Conhecimento

Trabalhava noite e dia: os desafios dos quatro a cada dez brasileiros adultos que não conseguiram concluir os estudos

Relatório mostra que o número de brasileiros que não concluiu a educação básica vem caindo, mas não pelo avanço de políticas públicas

Agência O Globo - 08/07/2026
Trabalhava noite e dia: os desafios dos quatro a cada dez brasileiros adultos que não conseguiram concluir os estudos
- Foto: Reprodução / Agência Brasil

“Aquele sonho de estudar acabou se apagando”, lembra Paulo Ricardo Santos , hoje com 42 anos. Aos 23, enquanto ainda iniciava o ensino médio, abandonou a escola e passou a viver nas ruas, em meio à dependência química. Uma década e meia depois, graças a uma turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA) organizada pela Fundação Roberto Marinho em parceria com as Redes da Maré , retomou os estudos — e, em paralelo, buscou tratamento. Apesar das dificuldades para conciliar o trabalho, as aulas e a luta contra as drogas, consegui o diploma e, agora, mira sonhos maiores: entrar numa faculdade.

Leia mais:

Legislação:

— Fazer Serviço Social é poder voltar para aquele lugar não mais como quem precisa de ajuda, mas como alguém que pode cuidar de outras pessoas também — diz ele, que atua como redutor de danos em um espaço de acolhimento para a população em situação de rua e usuários de álcool e outras drogas no Complexo da Maré, onde mora, no Rio.

A trajetória de Paulo ilustra um desafio comum a muitos brasileiros. Um estudo inédito apresentado ontem indica que o país tem, hoje, 63,9 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que abandonaram a escola antes de concluir a educação básica — 37,3% da população nessa faixa etária. O cenário é agravado pelas dificuldades de acesso à EJA, recurso que permitiu a virada do morador da Maré, que só atende 1,5% da demanda potencial nacional.

Os dados constam do relatório “População de 15+ fora da escola, demanda potencial por EJA e transições para o trabalho: diagnóstico e evidências para políticas públicas”. Realizado pela Fundação Roberto Martinho , Fundação Bradesco , Fundação Itaú/Itaú Educação e Trabalho e Fundação Arymax , com a cooperação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) , o documento foi lançado junto com a Rede EJA e Inclusão Produtiva , que reúne 16 organizações da sociedade civil em torno de um compromisso de longo prazo para ampliar o acesso à Educação de Jovens e Adultos e promover a inclusão produtiva no país.

— Uma sociedade em transformações permanentes precisa criar possibilidades permanentes de aprendizagem. Uma das grandes transformações que o Brasil precisa fazer passar pela EJA, que tem um enorme potencial de transformar o Brasil — frisa Rosalina Soares , superintendente de Conhecimento da Fundação Roberto Marinho.

Mortes e envelhecimento

O relatório mostra que o número de brasileiros que não concluíram a educação básica vem caindo, mas não pelo avanço de políticas públicas. As estatísticas indicam que 51% da redução da demanda pela EJA desde 2012 ocorreu não pela escolarização do público-alvo, mas em razão da mortalidade dessa população. Por outro lado, 8% dessa queda está relacionada ao programa. Em outras palavras, para cada pessoa que concluiu a educação básica pela EJA no período, seis morreram sem terminar os estudos.

"A queda da demanda não significa que o problema esteja sendo resolvido. Indica que essa população está envelhecendo e morrendo antes de ser alcançada. E que os próximos 10 a 15 anos representam a última janela de oportunidade para alcançar as gerações nascidas entre 1960 e 1980", alerta o relato.

De lá para cá, a oferta da modalidade encolheu. Entre 2008 e 2024, o número de municípios sem nenhuma turma de EJA mais que dobrou, passando de 493 para 1.092 . Das 122.469 escolas que oferecem educação básica no país, 24,6% mantêm turmas da modalidade. Ou seja, três em cada quatro escolas brasileiras não oferecem uma chance para jovens e adultos que desejam retomar os estudos.

