Cultura Pop

Alexandre Borges celebra sucesso de 'Quem ama cuida' e aposta em um envelhecimento feliz

Ator festeja seis décadas de vida e reflete: 'O bom dessa idade é que você está cagando para quem tem preconceito'

Agência O Globo - 06/09/2026
Alexandre Borges celebra sucesso de 'Quem ama cuida' e aposta em um envelhecimento feliz
Alexandre Borges

A história de Alexandre Borges parece ter saído das páginas de um livro. Nascido numa família de classe média, em Santos, litoral de São Paulo, o ator se virou como pôde, chegando a vender sanduíche natural e salada de fruta na praia durante o verão, até se encontrar no teatro, na capital paulista. Seu amadurecimento, diz ele, veio aos 24 anos, quando morou em Portugal após um convite para ser assistente de uma peça. Na Terrinha, se “viciou” em poesia e na cultura daquele país. Nada que lembre a compulsão por jogo de Ulisses, seu personagem que ganhou ainda mais destaque na última semana em “Quem ama cuida”.

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— Nunca imaginei que um dia eu pudesse viajar pra fora. No começo da carreira, eu dormia em pensão. Às vezes era uma refeição por dia, e ainda dividia prato com um colega. Quando cheguei a Portugal, me encantei com as pessoas se juntando num café para falar de poesia. Mas foi lá também que me apresentaram aos “hábitos do mal”; comecei a beber e a fumar. Descobri Fernando Pessoa nessas tertúlias regadas a vinho, cigarro e poesia. Me tornei mais homem e adulto lá — conta o ator, que, em 2011, criou o espetáculo, “Poema Bar”, para celebrar obras como a de Pessoa e a de Vinicius de Moraes. Vira e mexe, a montagem está em cartaz.

Para comemorar seus 60 anos e o atual sucesso na trama das nove, a Canal Extra levou Alexandre para o Real Gabinete Português de Leitura, no Centro do Rio, onde ele teve um reencontro com sua paixão. Entre uma foto e outra no meio dos vários livros da biblioteca, cochichos de visitantes, em sua maior parte turistas, ecoavam pelo silencioso recinto. Quando o ator acenou para os presentes, gritos de fãs eclodiram, a ponto de os seguranças pedirem silêncio absoluto.

O ensaio fotográfico aconteceu um dia após ir ao ar o capítulo em que Ulisses perdeu tudo no jogo. Na novela do horário nobre da Globo, o empresário frequenta um cassino clandestino, onde deixa muita grana na roleta, expondo um problema que afeta muitas pessoas.

— Que ruína! É inconcebível um país onde o jogo é proibido, como o Brasil, ter uma “bet” liberada para jogar o quanto quiser. Ulisses serve também para passar a mensagem sobre esse perigo. Ele entra num estado psicológico de perda muito grande. Consequentemente, acaba sendo alvo fácil para a manipulação. A gente vive numa sociedade compulsiva, somos ensinados a vencer a qualquer custo em todas as áreas. Eu nunca caí nessa neura — afirma.

Capítulo 100 de 'Quem ama cuida' com vingança.

Marcando a semana do capítulo 100 (que vai ao ar na próxima sexta-feira) de “Quem ama cuida”, Ulisses é a segunda vítima de Adriana (Leticia Colin) em seu plano de vingança. Ele vendeu sua parte na joalheria sem saber que a compradora era a fisioterapeuta.

— A vingança pode acabar corroendo o interior da pessoa que a pratica. Você acaba se angustiando e sofrendo mais do que o próprio alvo da vingança. Vira uma obsessão, como acontece com a história de Adriana na novela. Nunca tive o desejo de me vingar de ninguém. Eu sempre perdoo e não carrego mágoas. Às vezes, posso ter machucado alguém inconscientemente, assim como fizeram comigo. Hoje, procuro ficar mais esperto e me preservar mais. Com o tempo, fui aprendendo a deixar pra lá. Vida que segue! — conta.

Se o coração de Alexandre é protegido do sentimento de vingança, o pulmão é vítima do vício em cigarro, que ele não consegue largar.

— Já parei de fumar inúmeras vezes, mas, na pandemia, eu voltei. Aquela ansiedade toda... Ainda mais que eu estava cuidando da minha mãe (Rosa), com Alzheimer. Era um momento difícil. Ela, que tinha parado de fumar, me pedia cigarro. Eu dava para realizar sua vontade, aí passei a fumar junto — revela o ator sobre a mãe, que morreu em 2022, aos 83 anos, por infecção, após sofrer uma queda:

— A pessoa (com Alzheimer) vira uma Bela Adormecida. Chega uma hora em que só dorme. Nesse momento, ela partiu. Se sentiu amada e bem cuidada. Viu que eu estava ali, me reconheceu até o último momento.

No ano seguinte, foi a vez de o filho único se despedir do pai, Tanah, que morreu, aos 82 anos, por complicações de uma pneumonia.

— Sinto um vazio muito grande porque foi uma parte da minha vida também. Hoje eu não tenho mais ninguém. Isso me faz querer aproveitar mais as coisas, dar mais valor, ser mais humilde e reconhecer que tudo é passageiro. Da dor, tirei a força. Vejo que tudo que fui construindo, pessoas que estavam ao meu lado, conquistas e dores compartilhadas... Não tenho mais o colo daqueles com quem eu contava nos momentos mais difíceis.

