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Jornalista lança livro de crônicas redigidas à mão em clínica de reabilitação: 'Escrevi para continuar vivo'

'Garrafas ao mar — Diário de um repórter internado para tratamento do alcoolismo' terá noite de autógrafos nesta quinta-feira (28), no Rio de Janeiro

Agência O Globo - 27/05/2026
Jornalista lança livro de crônicas redigidas à mão em clínica de reabilitação: 'Escrevi para continuar vivo'
João Paulo Arruda

O jornalista João Paulo Arruda lança nesta quinta-feira (28), às 19h, na Livraria da Travessa Ipanema (Avenida Visconde de Pirajá 572), no Rio de Janeiro, o livro “Garrafas ao mar — Diário de um repórter internado para tratamento do alcoolismo”, publicado pela Editora Máquina de Livros. Com 144 páginas, a obra chega ao público nos formatos impresso (R$ 68) e e-book (R$ 39).

O título, segundo Arruda, pode ser interpretado de duas formas: como o pedido de socorro de um náufrago ilhado pelo próprio vício ou como o descarte simbólico das embalagens que guardam a razão de sua perdição.

Durante os 110 dias em que esteve internado em uma clínica de reabilitação no Rio de Janeiro, no segundo semestre do ano passado, Arruda escreveu à mão, diariamente, as crônicas que compõem o livro.

“Com as mãos ainda trêmulas pela abstinência, comecei a escrever os textos de próprio punho, um por dia. Lia-os todo sábado para minha namorada, Sheila, durante as visitas. Só quando já tinha uns oito, dez textos, percebi que poderia transformar aquilo em um livro”, relata o jornalista. “Foi um processo desafiador e, ao mesmo tempo, maravilhoso. Escrevia no papel pautado, sem pressa, gastando cerca de 40 minutos em cada texto. Era tempo de refletir, porque não havia a tecla ‘delete’ para voltar atrás — o uso do computador era proibido na clínica.”

Nas crônicas, Arruda narra a rotina como interno e as histórias que surgiram da convivência com outros pacientes — dependentes de álcool, outras drogas, sexo ou jogos.

“A gente se adapta rapidamente ao ambiente ao perceber que também está doente. No início, eu negava, mas sabia que não era normal acordar tremendo e precisar de três doses para me restabelecer. Às vezes, bebia deitado na rede de casa e, com medo de me levantar para ir ao banheiro, levava a garrafa junto”, relembra. Arruda conta que começou a beber ainda na adolescência, mas a situação se agravou em 2024, aos 48 anos.

Hoje, o jornalista está “limpo” há pouco mais de nove meses. “Nunca dei escândalo, mas fiquei conhecido como ‘o bêbado do bairro’. Enfrentei a falta de empatia da vizinhança. Na irmandade da clínica, encontrei apoio. Continuo frequentando os encontros, porque essa doença não tem cura.”

Apesar do relato pessoal, Arruda afirma que não pretende aconselhar ninguém com o livro: “Essa é a minha história, o meu caminho. Não escrevi um livro para ajudar ninguém, mas para continuar vivo.”