Cidades

Das empadas à medicina: estudante sergipana transforma sonho de ser médica em luta diária em Maceió

Raphaela Cardoso, que ficou conhecida como “Rapha das Empadinhas”, voltou a vender salgados para custear a permanência na capital alagoana e continuar o curso de Medicina

Land Quintela 16/09/2026
Das empadas à medicina: estudante sergipana transforma sonho de ser médica em luta diária em Maceió
Das empadas à medicina: estudante sergipana transforma sonho de ser médica em luta diária em Maceió

O sonho de ser médica acompanha Raphaela Cardoso desde a adolescência. Sergipana, ela chegou a fazer diversas tentativas para ingressar em uma universidade federal, iniciou outra graduação, trabalhou, construiu uma carreira e, mesmo diante das dificuldades, nunca deixou de lado o objetivo que carregava desde criança.

Hoje, estudante de Medicina em Maceió, Raphaela encontrou nas empadas uma forma de continuar perseguindo esse sonho. Incentivada pelos amigos da faculdade, ela voltou a produzir e vender os salgados não apenas no ambiente universitário, mas também em pontos próximos de onde mora, transformando trabalho e criatividade em uma fonte de renda para ajudar a custear sua permanência na capital alagoana e as despesas com a graduação.

Nas redes sociais, a história ganhou repercussão e fez com que ela passasse a ser conhecida como “Rapha das Empadinhas”.

Um sonho que começou cedo

Raphaela conta que desde criança dizia à mãe que queria ser médica. A vontade foi crescendo ao longo da adolescência, principalmente pelo interesse em compreender o corpo humano, as doenças, a prevenção e, sobretudo, pela disposição em cuidar e ajudar outras pessoas.

“Desde adolescente dizia à minha mãe que queria ser médica. Esse sonho sempre ficou guardado no meu coração”, conta.

Ela concluiu o ensino médio em 2015 e passou alguns anos se preparando para o Enem. Até 2018, foram várias tentativas de ingressar em uma universidade federal, mas a aprovação não veio.

Em 2019, decidiu iniciar o curso de Enfermagem na Unit, em Aracaju. Conseguiu ingressar por meio da nota do Enem e posteriormente obteve o Fies, mas o financiamento não cobria integralmente os custos da graduação. Para ajudar a mãe a pagar a faculdade, começou a procurar emprego, sem conseguir uma oportunidade naquele momento.

Foi então que uma situação familiar acabou dando origem a uma atividade que, anos depois, voltaria a ser fundamental em sua trajetória.

A primeira empada e o nascimento da “Rapha das Empadinhas”

Durante um aniversário de família, uma tia de Raphaela preparou empadas. Ela gostou tanto que teve uma ideia: aprenderia a receita para vender na faculdade.

“Marquei com minha tia um dia na casa dela e fui aprender a fazer”, lembra.

Depois de aprender a preparar as empadas, Raphaela comprou os ingredientes fiado em uma mercearia próxima de sua casa. Combinou com o proprietário que pagaria no mesmo dia, depois de vender os produtos na faculdade.

A aposta deu certo.

“Ele confiou em mim e aceitou a proposta. Levei para a faculdade e foi o maior sucesso”, relata.

Naquele mesmo dia, os amigos perceberam o potencial da iniciativa e sugeriram que ela criasse um perfil nas redes sociais. Como ainda não tinha um nome para o negócio, veio a sugestão que acabaria se tornando sua identidade: Empadas da Raphinha.

O nome pegou. E Raphaela passou a ser conhecida pelos colegas justamente pelas empadas que vendia para ajudar a financiar seus estudos.

Da pandemia ao mercado de trabalho

Com a chegada da pandemia, em 2020, as vendas passaram a ser feitas principalmente por delivery. No final daquele ano, surgiu também uma oportunidade profissional por meio de uma professora da faculdade.

Raphaela recebeu o convite para um estágio remunerado em uma empresa. Apesar do receio provocado pela pandemia e pelo medo de colocar a própria família em risco, decidiu aceitar.

A escolha abriu uma nova etapa de sua vida profissional.

Ela permaneceu na empresa por cinco anos. Começou como estagiária e, depois de concluir a graduação em Enfermagem, foi contratada efetivamente como RT.

Mesmo trabalhando, as empadas continuaram fazendo parte da rotina. Raphaela produzia encomendas e aproveitava eventos realizados pela empresa para comercializar os produtos.

