Cidades
Em áudio vazado, Hugo Wanderley rebate Júlio Cezar e diz que atendimento regional da UPA “não é favor, é obrigação”; ouça aqui
Ex-presidente da AMA revelou que "imperador" tenta distorcer a função da unidade, mostra que a estrutura é uma “lata velha enferrujada” e cobra nova UPA; dias antes, Defensoria havia apontado falta de profissionais e graves problemas físicos
Um áudio vazado e que passou a circular nas redes sociais e em grupos de mensagens expôs, nesta semana, uma dura reação do ex-prefeito de Cacimbinhas e ex-presidente da AMA Hugo Wanderley contra declarações atribuídas ao ex-prefeito de Palmeira dos Índios Júlio Cezar.
Na gravação, Hugo afirma ter ouvido com desprazer uma manifestação de Júlio Cezar em programa de rádio e acusa o ex-gestor de tentar fazer a população acreditar que o atendimento prestado pela Unidade de Pronto Atendimento de Palmeira dos Índios aos moradores dos municípios vizinhos seria uma espécie de favor político.
“Eu tive o desprazer de ouvir esse cidadão”, inicia Hugo, antes de afirmar que Júlio tentaria “induzir” e “dissimular” para os ouvintes uma versão que não corresponderia à realidade.
Segundo o ex-prefeito de Cacimbinhas, moradores de Estrela de Alagoas, Cacimbinhas, Igaci e de outros municípios da 8ª Região de Saúde não recebem qualquer favor quando procuram a UPA de Palmeira.
Ouça o áudio no final da matéria
“Ele tenta dissimular para as pessoas que a gente está fazendo um favor para os munícipes de Estrela de Alagoas, de Cacimbinhas, de Igaci e de outras cidades da oitava região, quando isso, na verdade, é uma grande mentira”, afirma.
O tom do áudio é direto, indignado e crítico. Hugo não se limita a defender o direito dos moradores da região ao atendimento. Também ataca as condições físicas da unidade, cobra mais profissionais e responsabiliza quem administra a UPA pela precariedade enfrentada por pacientes e trabalhadores.
“Não está fazendo favor nenhum”
O ponto central da manifestação é a afirmação de que o atendimento regional integra as obrigações da UPA.
Hugo lembra que a unidade recebe recursos públicos e está inserida numa rede que atende não apenas Palmeira dos Índios, mas também pacientes encaminhados ou residentes em outros municípios da região.
“Ele não está fazendo favor nenhum. Isso é obrigação”, declara.
Para Hugo, a tentativa de transformar um dever do Sistema Único de Saúde em gesto de generosidade administrativa distorce o papel da unidade e procura produzir dividendos políticos a partir de um serviço financiado pelo próprio cidadão.
A UPA não pertence a uma liderança, a uma família política ou ao grupo que ocupa temporariamente a Prefeitura.
É uma unidade pública, mantida com recursos públicos e criada para acolher pacientes em situação de urgência.
Hugo sustenta que Palmeira dos Índios, na condição de gestora da unidade, precisa assumir plenamente as responsabilidades administrativas e assistenciais decorrentes dessa função.
“O município de Palmeira é apenas gestor da unidade e, sendo gestor, é quem tem que ter a diligência e o cuidado com as pessoas”, afirma.
Estrutura é chamada de “lata velha enferrujada”
A parte mais contundente do áudio ocorre quando Hugo Wanderley descreve as condições da UPA.
“Quem passa de fora vê a estrutura precária da UPA, parecendo uma lata velha enferrujada”, dispara.
A expressão resume a avaliação do ex-prefeito de Cacimbinhas sobre uma unidade que, apesar da elevada demanda regional, apresenta sinais visíveis de desgaste e deficiência.
Hugo também menciona as reclamações frequentes sobre a falta de profissionais.
Segundo ele, a escassez de trabalhadores prejudica diretamente a população e sobrecarrega quem permanece na linha de frente.
“Muitas reclamações de escassez de profissionais, fazendo com que os profissionais que hoje já exercem sua função lá sofram bastante, além da população que já sofre”, diz.
A crítica não é dirigida aos médicos, enfermeiros, técnicos e demais servidores que trabalham na unidade. Ao contrário, Hugo destaca que esses profissionais também seriam vítimas da falta de estrutura e do número reduzido de trabalhadores.
O alvo da cobrança é a gestão responsável por organizar as escalas, manter o prédio, garantir insumos e oferecer condições adequadas de atendimento.
Crítica a quem manda procurar plano de saúde
No áudio, Hugo Wanderley também faz uma referência a declarações que teriam sugerido à população a busca por planos privados de saúde.
“Quem manda o pessoal procurar plano de saúde não está muito preocupado com a situação das pessoas”, afirma.
A fala amplia o tom social da crítica.
Grande parte dos pacientes da UPA depende exclusivamente do Sistema Único de Saúde. Para essas famílias, procurar uma unidade pública não é uma escolha entre diferentes alternativas, mas a única possibilidade concreta de atendimento.
Hugo argumenta que um gestor verdadeiramente preocupado precisa observar a situação sob a perspectiva de quem depende do serviço.
“Tem que se espelhar no sofrimento das pessoas, como se tivesse alguma família sua, sua mãe, um parente seu lá dentro”, declara.