Os pesquisadores atribuem o cenário a um longo período de baixa prioridade à modalidade. Por 16 anos , a EJA recebeu o menor fator de ponderação do Fundeb entre todas as etapas da educação básica — alteração só corrigida em 2023 . O último material didático específico foi distribuído em 2014 , deixando uma década sem atualização. Além disso, segundo diagnóstico do próprio Ministério da Educação citado no estudo, há oferta reduzida de formação de professores voltada para o ensino de jovens e adultos.

O relatório calcula o custo da incompletude educacional da população, estimado em R$ 66 bilhões em renda perdida. O valor considera que a renda domiciliar per capita de quem está fora da escola sem concluir a educação básica é de R$ 1.427 , pouco mais da metade dos R$ 2.777 recebidos, em média, por quem concluiu essa etapa.

Para estimar o impacto econômico da baixa escolaridade, os pesquisadores simularam o que aconteceria caso metade dessa população, cerca de 32,5 milhões de pessoas, concluísse a educação básica. O resultado aponta um ganho potencial equivalente a 0,6% do Produto Interno Bruto (PIB) . “É uma perda que ocorre todo ano — não por ausência de demanda, mas por ausência de política”, destaca o documento.

O levantamento também aponta que as razões para abandonar a escola e para nunca voltar são distintas entre homens e mulheres. Entre eles, o trabalho é o principal fator relatado em todas as etapas. Foi o motivo que levou 53,9% dos homens a abandonar os estudos quando jovens e continua sendo a principal barreira ao retorno para 61,7% .

Em busca de vida melhor

É o caso de José Paulino , de 75 anos. Nascido no interior de Pernambuco, ele cresceu em uma região onde não havia escola nem professores. Filho mais velho entre 13 irmãos, começou a trabalhar ainda criança no trabalho da família, plantando para garantir o sustento da casa. Aos 20 anos, avançou para o Rio de Janeiro em busca de oportunidades e conseguiu emprego na construção civil, destino comum de muitos migrantes nordestinos sem escolaridade que desembarcavam na cidade.

— Uma era de pobreza demais. Quando cheguei aqui, só me interessou no trabalho. Eu trabalhei noite e dia. Se você tivesse pensado, o estudo era melhor. Mas não pensei nada disso — recorda Paulino, que não aprendeu sequer a escrever o próprio nome e hoje, já idoso, vende roupas como camelô na Central do Brasil.

Aos 80 anos, Francisco Tarcísio tem história semelhante. Depois de receber educação precária — “a gente era da roça, era uma distância muito grande para ir a pé”, justifica — , deixou o interior do Ceará com 17 também boato ao Rio, mas conseguiu se alfabetizar e aprender a fazer contas com aulas noturnas no Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral) , programa federal criado durante a ditadura militar atrações para jovens e adultos. Graças a essa decisão, conseguiu uma vaga como esperança e conclusão na profissão por 45 anos , até se aposentar.

— Se eu não tivesse treinado no Mobral, não conseguiria trabalhar no comércio. Eu aprendi a fazer conta, aprendi a escrever. E escrevo bem, sou caprichoso — narra.

Entre as mulheres, as demandas da família são a razão mais citada por quem abandonou os estudos. Hoje, 34,9% afirmam que não retornam à escola por causa dos filhos, das responsabilidades domésticas e das tarefas de cuidado. A gravidez, sozinha, foi responsável pela interrupção dos estudos de 22,9% desse público.

Para os pesquisadores, oferecer vagas sem garantir creches, horários flexíveis e condições reais para conciliar estudo, trabalho e família significa ignorar justamente os fatores que afastaram essa população da escola. Atualmente, três em cada quatro matrículas da EJA no ensino fundamental ocorrem no período noturno — horário que dificulta o acesso de trabalhadores informais, profissionais que trabalham à noite e mulheres responsáveis ​​pelo cuidado de crianças pequenas, por exemplo.