De volta às empadas para não desistir da Medicina

Em 2025, quando se mudou para Maceió para cursar Medicina, precisou interromper as vendas. A rotina de trabalho e estudos, somada à logística, dificultava a produção.

No semestre seguinte, porém, a situação mudou. Para se dedicar integralmente ao sonho de ser médica, Raphaela precisou trancar a faculdade e deixar o trabalho.

Foi nesse momento que decidiu retomar aquilo que já havia funcionado em sua primeira graduação.

No dia 16 de março de 2026, aniversário de Raphaela, ela decidiu voltar a vender empadas. Foi para uma avenida próxima de sua casa, em Aracaju, com os produtos preparados por ela.

Em menos de uma hora, vendeu tudo.

O resultado reacendeu uma esperança que parecia distante.

“Fiquei extremamente feliz e vi uma esperança, bem lá no fundo, de que eu conseguiria pagar minha faculdade vendendo as empadas, assim como foi na minha primeira graduação”, conta.

De Aracaju para Maceió

Ainda sem saber se retornaria para Maceió, Raphaela continuou vendendo as empadas. Em julho, porém, veio a certeza de que precisaria voltar à capital alagoana para não perder a vaga na faculdade, já que o período permitido de trancamento era limitado.

Foi quando a mãe voltou a ter um papel fundamental.

“Minha mãe moveu o mundo e disse que, mesmo naquele momento, a gente não sabendo como seria, era para eu não perder a esperança e tentar”, relata.

Raphaela contou a situação aos amigos que vivem em Maceió. Eles não apenas incentivaram a volta como também ajudaram a estruturar a nova fase das vendas.

Quando chegou à capital alagoana, ela tinha apenas um forno para produzir as empadas. Aos poucos, com a ajuda dos amigos, conseguiu organizar a logística para levar os produtos até os pontos de venda.

No início, vendia apenas na faculdade. A divulgação acontecia principalmente pelo boca a boca e pelas mensagens compartilhadas pelos colegas em grupos de outras turmas.

A procura cresceu.

Hoje, além da faculdade, Raphaela também vende em pontos próximos de onde mora, ampliando a clientela e transformando as empadas em uma das principais ferramentas para continuar na graduação.

Uma rede de apoio construída pelos amigos

Para Raphaela, a história das empadas também é uma história de amizade.

Ela faz questão de destacar o apoio dos colegas, que ajudam na divulgação, na logística e até nas vendas.

“Sou extremamente grata a todos os meus amigos que divulgam, me ajudam, aplaudem meu crescimento e vivem tudo isso com muito carinho e respeito junto comigo”, afirma.

A trajetória também tem forte participação da mãe, técnica de enfermagem, que criou Raphaela praticamente sozinha desde a infância. Os pais são separados e o pai mora em Jequié, na Bahia, onde trabalha como motorista de aplicativo.

A relação com a área da saúde também passa pela própria família. Foi observando a mãe e desenvolvendo desde cedo o desejo de cuidar das pessoas que Raphaela encontrou ainda mais motivos para seguir o caminho da Medicina.

Quando trabalhar pelo sonho vira inspiração

A história de Raphaela chegou às redes sociais e chamou a atenção justamente pela simplicidade da estratégia: produzir, vender e transformar cada empada em mais um passo rumo à formação médica.

Nesta semana, a repercussão aumentou quando o influenciador Ruan Clemente, administrador da página @aondeeuvoumaceio, foi até o ponto onde Raphaela estava vendendo, em uma praça no bairro da Gruta, em Maceió, para conhecer de perto a estudante e divulgar sua história.

O encontro ajudou a ampliar a visibilidade do trabalho e fez com que mais pessoas conhecessem a trajetória da jovem sergipana que encontrou nas empadas uma maneira de permanecer em Alagoas e continuar estudando.

Mais do que vender salgados, Raphaela vende uma história de persistência. Cada fornada representa uma tentativa, cada venda ajuda a pagar uma conta e cada empada comercializada mantém um pouco mais próximo o sonho que ela carrega desde a adolescência.

A estudante ainda tem uma longa caminhada até o diploma de Medicina. Mas, enquanto ele não chega, ela segue fazendo o que aprendeu ao longo da vida: trabalhar, insistir e encontrar caminhos quando as portas tradicionais não se abrem.

E, em Maceió, o sonho de ser médica também pode começar em uma praça, ao lado de um forno e de uma caixa cheia de empadas.

Assista ao vídeo da história de Raphaela e conheça a “Rapha das Empadinhas”:

[ASSISTA AO VÍDEO]