada pela expansão dos cafés especiais e de estabelecimentos dedicados a tratar a bebida como uma experiência cultural. A entrada de Brandão nesse novo universo coincidiu com a transição gradual do país para a chamada “Quarta Onda”, uma fase marcada pela tentativa de democratizar e personalizar o consumo do café especial, com foco em sustentabilidade, rastreabilidade e tecnologia.

O Café di Preto é um exemplo desse ponto de virada. Surgiu em 2020 com o objetivo de valorizar produtores negros na cadeia do café. Em suas redes sociais, o empresário também faz um trabalho de conscientização, ligando o consumo da bebida à identidade e à história do país.

— Eu não sabia nada sobre como era produzido e sobre o seu papel na nossa cultura — diz Brandão. — Quando comecei a procurar referências de pessoas negras nessa história, vi que tinha algo errado. A população negra só aparecia relacionada à escravidão, à mão de obra forçada nos cafezais.

Além do 'commodity'

De acordo com estudiosos do café, a Quarta Onda ainda engatinha no Brasil, difundida em ritmo muito mais lento do que nos Estados Unidos e na Europa. Os números confirmam esse descompasso. Maior exportador do produto, o país prioriza o chamado “café commodity”, feito com grãos padronizados e negociado em larga escala a preços mais acessíveis. Os melhores lotes, cultivados com maior cuidado e potencial sensorial, continuam em sua maior parte destinados ao mercado externo.

Um estudo divulgado em 2024 pela Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic) revela o impacto desse modelo no consumo interno: quase 60% do café consumido no país se concentra nas categorias Tradicional (39%) e Extraforte (20%), ambas associadas a grãos de menor qualidade e torra mais intensa.

O reflexo no paladar é inevitável. Ao passar por uma torra mais forte para mascarar os defeitos do grão, o produto servido no dia a dia tende a ser mais escuro e amargo, moldando a preferência nacional pelo gosto “forte”. Já na lógica dos cafés especiais, a torra mais clara preserva as características naturais do grão, revelando acidez, doçura e aromas.

Novo estilo

Em 2024, o café especial representou apenas 1% do consumo nacional, segundo o mesmo relatório da Abic. Embora pequena, essa comunidade vem divulgando, com a ajuda das redes sociais, um novo estilo de vida em torno do café.

— O Brasil está vendo uma mudança cultural em relação ao consumo: a cafeína é menos estímulo e mais pausa, mais prazer — diz Amanda Demetrio, barista, instrutora e especialista em cafés especiais. — Essa mudança não corresponde ao maior volume de mercado, mas é uma tendência. Nós, na comunidade do café, consideramos que ainda é o inicio da história. Estamos criando uma identidade, testando novos protocolos.

Em seus cursos de formação sensorial para baristas, Demetrio percebe essa mudança de mentalidade na prática. O perfil dos alunos, conta, já não se limita apenas ao profissional do setor.

— Há consumidores que só querem aprender mais sobre café e melhorar a própria experiência — detalha. — Desde 2022, quando comecei como instrutora, o número de alunos nas minhas turmas dobra a cada ciclo. Há mais gente procurando café de qualidade, mais torrefações surgindo, mais cafeterias abrindo, e tudo isso mesmo diante da alta do preço do café.

Sem esnobismo

Idealizador da Tábikòfi, cafeteria com torrefação própria instalada na antiga Fábrica da Bhering, na Zona Portuária do Rio, Alberto Sampaio acredita que o avanço da Quarta Onda passa por um “trabalho pedagógico” contínuo junto ao público. O nome da sua marca reflete essa preocupação com as origens: em iorubá, língua de matriz africana, Tábikòfi significa “o café”.

— A gente lida com pessoas que entram aqui com pouquíssimas referências e saem com outras expectativas — afirma Sampaio. — Quando voltam, já trazem experiências novas, começam a procurar cafés de determinadas regiões, como Mantiqueira ou Bahia, a se interessar por perfil de torra, por características sensoriais específicas. Isso muda completamente a relação com a bebida.

Sampaio costuma dividir seus clientes em três grupos: os que têm e os que não têm nenhuma referência de bom café, e um terceiro perfil, que ele chama de tough lover — consumidores mais exigentes e bem informados.

Esse último ainda é minoria, mas o grupo intermediário cresce rápido. Sampaio afirma que cerca de metade do público que chega à Tábikòfi pelas redes sociais já vem movida por um desejo claro de qualidade:

—Tentamos ser pedagógicos, mas sem esnobismo. A pessoa não pode ter vergonha de pedir açúcar. Ao mesmo tempo, explicamos por que experimentar a bebida pura pode revelar outras camadas de sabor.

O principal obstáculo para a expansão do café especial no Brasil, segundo o empresário, não é a falta de consumidores, mas sim de mão de obra qualificada.

Autocuidado

Autora do livro “Por trás da sua xícara”, em que detalha como decisões agronômicas, métodos de processamento, perfis de torra e técnicas de extração impactam diretamente o resultado sensorial da bebida, a empresária Juliana Ganan afirma que o café especial se tornou um símbolo de autocuidado.

— É um ritual — diz a empresária. — A pessoa acorda, escolhe o grão, mói o próprio café, pesa, prepara. São pelo menos cinco minutos de atenção plena antes de começar o dia de fato. Tem algo de contemplativo nisso, de desacelerar para depois seguir a rotina.

Há dez anos à frente da Tocaya Torrefadores de Café, no sul de Minas Gerais, Ganan avalia que as redes sociais ajudaram a a desmontar a ideia de que o universo do café especial é inacessível ou excessivamente técnico.

— É um luxo acessível, porque dá para fazer um café muito bom em casa sem gastar fortunas — recomenda Ganan.

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