Cidades
Após dois dias, SECOM de Maceió não informa se IPREV tentou recuperar R$ 117 milhões do Banco Master
Procurado pelo Tribuna do Sertão via jornalista Daniel Paulino, o diretor-presidente Guilherme Lanzillotti afirmou não ter respostas sobre a habilitação na liquidação ou ação judicial
A Secretaria Municipal de Comunicação de Maceió não conseguiu informar à Tribuna do Sertão quais providências foram adotadas pelo Instituto de Previdência dos Servidores Públicos do Município para tentar recuperar os aproximadamente R$ 117 milhões aplicados em Letras Financeiras emitidas pelo Banco Master.
Durante dois dias, a reportagem procurou o diretor-presidente do Maceió Previdência, antigo Iprev, Guilherme Lanzillotti, para obter respostas sobre as medidas administrativas e judiciais adotadas após a liquidação extrajudicial da instituição financeira.
O contato foi intermediado pelo jornalista Daniel Paulino, coordenador de atendimento à imprensa da Secretaria Municipal de Comunicação de Maceió.
A Tribuna do Sertão através da repórter Cinara Corrêa encaminhou dois questionamentos objetivos:
O Iprev já adotou alguma providência para recuperar os valores no processo de liquidação extrajudicial do Banco Master?
O instituto ingressou com alguma ação judicial, habilitação de crédito ou outra medida destinada a proteger e reaver os recursos dos aposentados e pensionistas?
Depois de dois dias de tentativas, Daniel Paulino informou à reportagem que o diretor-presidente “não tinha resposta aos questionamentos”.
A ausência de esclarecimentos ocorre diante de um dos mais graves episódios financeiros envolvendo recursos previdenciários públicos em Alagoas.
Secom não conseguiu obter resposta do instituto
A reportagem não solicitou uma avaliação política sobre o caso nem uma manifestação genérica sobre a saúde financeira do fundo previdenciário.
As perguntas tratavam exclusivamente das providências concretas tomadas para defender e tentar recuperar o patrimônio do instituto.
A Tribuna queria saber se o Maceió Previdência:
• habilitou formalmente seu crédito no processo de liquidação extrajudicial;
• ingressou com ação judicial contra o Banco Master ou outros envolvidos;
• contratou escritório ou assessoria jurídica especializada;
• instaurou sindicância ou processo administrativo;
• notificou antigos dirigentes, integrantes do Comitê de Investimentos ou consultores;
• comunicou formalmente as medidas aos conselhos do instituto;
• adotou alguma providência para responsabilizar eventuais agentes envolvidos na operação.
Nenhuma dessas informações foi apresentada.
A falta de resposta não permite concluir que o instituto permaneceu completamente inerte.
Pode haver alguma medida administrativa, judicial ou financeira em andamento.
O que se pode afirmar é que, depois de dois dias de tentativas, nem a direção do instituto nem a Secretaria Municipal de Comunicação informaram à imprensa quais providências foram adotadas.
Recursos estão expostos à liquidação
O Iprev de Maceió aplicou aproximadamente R$ 117 milhões em Letras Financeiras emitidas pelo Banco Master.
As operações ocorreram durante a administração do ex-prefeito João Henrique Caldas, o JHC, e passaram a ser amplamente questionadas depois que a instituição financeira entrou em crise e teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central.
As Letras Financeiras são títulos privados de longo prazo e não possuem proteção do Fundo Garantidor de Créditos.
Com a liquidação, o Iprev passou a depender dos procedimentos conduzidos pelo liquidante e da existência de patrimônio suficiente para pagar os credores.
Por essa razão, tecnicamente, ainda não é correto afirmar que todo o dinheiro foi definitivamente perdido.
É possível afirmar, entretanto, que os recursos estão expostos a risco, com recuperação incerta, e que eventual perda atingirá diretamente o patrimônio destinado ao pagamento das aposentadorias e pensões dos servidores municipais.
Autonomia para investir, silêncio para explicar
A falta de resposta contrasta com uma das principais teses apresentadas pelo grupo político de JHC em ações judiciais movidas contra jornalistas, veículos de comunicação, influenciadores e adversários.
Nesses processos, os advogados sustentam que o Iprev é uma autarquia dotada de personalidade jurídica própria, autonomia administrativa e financeira e órgãos técnicos responsáveis pelas decisões sobre investimentos.
O argumento é utilizado para afastar a responsabilidade pessoal do ex-prefeito pelas aplicações realizadas no Banco Master.
