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Cantora Patrícia Ribeiro relata em livro greve de fome e automutilação na prisão: 'Surtei'

Trans portuguesa ficou seis anos na cadeia após ser condenada por extorsão

Agência O Globo - 14/09/2026
Cantora Patrícia Ribeiro relata em livro greve de fome e automutilação na prisão: 'Surtei'
Patrícia Ribeiro - Foto: Reprodução

A cantora trans portuguesa Patrícia Ribeiro, de 44 anos, relata em sua biografia, que será lançada em breve, detalhes do que viveu durante os seis anos em que esteve presa, entre 2016 e 2022, cumprindo pena por extorsão.

Ao relembrar o período, ela revela que ainda hoje lida com as marcas deixadas pela cela. Patrícia conta que, enquanto escrevia o livro, precisou fazer novas sessões de laser com CO2 nas pernas para amenizar as cicatrizes provocadas por um episódio de automutilação que viveu na cadeia.

“Tive um episódio de automutilação na cadeia diante das muitas injustiças que vivi lá. Foi um momento em que realmente não aguentei e surtei”.

Segundo Patrícia, o episódio aconteceu após uma sequência de situações que a deixaram emocionalmente fragilizada. Ela afirma que tudo começou com uma greve de fome, motivada por questões relacionadas ao processo judicial, pelo aumento de sua pena e por situações de discriminação que, segundo ela, enfrentou dentro da prisão.

“Estava revoltada com tudo isso e pensei que tinha que fazer algo”, escreveu ela, em um trecho do livro.

A cantora conta que a gota d'água aconteceu durante uma visita ao então namorado, que também estava preso. De acordo com seu relato, durante o encontro, alguns reclusos que circulavam pelo local fizeram comentários preconceituosos contra os dois.

Patrícia afirma que já estava abalada naquele momento porque havia acabado de receber uma notícia sobre o agravamento de sua situação judicial. A pena, inicialmente estabelecida em sete anos, havia passado para oito anos por decisão do Tribunal da Relação de Lisboa.

“Os trâmites legais são assim e é difícil estar emocionalmente preparada para tudo. A prisão é isto, é emoção, é esperança, é tristeza, é desespero, é um misto de emoções o que se vive ali dentro”, descreve.

A notícia sobre a nova decisão judicial, segundo a cantora, chegou por meio de seu advogado. Ele foi até o estabelecimento prisional para comunicar o resultado e avisou que tinha “duas notícias”. Uma delas envolvia a avó de Patrícia, o que fez com que ela entrasse em desespero antes mesmo de saber todos os detalhes.

“Eu já me desesperei, comecei a gritar, enquanto ele tentava me acalmar e me explicar o que tinha acontecido”, conta.

O advogado explicou que a procuradora do Ministério Público havia pedido o agravamento da pena em mais dois anos por um crime de branqueamento de capitais, pelo qual Patrícia afirma ter sido absolvida em primeira instância. O pedido era para que a condenação passasse de sete para nove anos. A procuradora também solicitava a condenação da avó da cantora a três anos de prisão, com suspensão da pena.

“Eu enlouqueci com tudo isso. Foi um golpe grande demais”

Greve de fome

Depois de receber a notícia e retornar ao estabelecimento prisional, Patrícia decidiu iniciar uma greve de fome. Ela conta que comunicou formalmente a decisão e que uma vistoria foi realizada em sua cela para retirar toda a comida, deixando apenas água.

“Porque quando tu optas por uma greve de fome dentro de uma prisão, tu estás a ir contra um sistema. É a pior coisa que tu podes fazer com eles, dizer-lhes que vais iniciar uma greve de fome”, relata.

A cantora afirma que a greve de fome era um direito dela como reclusa e que, a partir do momento em que comunicou a decisão, passou a ser acompanhada mais de perto pela equipe médica. Todos os dias, uma enfermeira ia até sua cela para medir a glicemia, a pressão e avaliar seu estado geral de saúde.

Mesmo com o acompanhamento, Patrícia diz que permaneceu firme na decisão. As reclusas que trabalhavam na cozinha continuavam levando as refeições como parte do protocolo, mas ela recusava a comida. Segundo a cantora, outras detentas demonstravam preocupação e chegavam a enviar bilhetes por baixo da porta de sua cela, pedindo que interrompesse a greve.