Segundo ele, somente quando os responsáveis pela administração olharem para os pacientes com esse grau de empatia poderá ocorrer uma mudança real na forma como a saúde pública é tratada.
Hugo defende construção de uma nova unidade
Além de denunciar a precariedade, o ex-prefeito de Cacimbinhas defende que a gestão busque recursos para construir uma nova UPA em Palmeira dos Índios.
“Acredito que um gestor preocupado tem que buscar recursos para construir uma unidade moderna, acolhedora”, afirma.
Hugo também cobra a ampliação das equipes.
Para ele, não basta realizar reparos pontuais numa estrutura já desgastada. É necessário planejar uma unidade capaz de atender adequadamente a demanda de Palmeira dos Índios e dos demais municípios da região.
“Ele tem que buscar recursos para levar mais profissionais para a unidade de pronto atendimento”, acrescenta.
A defesa de uma nova estrutura não elimina a necessidade de medidas imediatas na unidade existente. Enquanto um novo prédio não é construído, a atual UPA continua recebendo centenas de pessoas e precisa funcionar com segurança e dignidade.
“É uma grande mentira”
Ao final do áudio, Hugo retoma a acusação de que Júlio Cezar estaria apresentando o atendimento aos municípios vizinhos como uma concessão da gestão de Palmeira dos Índios.
“Em resumo, é uma grande mentira”, afirma.
Na sequência, reforça que a unidade possui obrigação de receber os pacientes da região e que quem ocupa funções de comando precisa assumir essa responsabilidade.
“A UPA de Palmeira tem por obrigação, e é uma das suas principais competências, quando recebe recurso estadual e federal, atender os municípios da oitava região”, declara.
Hugo encerra a gravação com uma cobrança direta:
“Essa é a grande verdade. E quem está à frente tem que assumir a responsabilidade e cuidar das pessoas.”
Áudio revela conflito político nos bastidores
O vazamento mostra que a discussão sobre a UPA deixou de ser apenas administrativa e passou a integrar o embate político entre Hugo Wanderley e Júlio Cezar.
Hugo, que possui atuação política em Cacimbinhas e influência regional, reage à tentativa de transformar o atendimento de moradores de outros municípios em argumento contra suas críticas.
Júlio Cezar, por sua vez, governou Palmeira dos Índios durante oito anos e continua sendo uma das principais lideranças do grupo que atualmente controla a Prefeitura, comandada por sua tia, Luísa Júlia Duarte.
A fala de Hugo atinge diretamente o legado da administração anterior e a continuidade política da atual gestão.
Ao chamar a UPA de “lata velha enferrujada”, o ex-prefeito de Cacimbinhas coloca sob questionamento não apenas as condições atuais, mas também os anos em que a estrutura permaneceu sob responsabilidade da administração liderada por Júlio.
Defensoria confirma problemas apontados no áudio
A manifestação de Hugo ganhou ainda mais peso porque ocorreu poucos dias depois de a Defensoria Pública de Alagoas constatar oficialmente uma série de problemas na UPA.
Após vistoria motivada por reclamações de pacientes, o órgão recomendou que a Secretaria Municipal de Saúde adotasse medidas urgentes para corrigir falhas estruturais, sanitárias e assistenciais.
Foram encontrados banheiros interditados, infiltrações, ferrugem, buracos, portas danificadas, falhas no piso e ausência de itens básicos como lençóis e travesseiros.
A Defensoria também identificou déficit de profissionais para uma unidade que recebe mais de 200 pacientes por dia.
Por turno, a UPA contaria com apenas três médicos, cinco enfermeiros e número reduzido de técnicos de enfermagem.
O documento recomendou reforma, readequação da ala amarela, contratação ou designação de nutricionista, vigilância 24 horas, apresentação dos alvarás da Vigilância Sanitária e do Corpo de Bombeiros e medidas para garantir médicos pediatras nas escalas.
A Prefeitura deverá apresentar um plano de reforma e adequação.
Áudio vazado encontra respaldo na realidade
A linguagem de Hugo Wanderley é dura, mas boa parte do conteúdo da gravação encontra respaldo nos problemas identificados oficialmente.
Quando ele fala em estrutura precária, a Defensoria registra infiltrações, ferrugem, portas danificadas e banheiros interditados.
Quando denuncia falta de pessoal, o órgão confirma déficit de profissionais diante de uma demanda diária elevada.
Quando cobra responsabilidade da gestão, a recomendação é dirigida justamente à Secretaria Municipal de Saúde.
O vazamento pode ter revelado uma conversa que não seria originalmente destinada ao público, mas colocou em circulação uma avaliação que dialoga diretamente com a realidade encontrada dentro da unidade.
Prefeitura precisa responder com providências
A resposta ao áudio não pode se limitar a outra troca de acusações.
A gestão municipal precisa informar quais providências serão adotadas, quando as reformas começarão, como as equipes serão reforçadas e de que forma serão cumpridas as recomendações da Defensoria.
A população precisa de médicos, enfermeiros, técnicos, leitos adequados, banheiros funcionando, portas seguras e uma estrutura compatível com a importância regional da UPA.
Ouça aqui o áudio na íntegra
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