Cidades
Federação de JHC aciona Justiça contra comediante e amplia cruzada contra o humor em Maceió
Depois do Bode Repórter, personagem fictício da Tribuna do Sertão criado com inteligência artificial, a Federação PSDB-Cidadania agora mira publicação do comediante Felipe De Vas
Maceió, cidade historicamente lembrada como Cidade Sorriso e conhecida também como Paraíso das Águas, volta ao centro de uma polêmica que ultrapassa os limites da disputa eleitoral e alcança um terreno sensível da democracia: o direito ao humor, à sátira política e à livre manifestação de pensamento.
Depois de acionar a Justiça Eleitoral contra o Bode Repórter, personagem fictício produzido com inteligência artificial pela Tribuna do Sertão, a Federação PSDB-Cidadania, ligada politicamente ao ex-prefeito João Henrique Holanda Caldas, o JHC, voltou-se agora contra uma publicação do comediante alagoano Felipe De Vas.
Segundo informações levadas à reportagem, a federação ingressou com ação na Justiça contra conteúdo publicado pelo humorista nas redes sociais. O episódio provocou reação imediata de Felipe De Vas, que se disse revoltado com a iniciativa e afirmou, em vídeo, ter se tornado o primeiro comediante da história de Maceió processado por um político por fazer piada.
“Primeiro comediante da história de Maceió a ser processado por um político por fazer piada. Primeiro. Primeiro da história de Maceió. E é um político de quê? De direita”, disse Felipe De Vas, em tom de ironia e indignação.
Em outro trecho, o comediante reforçou a crítica:
“Primeiro comediante da história de Maceió que foi processado por um político. Primeiro. Se chama Felipe De Vas. Pode botar no livro de história aí”, afirmou.
A fala viralizou entre setores que enxergam nas ações judiciais uma tentativa de impor limites excessivos ao humor político. Para críticos da postura adotada pela federação partidária de JHC, Maceió vive um paradoxo: a cidade vendida ao mundo como território do sorriso, da beleza natural e do acolhimento estaria se transformando, no ambiente político, em palco de uma ofensiva contra piadas, charges eletrônicas, personagens satíricos e manifestações críticas nas redes sociais.
O caso de Felipe De Vas não é isolado.
Antes dele, o alvo foi o Bode Repórter, personagem fictício criado pela Tribuna do Sertão por meio de inteligência artificial. O bode, em tom de sátira política, fez humor com o próprio ambiente de censura e judicialização da crítica em Alagoas. Acabou também virando alvo de ação na Justiça Eleitoral. Em matéria publicada pela Tribuna do Sertão, o veículo já havia registrado que a Federação PSDB-Cidadania acionou o TRE contra vídeo de humor do personagem, enquanto a defesa sustentou se tratar de sátira política protegida pela liberdade de expressão.
Na prática, o humor fez piada com a censura — e foi judicializado.
Agora, com a ação contra Felipe De Vas, a discussão ganha novo contorno. Não se trata mais apenas de jornalismo, reportagem, entrevista ou charge produzida por veículo de comunicação. O debate chega diretamente ao universo dos comediantes, humoristas e criadores de conteúdo que usam o riso como forma de crítica social.
A Federação PSDB-Cidadania é composta por PSDB e Cidadania. Em Alagoas, JHC assumiu o comando político da federação para as eleições de 2026, conforme declaração pública do ex-deputado federal Régis Cavalcante, dirigente do Cidadania no Estado. Nacionalmente, a federação tem como uma de suas principais lideranças o deputado federal Aécio Neves, do PSDB de Minas Gerais, que aparece como parlamentar em exercício pela legenda.
Na avaliação de críticos, a ofensiva judicial coloca JHC e seu grupo político no centro de uma contradição: enquanto Maceió tenta preservar a imagem de cidade leve, turística e sorridente, a política local passa a ser marcada por uma sequência de ações contra jornalistas, veículos de comunicação, personagens de humor e agora comediantes.
A Cidade Sorriso, nessa leitura, vê o riso ser levado aos autos.
O Paraíso das Águas, dizem críticos, começa a conviver com uma enxurrada de ações judiciais contra manifestações críticas. E a expressão “Maceió é massa”, usada como símbolo positivo da capital, passa a ser ironizada por quem vê na estratégia judicial uma tentativa de transformar a opinião pública em massa de manobra — algo que, nas redes sociais, muitos alagoanos afirmam não aceitar.
Do ponto de vista jurídico, ações para proteger honra e imagem são instrumentos legítimos em um Estado Democrático de Direito. O ponto em discussão, porém, é outro: até onde vai a proteção da imagem de um homem público e onde começa a censura contra o humor político?
A jurisprudência brasileira reconhece que pessoas públicas, especialmente agentes políticos e pré-candidatos, estão sujeitas a críticas mais duras, inclusive ácidas, irônicas e satíricas. O limite está na mentira deliberada, na imputação falsa de crime e no abuso que ultrapassa o campo da crítica ou da piada.
No caso da Tribuna do Sertão, em manifestação apresentada recentemente à Justiça Eleitoral, o jornal já havia alertado para o risco de as ações sucessivas produzirem um efeito inibidor sobre veículos regionais, jornalistas e comunicadores. Na mesma peça, a defesa afirmou que a Federação PSDB-Cidadania chegou a pedir a suspensão cautelar integral da conta de Instagram da Tribuna até o fim do período eleitoral, pedido classificado pelo veículo como de extrema gravidade.
A manifestação da Tribuna também sustentou que impedir a imprensa de divulgar um protesto contra a mordaça judicial seria uma “censura ao quadrado”, ou seja, a censura da notícia sobre a própria censura.
Agora, com Felipe De Vas, o caso ganha uma nova camada: a tentativa de controle não mira apenas a notícia, mas também a piada.
A reportagem não teve acesso, até o fechamento desta matéria, a eventual manifestação de JHC, da Federação PSDB-Cidadania ou dos advogados responsáveis pela ação contra o comediante. O espaço permanece aberto para manifestação das partes citadas.
O que já está posto, entretanto, é que a judicialização do humor entrou definitivamente no debate político de Alagoas. E, quando uma cidade conhecida pelo sorriso passa a ver comediantes dizendo que estão sendo processados por fazer piada, a pergunta deixa de ser apenas jurídica.
Passa a ser democrática.
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