Conhecimento
Crianças brincam menos hoje por sobrecarga de tarefas e telas, diz pesquisador
Doutor em Educação e estudioso das tradições populares da infância brasileira defende a importância das parlendas e alerta para mudanças em cantigas tradicionais
Uma mudança na letra de “Atirei o pau no gato”, ainda que bem intencionada, pode colocar a cantiga em risco, avalia Nélio Spréa, doutor em Educação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisador das tradições populares da infância brasileira.
Em entrevista ao GLOBO, ele afirma que as crianças brincam menos do que nas gerações anteriores porque estão cada vez mais ocupadas com tarefas, agendas e telas. Spréa também reforça a importância das parlendas — brincadeiras infantis marcadas por ritmo, rima e repetição, como “Uni, duni, tê” e “Um, dois, feijão com arroz” — para o desenvolvimento da linguagem, da socialização e da progressão motora.
Confira a entrevista:
As crianças hoje brincam menos que seus pais e avós?
Sim. Brincava-se mais porque as crianças se encontravam com maior frequência e tinham mais possibilidade de, juntas, encontrar soluções para o tédio. Quando não há nada para fazer, elas precisam criar, inventar. Hoje, as crianças estão sobrecarregadas de tarefas e agendas, além de permanecerem entretidas por tempo demais com as ofertas do mundo digital.
O senhor publicou um vídeo dizendo que a mudança na letra de “Atirei o pau no gato” pode ter prejudicado a popularidade da cantiga entre as crianças. O que aconteceu?
Essa é uma cantiga secular. Está no Brasil e em Portugal desde o século XIX. A razão para a alteração da letra é muito legítima, já que a nova versão se posiciona contra os maus-tratos ao animal. Mas sugiro que essa adaptação não seja tão dramática. A métrica do texto é fundamental nessa cantiga. No final, há um fator lúdico, que é o “miau”, momento em que todas as crianças, em roda, caem no chão. É uma diversão que foi retirada da nova versão. A letra alterada deixou a música mais difícil de cantar. Sugiro apenas uma mudança sutil: trocar “pau” por “pão” e “morreu” por “comeu”.
Quando o senhor avalia que essas cantigas tradicionais podem ser alteradas?
Há um excesso de pudor pedagógico que recai sobre a sabedoria popular. Várias outras dificuldades com isso. “O cravo brigou com a rosa”, por exemplo, deixa de ser cantada porque algumas crianças presenciam brigas dos pais. Há um pudor excessivo nesse caso, sendo que justamente a cantiga pode abrir espaço para que essa questão seja trabalhada pelos professores.
Mas a tradição não está acima de tudo. “Escravos de Jó”, por exemplo, pode ser adaptado para “guerreiros nagô” sem perder sua força. Há também uma brincadeira que aprendi no Norte de Minas e depois descobri que é conhecida em todo o país, em que as crianças cantam: “Plantei um pé de alface no meu quintal/nasceu uma negrinha de avental/rebola, negrinha/rebola, negrinha”. Isso não se admite mais. De forma simbólica, essa cantiga revela explicitamente violências de uma época cruel do Brasil.
Algumas escolas estão proibindo brincadeiras como polícia e ladrão para proteger essas crianças. As crianças precisam ser cegadas dessa forma na brincadeira?
Entendendo que seja uma questão delicada em alguns contextos, como nas escolas de comunidades do Rio de Janeiro. As crianças levam para a experiência lúdica uma linguagem e um comportamento muito fiel ao que ocorre no dia a dia delas. Nesses casos, as escolas têm muita dificuldade de lidar com a situação e acabam proibindo porque não sabem o que fazer.
Essa é a melhor estratégia?
Seria melhor não proibir, mas acompanhar. Isso é muito rico para a mediação a partir do que acontece na brincadeira. É muito doloroso para uma criança lidar com a violência real. Mas, no contexto de polícia e ladrão, ela pode conseguir conversar sobre algumas coisas que nega ou evita quando fala da vida real.
Brincadeira tem gênero?
Muita gente gostaria que tivesse e faz um esforço imenso para isso. Há até professores que militam nessa causa e impõem restrições drásticas ao desejo das crianças de brincar, dizendo o que pode ou não. Os meninos querem brincar com bonecas ou de casinha porque enxergam suas próprias rotinas. Muitos deles veem os pais como agentes de limpeza e dos cuidados com os bebês. O brincar é a expressão dessas realidades.
É muito bonito ver um menino imitando um pai, mas, às vezes, isso é boicotado e ele fica sem entender o motivo. As crianças devem brincar com aquilo que sentem vontade, desde que não agridam nem ofendam umas às outras.
O que é uma parlenda?
As parlendas são identificadas mais facilmente pelo texto que as representa. Elas têm um texto memorizável. O ritmo, a métrica e a rima ajudam a criança a lembrar. Mas a parlenda vai muito além do texto. O texto é um relatório do que vai acontecer. Ele guia a nossa ação. O que eu chamo de parlenda não é o texto, mas o evento que se dá a partir dele.
O que elas ensinam?
É algo multidisciplinar e multilinguagem. Envolva memorização, contato com o texto e seus possíveis sentidos. Há um trabalho de letramento fundamental, que a parlenda provoca desde o bebê. Também trabalha movimentos, noções, domínios bilaterais e os cruzamentos dos braços de um lado para o outro. Isso é muito importante nessa fase da infância.
A parlenda exige sincronia dos movimentos, concentração e escuta daquilo que o outro está propondo, para que se possa fazer junto. Ela nunca acontece sozinha. É uma forma de socialização, de estar com o outro, fazendo algo que não é só meu. É nosso.
Qual é sua parlenda favorita?
São tantas que é difícil escolher. Mas eu diria a do “Mindinho, seu vizinho”. Ela continua com um jogo cumulativo, sempre questionando a resposta anterior: "Cadê o gato? Foi pro mato. Cadê o mato? Fogo queimou...". Isso é muito interessante e muito comum em outras parlendas. Cria um fluxo narrativo adequado para o bebê entender, sempre com a mesma estrutura: pergunta, resposta; pergunta, resposta. Pela importância dela e pelo alcance no Brasil, em Portugal e em outros países de língua portuguesa, eu a escolho.
Nesse mundo em que a tecnologia é tão atraente, como as famílias podem fazer com que seus filhos brinquem como as tradições sempre se brincam?
Eles precisam delimitar o tempo de permanência diante das telas. Há vídeos ótimos para as crianças; o problema é o excesso. Os pais acham que, ali, eles estão mais controlados, seguros, e que a casa fica mais silenciosa. Mas isso compromete muito a saúde física e emocional, além do desenvolvimento cognitivo da criança.
O excesso de telas gera dificuldades, falta de paciência com o tempo real das coisas, dificuldade de interação e medo social. Uma dica é: não troque a saúde das crianças pela calmaria ilusória que o uso das telas provoca.
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