“Vários chefes foram conversar comigo, tentar me fazer ver a realidade da situação, entender que eu estava prejudicando a minha saúde, pedindo para que eu parasse essa greve de fome. Mas eu estava firme na minha decisão”, afirma.

Patrícia conta que, apesar de estar emocionalmente fragilizada, acreditava estar fazendo aquilo como forma de protesto. Durante os dias sem comer, tentou ainda obter mais informações sobre seu processo.

Ela pediu autorização para fazer uma ligação para o advogado e para a família, tanto para entender melhor o que havia acontecido quanto para avisá-los sobre a greve de fome. Segundo seu relato, o pedido foi negado.

Foi então que, diante do que considerou mais uma injustiça, a situação chegou ao limite.

“E, diante de mais esta injustiça, e de todo o desespero e desamparo a que estava submetida nesse momento, eu surtei”, escreve.

Automutilação

Patrícia conta que teve um surto dentro da própria cela e se automutilou com uma tesoura. Um chefe da guarda prisional teria percebido o que estava acontecendo pela janela de vidro e tentado intervir, mas, segundo ela, não conseguiu interromper imediatamente o episódio.

A cantora relata que só conseguiu parar quando outra reclusa, por quem tinha grande respeito, entrou na cela para tentar acalmá-la.

“Ela disse-me ‘Sou eu, sou eu’ e só aí eu fui voltando a mim e ela conseguiu tirar a tesoura da minha mão”, conta.

Patrícia afirma que o episódio deixou ferimentos nos braços e nas pernas e precisou de atendimento médico. Ela foi levada às pressas para um hospital, onde recebeu cuidados para os ferimentos e, posteriormente, passou por uma avaliação psiquiátrica.

A cantora conta que explicou aos médicos o que estava acontecendo em sua vida e em sua mente naquele momento. Segundo ela, os profissionais avaliaram que estava consciente e não apresentava um quadro psiquiátrico que justificasse sua internação na ala de psiquiatria.

O episódio também aconteceu em meio aos efeitos físicos provocados pela greve de fome. Patrícia afirma que já estava havia três dias sem comer e começava a apresentar alterações na percepção, além de estar muito debilitada física e emocionalmente.

“Foi um momento de desespero, o desespero da situação, e dos sintomas decorrentes da greve de fome também”, relata.

Punição após o episódio

Cerca de 15 dias depois, quando já estava recuperada dos ferimentos e dos efeitos da greve de fome, Patrícia conta que recebeu uma sanção disciplinar por causa do que havia acontecido.

Como punição, ficou durante um longo período sem televisão e rádio dentro da cela. Para ela, a medida teve um peso ainda maior porque esses objetos funcionavam como uma das principais formas de companhia durante o encarceramento.

“Foi horrível, porque a televisão e o rádio eram a minha companhia”, relata.

A experiência fez com que Patrícia passasse a enxergar de outra maneira gestos que, fora da prisão, podem parecer pequenos. Segundo ela, dentro do cárcere, uma carta, uma mensagem ou um abraço podem ganhar uma importância enorme.

“Essas sanções disciplinares mexem muito com o nosso emocional lá dentro, já que para nós um livro, uma rádio, uma televisão são uma grande companhia”, escreve.

Hoje, fora da prisão, a cantora afirma que passou a valorizar ainda mais demonstrações simples de afeto.

“Por isso é que eu hoje aqui fora dou valor aos pequenos gestos, às pequenas coisas: um abraço, uma carta, uma mensagem. Para mim, são essas coisas as que realmente importam. Um abraço forte, um olhar, um sorriso são gestos muito poderosos que transformam o dia, que acolhem e fazem a vida ter sentido.”

Patrícia foi presa em 2016. A extorsão durou quatro anos, até que a vítima criou coragem para fazer a denúncia. "Acredito que, nesse período, eu e a outra pessoa conseguimos cerca de 500 mil euros (cerca de 3,25 milhões de reais). O homem estava sofrendo de estresse pós-traumático e sem recursos quando procurou a polícia", contou ela.