Se o instituto possui autonomia para deliberar, investir e administrar os recursos previdenciários, também possui o dever de explicar quais medidas adotou depois que o banco emissor dos títulos entrou em liquidação.
Não é razoável invocar a autonomia quando se pretende afastar a responsabilidade política de JHC e, ao mesmo tempo, deixar sem resposta perguntas sobre a atuação atual da própria autarquia.
Autonomia administrativa não elimina o dever de transparência.
Ao contrário, aumenta a obrigação de prestar contas aos servidores, aposentados, pensionistas e à sociedade.
Quem está defendendo o dinheiro dos aposentados?
O debate não pode se limitar a identificar quem autorizou os investimentos.
Também é necessário saber quem está, atualmente, tomando providências para recuperar o dinheiro.
O Banco Master está submetido à liquidação extrajudicial desde novembro de 2025. Passados vários meses, os servidores de Maceió ainda não receberam uma explicação pública detalhada sobre a estratégia adotada pelo instituto para tentar reaver os valores.
O Maceió Previdência deveria informar:
qual é o valor atualizado da exposição;
como os títulos estão registrados contabilmente;
se houve reconhecimento de perda ou constituição de provisão;
qual é a posição do instituto na relação de credores;
se o crédito foi formalmente habilitado;
qual é a expectativa de recuperação;
quais ações judiciais foram apresentadas;
e quem acompanha juridicamente o procedimento de liquidação.
Essas informações não pertencem exclusivamente à administração.
O dinheiro integra o patrimônio previdenciário dos servidores municipais.
Solvência não substitui recuperação
Depois do agravamento da crise do Banco Master, a direção do Maceió Previdência divulgou informações sobre a capacidade financeira do instituto e afirmou que o pagamento dos aposentados e pensionistas estava garantido.
A Prefeitura também destacou o patrimônio acumulado pelo fundo e sustentou que as aplicações haviam seguido as normas dos órgãos reguladores e recebido aprovação das instâncias internas.
Esses dados são relevantes para avaliar a capacidade geral de pagamento do regime previdenciário.
Não respondem, porém, às perguntas feitas pela Tribuna do Sertão.
Ter patrimônio suficiente para pagar benefícios no curto prazo não torna desnecessária a recuperação dos R$ 117 milhões.
Um fundo previdenciário não pode tratar uma aplicação dessa dimensão como uma questão secundária apenas porque ainda possui outros ativos.
Cada real pertence ao patrimônio dos segurados e precisa ser protegido.
Caso é investigado
As aplicações realizadas por regimes de previdência no Banco Master são objeto de investigações e questionamentos em diferentes estados.
Em Alagoas, o caso do Iprev de Maceió está sob apuração do Ministério Público Estadual e também entrou na pauta da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado.
A comissão, presidida pelo senador Renan Calheiros, busca esclarecer a cadeia de decisões que levou recursos previdenciários municipais a títulos emitidos pelo banco.
Entre os principais pontos que precisam ser esclarecidos estão:
quem apresentou o Banco Master ao Iprev;
quem recomendou a compra das Letras Financeiras;
qual consultoria avaliou a operação;
quais análises de risco foram realizadas;
quem aprovou os investimentos;
e quais providências foram adotadas depois da liquidação.
O ex-presidente do instituto no período das aplicações, Ronnie Reyner Teixeira Mota, também passou a ser mencionado como uma das pessoas que deverão prestar esclarecimentos sobre as operações.
Atas aumentam questionamentos
Documentos relacionados aos investimentos mostram que o Iprev aplicou inicialmente R$ 80 milhões no Banco Master e realizou nova movimentação posteriormente, elevando a exposição para aproximadamente R$ 117 milhões.
As aplicações foram justificadas como uma forma de corrigir um desenquadramento na carteira, que mantinha concentração acima do limite permitido em um fundo administrado pelo Banco do Brasil.
A solução escolhida, contudo, retirou recursos de um produto considerado de baixo risco e os transferiu para títulos privados de longo prazo, sem cobertura do FGC.
As atas do Comitê de Investimentos passaram a ser analisadas por órgãos de fiscalização, parlamentares e autores de ações judiciais.
Entre os questionamentos está a ausência, nos registros das reuniões, de informações detalhadas sobre rating, risco de crédito, capacidade financeira do Banco Master e alternativas mais seguras para promover o reenquadramento da carteira.