Sessentão

Aos 60 anos, completados em fevereiro, Alexandre faz uma reflexão sobre as seis décadas vividas até aqui:

— Sessenta não é só um número. É uma mudança estrutural de vida. Estou aprendendo a ter essa idade, sabe? Vendo pra onde eu posso ir, o que eu ainda posso conquistar com muita garra, encontrar uma pessoa para dividir as coisas... Quero viajar mais, quero ter menos preocupações com as críticas, com comentários que me deixam para baixo. Sigo num aprendizado.

E enquanto na ficção Ulisses é apaixonado pela mulher, Fábia (Flávia Alessandra), apesar do beijo que deu na amiga Lyris (Pri Helena), Alexandre vive a solteirice. O casamento mais longevo do ator foi com Julia Lemmertz, que durou 22 anos. Com a atriz, ele teve o filho Miguel, de 26 anos. Depois dela, o paulista namorou uma fotógrafa portuguesa.

— Geralmente as pessoas bacanas estão comprometidas (risos). Estou brincando. Eu sou pisciano, bem romântico. Vou até a última insistência para ter realmente uma relação com alguém. Gosto de trocar carinho, mandar bilhete, flor, sair para comer, andar de mãos dadas na rua, pegar um cinema... Às vezes, eu sinto muita falta de ter alguém, de chegar em casa e ter com quem comentar uma cena legal que fiz — conta o ator, que está em busca de companhia e torcendo o nariz para o etarismo: — Estou buscando um romance nos meus 60 anos. O bom de chegar nessa idade é que você está cagando para quem tem preconceito contra sessentinhas. A melhor coisa é isso. Envelhecer é maravilhoso, melhor ainda é sentir sua evolução. Quero ser um velhinho em paz comigo mesmo e não aqueles velhos ranzinzas.

Sem procedimentos estéticos

Apesar de não ser tão adepto às redes sociais — tanto que esqueceu o celular duas vezes ao sair da cadeira durante esta entrevista —, Alexandre fala sobre alguns comentários na web sobre sua aparência quando aparece na tela.

— Essas críticas não me incomodam. Aos 59, pensei: “Vou fazer 60, quero estar gato”. Aí investi em cremes, aparelhos, coisas que estimulam a pele. Mas veio o convite para interpretar Ulisses, e parei tudo. Não dá para fazer um cara viciado, que vive desesperado, e se preocupar com a pele. Não estou me justificando, porque sei que estou com rugas, e que não sou mais o mesmo, mas tive que parar de me cuidar. Quis emagrecer e ficar com a cara mais “chupada” também — explica.

Pai e padrasto amoroso na novela para Carolina (Mah Duarte) e Felipe (Pietro Antonelli) respectivamente, Alexandre dá notícias de seu único filho, que segue a carreira artística como os pais, mas como produtor musical.

— Miguel não é mais aquela criança que eu pegava, que estava disponível ali pra mim e eu pra ele. Hoje meu filho está vivendo a vida dele. Procuro falar todo dia com meu filho, mas não é sempre que eu consigo. Eu o entendo. Quando fui para São Paulo, eu queria viver a vida, não queria muito o pai e a mãe... Eles têm que ficar para trás, sabe? Num bom sentido, claro. Você não pode ficar a vida inteira olhando para os teus pais e querendo que aquele apego se mantenha. Mas Miguel é um filho muito amoroso — afirma.

Na trama de Walcyr Carrasco e Claudia Souto, Ulisses nem sonha que o enteado está cada vez mais próximo de Mau Mau (João Victor Gonçalves), numa possível relação LGBTQIA+.

— Espero que meu personagem os aceite e que não seja como o Otoniel (Tony Ramos), que faz comentários homofóbicos. Eu tenho sobrinhos trans, para mim foi tranquilo. Eu amo o ser humano independentemente de gênero, cor, raça, idioma... Não tenho tempo para ficar pensando no que o outro está fazendo, no que o outro escolheu. Minha preocupação é ter por perto pessoas bacanas, verdadeiras e que me ensinem coisas.

Alexandre Borges usou:

Look bege: trench coat Oficina, terno preto Flower Homme, camisa branca Hangar 33, joias para a Galeria Iarà Figueiredo by Fernanda Del Pizzo e bota Democrata.

Look cinza: terno cinza Oficina, camisa gola rolê Hangar 33 para Multiclipping, joias para Galeria Irará Figueiredo by Fernanda Del Pizzo e bota Democrata.

Look tricô: tricô cinza Oficina, t-shirt Oficina, calça Oficina, joias Galeria Iara Figueiredo by Fernanda Del Pizzo e bota Democrata.

Onde encontrar:

Democrata @democrata

Fernanda Del Pizzo @fernandadelpizzo

Flower Homme @flowerhomme

Hangar 33 @hangar33

Iara Figueiredo @iarafigue

Multiclipping @multiclipping

Oficina @oficina

Créditos:

Texto e produção executiva: Thomaz Rocha

Edição: Camilla Mota

Fotos: Renata Xavier @renataxavierfoto

Assistente de foto: Ludmyla Nascimento @nascimento_lud

Estilo: Kadu Nunnes @kadununnes07

Edição de moda: Ale Duprat @aledupratoficial

Beleza: Vivi Gonzo @makegonzovivi

Agradecimento: Real Gabinete Português de Leitura @realgabineteportuguesdeleitura