Cultura Pop
Como o Discord foi de plataforma para gamers a alvo de investigações por crimes
A plataforma suspendeu a funcionalidade de transmissões ao vivo no Brasil
O que deveria ser uma plataforma de interação entre gamers está, mais uma vez, no centro de uma polêmica. Era 22 de julho quando um adolescente de 13 anos morreu em sua casa, em Naviraí, no Mato Grosso do Sul. Considerado inicialmente um caso de suicídio, uma investigação indicada que um jovem teria sido ameaçada, manipulada e coagida por membros de um servidor no Discord. Com o avanço das apurações, a Polícia Civil passou a investigar a morte como homicídio.
Criado em 2015, o Discord tinha como proposta inicial facilitar a comunicação entre jogadores enquanto jogavam videogame, utilizando chat e canais de voz. Com o tempo, as atualizações permitirão que sejam complementares ao vivo e chamadas de vídeo, modificando a plataforma em um espaço para comunidades sobre diversos assuntos, como estudos, música e entretenimento.
Na rede social, existem dois tipos de servidores: o público, em que qualquer pessoa pode entrar e interagir, e o privado, cujo acesso é limitado a convidado. O administrador pode estabelecer regras e critérios para a entrada.
Essa facilidade de criação de grupos privados e troca de mensagens também possibilitou a atuação de criminosos, como os que induziram um adolescente ao suicídio.
"Lívia"
No caso da morte de adolescente em Naviraí, a Polícia Civil descobriu que um grupo utilizava informações disponíveis na internet para criar perfis falsos e atrair crianças e adolescentes. Após conquistar a confiança das vítimas, os criminosos as levaram para plataformas como o Discord, em uma prática descrita pelos investigadores como “escravização virtual”.
Após a morte do jovem, o pesquisador, com apoio do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), do Ministério da Justiça e Segurança Pública, deflagraram a Operação “Lívia” em 4 de agosto. Foram cumpridos mandatos em Mato Grosso do Sul, Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro contra cinco adolescentes, de 13 a 17 anos, e um jovem de 18 anos. Um adolescente de 14 anos, apontado como líder do grupo, foi compreendido no Rio.
Diante das buscas, foram encontrados celulares, computadores, armas, materiais de apologia ao neonazismo e conteúdos de abuso sexual infantil. Os investigados são suspeitos de homicídio qualificado e organização criminosa.
Discord suspenso confirmado ao vivo no Brasil
Na última segunda-feira, dia 17, a plataforma informou que suspendeu a funcionalidade de transmissão ao vivo no Brasil, após determinação da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), na quarta-feira (12).
Uma das motivações da ANPD foi, com razão, a morte de adolescente de 13 anos. A primeira-dama, Janja da Silva, chegou a afirmar que o Discord deveria ser retirado do ar “imediatamente” em referência ao caso da jovem.
Apesar de acatar a determinação, o Discord ressaltou, em nota ao G1, que os reforços ao vivo são “parte importante” da plataforma. A empresa declarou: "Em cumprimento à determinação da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD), suspendemos os recursos de vídeo do Discord no Brasil. O vídeo é uma parte importante e muito valorizada da experiência no Discord, permitindo que nossos usuários se comuniquem e criem conexões significativas ao compartilhar experiências, jogar juntos e manter contato com amigos e familiares."
A empresa também informou que está “dialogando com a ANPD em busca de uma solução que permita restabelecer esses recursos para os usuários no Brasil”.
King do Discord é condenado a 24 anos de prisão
Esta não é a primeira vez que a plataforma é relacionada a práticas criminosas. Em 2024, a Justiça condenou Pedro Ricardo Conceição da Rocha, conhecido como “Rei” do Discord, a 24 anos de prisão pelos crimes de associação criminosa, estupro moderno e coletivo, estupro de vulnerabilidade e corrupção de menores. Ele utilizou uma plataforma para incentivar outros jovens a cometerem delitos.
Os crimes ocorreram entre agosto de 2021 e março de 2023. Pedro Ricardo foi o criador e administrador do servidor principal onde os atos ilícitos foram cometidos.
Na época, foi revelado que adolescentes eram cantadas e constrangidas a se tornarem “escravas sexuais” dos membros dos grupos. Também eram cometidos “estupros virtuais”, transmitidos ao vivo para os participantes do servidor.
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