Secom deveria ter uma resposta
A Secretaria Municipal de Comunicação sob responsabilidade da jornalista Eliane Aquino não é responsável pela gestão financeira do instituto nem pelas decisões tomadas sobre os investimentos.
Sua função, no contato com os veículos de imprensa, é buscar as informações junto aos órgãos municipais e apresentá-las à sociedade.
No caso concreto, a Secom intermediou o contato por meio do jornalista indicado para isso Daniel Paulino, mas não conseguiu obter uma resposta do dirigente máximo do Maceió Previdência.
O resultado foi o silêncio institucional sobre uma questão que envolve mais de R$ 100 milhões pertencentes ao fundo dos servidores.
A informação de que o diretor-presidente “não tinha resposta” é insuficiente diante da dimensão do caso.
Se o instituto já habilitou o crédito na liquidação, bastaria informar.
Se ingressou com ação judicial, poderia apresentar o número do processo.
Se contratou especialistas, poderia explicar qual trabalho está sendo realizado.
Se ainda analisa as providências, deveria informar quais são e apresentar um prazo para conclusão.
A ausência de resposta apenas amplia as dúvidas.
Transparência não pode depender de investigação
A Prefeitura de Maceió e o Maceió Previdência não deveriam esperar decisões judiciais, convocações no Senado ou investigações do Ministério Público para apresentar esclarecimentos.
A transparência deve partir da própria administração.
O fundo é sustentado pelas contribuições dos servidores, pelas contribuições patronais do Município e por outras receitas públicas.
Caso os recursos não sejam recuperados, os efeitos poderão atingir o regime previdenciário e, em última instância, o próprio Tesouro Municipal.
Isso significa que toda a população de Maceió possui interesse legítimo no esclarecimento do caso.
Não há confirmação sobre ação ou habilitação
Até o fechamento desta reportagem, a Tribuna do Sertão não recebeu confirmação de que o Maceió Previdência tenha ingressado com ação judicial própria para recuperar os valores.
Também não recebeu informação sobre eventual habilitação do crédito no processo de liquidação extrajudicial do Banco Master.
Isso não significa afirmar que nenhuma medida tenha sido adotada.
Significa registrar que a direção do instituto e a Secretaria Municipal de Comunicação não informaram quais providências foram tomadas, apesar das tentativas realizadas durante dois dias.
A diferença é fundamental.
A reportagem não afirma, sem provas, que houve omissão absoluta.
A reportagem informa que a administração não respondeu.
Perguntas permanecem sem resposta
A Tribuna do Sertão mantém os questionamentos encaminhados ao diretor-presidente Guilherme Lanzillotti e à Prefeitura de Maceió:
1. O instituto habilitou o crédito correspondente às Letras Financeiras no processo de liquidação do Banco Master?
2. Qual é o valor atualizado da exposição do fundo previdenciário?
3. Houve ingresso de ação judicial própria para buscar ressarcimento?
4. Foi contratado escritório ou consultoria especializada para acompanhar a liquidação?
5. O Maceió Previdência instaurou sindicância ou procedimento para apurar responsabilidades?
6. Antigos gestores, integrantes do Comitê de Investimentos ou a consultoria que participou das operações foram notificados?
7. Existe previsão ou estimativa de recuperação dos valores?
8. Houve registro contábil de perda, provisão ou redução do valor dos títulos?
9. Quais providências foram informadas ao Conselho de Administração e aos representantes dos servidores?
10. Por que o diretor-presidente não apresentou resposta à imprensa?
O silêncio também produz informação
Num caso envolvendo aproximadamente R$ 117 milhões, não responder é uma postura institucional que precisa ser registrada.
A população sabe que o dinheiro foi aplicado.
Sabe que o Banco Master foi colocado em liquidação extrajudicial.
Sabe que as Letras Financeiras não possuem garantia do FGC.
Sabe que o Ministério Público e o Senado investigam o episódio.
O que ainda não sabe é o que o atual comando do instituto fez para tentar recuperar o patrimônio.
Durante dois dias, a Tribuna do Sertão buscou essas respostas.
O contato foi intermediado pelo jornalista Daniel Paulino, coordenador de atendimento à imprensa da Secretaria Municipal de Comunicação de Maceió.
A resposta recebida foi que o diretor-presidente Guilherme Lanzillotti “não tinha resposta aos questionamentos”.
O espaço permanece aberto para que o Maceió Previdência, seu diretor-presidente e a Prefeitura de Maceió apresentem os documentos, ações e medidas adotadas em defesa do dinheiro dos aposentados e pensionistas.
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