Cultura Pop

Peça sobre Marcelo Rubens Paiva escala atores não-cadeirantes, gera críticas e respostas do elenco

Espetáculo musical é baseado no livro 'Feliz ano velho'

Agência O Globo - 25/08/2026
Peça sobre Marcelo Rubens Paiva escala atores não-cadeirantes, gera críticas e respostas do elenco
Marcelo Rubens Paiva - Foto: Reprodução / Instagram

Com data de estreia marcada para o dia 19 de setembro, o espetáculo "Feliz ano velho", baseado na obra de Marcelo Rubens Paiva, chegará ao Teatro Frei Caneca, em São Paulo, com uma primeira polêmica: a escalação do elenco. Artistas PCDs usaram as redes sociais para manifestar seu descontentamento com a escolha de Bruno Garcia e Hugo Bonemer para os papéis principais, de um personagem que é cadeirante.

"Realmente, estou muito cansado. De um lado, temos produções internacionais em que vemos artistas com deficiência em filmes, novelas e séries, ganhando notoriedade e oportunidades; e no meu país, a gente se depara com um retrocesso desses. Qual a justificativa? Posso listar vários artistas com deficiência, pessoas que estão lutando pela visibilidade e os convites não aparecem. A chance não acontece. E quando teria uma oportunidade, vem dessa maneira", afirmou o ator Tato Amorim em um vídeo no Instagram que já ultrapassou 100 mil visualizações.

Veja o vídeo:

Nos comentários, outros internautas apoiaram o desabafo. "Está feio. Isso é cripface. É inaceitável", criticou o influenciador Ivan Baron. "Os testes não chegam, as coisas não acontecem, porque as produções não querem se adaptar. Para eles, é mais fácil ficar na cripface, ofendendo uma comunidade, do que fazer o básico: acessibilidade e inclusão. Infelizmente, o capacitismo ser estrutural e velado reflete nisso, em detalhes muito pequenos, mas no final, são imensos", ponderou a consultora Violeta.

O que é cripface?

O termo cripface é utilizado para definir a prática de escalar pessoas sem deficiência para interpretar papéis que exigem deficiência. Essa lógica se assemelha ao que ocorreu com o termo blackface, utilizado em críticas a pessoas brancas que pintam o rosto de preto para imitar pessoas negras.

A discussão sobre essa prática tem se tornado cada vez mais frequente, dado que há pouco espaço para artistas com deficiência em grandes produções. Quando a escolha deles poderia ser óbvia, especialmente em papéis onde a deficiência é parte da narrativa, endereçados são abruptamente substituídos por atores não PCDs.

Diretor e protagonista se pronunciam

"Feliz ano velho" é um livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, que relata como um acidente, aos 20 anos, o fez tornar-se tetraplégico. Gustavo Barchilon, diretor do espetáculo, comentou o posicionamento de Tato Amorim, enfatizando que a narrativa não apenas retratará a vida do protagonista após o acidente, mas incluirá recursos de flashback.

"Oi, Tato, concordo com seu posicionamento e entendo a importância da questão que você levanta. Contudo, é importante esclarecer que, especificamente em 'Feliz ano velho', a construção dramatúrgica parte de uma proposta diferente. Para quem conhece o livro, a história começa com a vida do Marcelo até o acidente e se constrói através de flashbacks. Por isso, pela própria estrutura da dramaturgia, não seria viável que o papel fosse interpretado por uma pessoa cadeirante, já que acompanhamos Marcelo em diferentes fases de sua vida, inclusive antes do acidente", explicou Gustavo.

O diretor também justificou a escolha de Bruno Garcia para o elenco.

"O Bruno interpreta tanto o Marcelo mais velho quanto o pai dele, justamente nesse jogo de memória que o espetáculo propõe", esclareceu.

Além disso, Gustavo citou a presença de Luciano Mallmann, um ator com deficiência, em um papel secundário na peça.

"É importante ressaltar que temos, sim, uma pessoa com deficiência no elenco. O Luciano, um ator incrível, que está ali sem que sua deficiência defina o personagem. Ele interpreta um médico, desconstruindo estereótipos e ocupando o palco como o grande ator que é. Como diretor e idealizador do projeto, fiz questão de esclarecer isso pessoalmente, pois entendo sua colocação e não gostaria que houvesse uma impressão equivocada sobre uma questão que tratamos com muito cuidado. Talvez algumas dessas informações não tenham chegado até você, mas fico feliz em poder explicar melhor e contextualizar a escolha", acrescentou.

O intérprete do protagonista, Hugo Bonemer, também comentou, afirmando que discussões internas sobre o assunto foram realizadas desde o início do processo.

"Querido Tato, a crítica é relevante e não a desconsiderarei. O Marcelo, no espetáculo, é vivido antes e depois do acidente que o deixou tetraplégico, e essa construção faz parte do que discutimos internamente", escreveu o ator, se colocando à disposição para dialogar com o autor do desabafo.