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VÍDEO: “Anatomia do Caos” revive bastidores da CPI e expõe feridas da tragédia da Covid no Brasil

Com depoimentos do senador Renan Calheiros e de outras autoridades, documentário dirigido por Dandara Ferreira estreia em 2 de julho e investiga decisões, omissões e discursos que marcaram a condução da pandemia

Vladimir Barros com Agências 15/06/2026
VÍDEO: “Anatomia do Caos” revive bastidores da CPI e expõe feridas da tragédia da Covid no Brasil
“Anatomia do Caos”, documentário dirigido por Dandara Ferreira que investiga as omissões na gestão da pandemia de Covid-19, divulga trailer oficial.

O documentário “Anatomia do Caos”, dirigido pela cineasta baiana Dandara Ferreira, teve seu trailer oficial divulgado nesta segunda-feira (15). O longa estreia nos cinemas brasileiros no dia 2 de julho e apresenta um olhar crítico sobre a condução da pandemia de Covid-19 no país, a partir dos bastidores da CPI instalada pelo Senado Federal em 2021.

O trailer, disponível nesta matéria, reúne imagens de hospitais, manifestações públicas, sessões da comissão parlamentar e depoimentos de pessoas que perderam familiares durante a maior crise sanitária da história recente do Brasil.

Também aparecem declarações de autoridades e integrantes da CPI, entre eles o senador alagoano Renan Calheiros, que atuou como relator da comissão.
Mais do que reconstituir uma investigação parlamentar, o filme procura impedir que uma tragédia responsável pela morte de mais de 700 mil brasileiros seja reduzida a números, discursos eleitorais ou capítulos esquecidos da história nacional.

O colapso em imagens


O trailer começa com uma afirmação direta: “O Brasil atingiu o maior colapso sanitário da história”.

Na sequência, uma mãe relata que o último contato com o filho ocorreu quando ele já estava dentro de um saco destinado ao transporte de corpos. A fala pessoal divide espaço com cenas da falta de oxigênio, hospitais sobrecarregados e discussões realizadas no Senado.

A crise de oxigênio em Manaus ocupa parte central da narrativa. O material recupera questionamentos sobre a responsabilidade do Ministério da Saúde na logística, no transporte e na distribuição do insumo durante o agravamento da pandemia no Amazonas.

O documentário também revisita a defesa de medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid-19, as controvérsias envolvendo a hidroxicloroquina e as discussões sobre as oportunidades perdidas pelo Brasil para adquirir vacinas com maior antecedência.

Ao reunir essas imagens, “Anatomia do Caos” confronta o espectador com um período em que a ciência passou a disputar espaço com a desinformação, enquanto hospitais ficavam sem leitos e famílias eram impedidas até mesmo de se despedir de seus parentes.

Discursos que marcaram a pandemia


O filme recupera declarações feitas pelo então presidente Jair Bolsonaro durante a emergência sanitária, como a referência ao Brasil como um “país de maricas”, além de outras manifestações que foram interpretadas por críticos como demonstrações de insensibilidade diante do aumento das mortes.
A expressão “óbito também é alta”, utilizada para tratar da saída de pacientes das estatísticas hospitalares, também aparece no trailer como um retrato da banalização da morte durante aquele período.

Em outro momento, surge a cobrança para que um dos participantes das discussões peça desculpas ao povo brasileiro após ser acusado de propagar informações falsas.

As falas são confrontadas com cenas de sofrimento, protestos e depoimentos de quem acompanhou diretamente o colapso do sistema de saúde.

Renan Calheiros e os bastidores da CPI


O senador Renan Calheiros aparece no documentário como uma das autoridades que participaram diretamente dos trabalhos da CPI da Covid.
Relator da comissão, Renan conduziu a elaboração do documento final que reuniu depoimentos, documentos, contratos e informações relacionadas à atuação do governo federal durante a pandemia.

A CPI foi instalada em abril de 2021 para investigar possíveis omissões do poder público, a crise sanitária nos estados, a aquisição de vacinas, a divulgação de informações falsas e as suspeitas envolvendo contratos do Ministério da Saúde.

Depois de seis meses de funcionamento, a comissão aprovou um relatório com pedidos de indiciamento de 80 pessoas, entre autoridades, empresários e agentes públicos. As conclusões da CPI não representaram condenações judiciais e foram contestadas por senadores ligados ao governo Bolsonaro, que apresentaram relatórios alternativos.

No filme, entretanto, a comissão é apresentada não somente como um procedimento institucional, mas como o lugar em que o país expôs publicamente suas divisões, seus conflitos e a disputa política em torno da própria realidade.

Pandemia atingiu os mais vulneráveis


“Anatomia do Caos” também destaca que a pandemia não atingiu a população brasileira de maneira uniforme.

Um dos depoimentos reproduzidos no trailer chama atenção para o número de vítimas negras, indígenas e de baixa renda. O filme relaciona a desigualdade social às dificuldades de acesso a atendimento médico, proteção sanitária e condições adequadas para cumprir o isolamento.
A abordagem amplia o debate para além das decisões tomadas em Brasília. A tragédia também é apresentada como resultado das desigualdades históricas de um país em que os mais pobres ficaram mais expostos à doença e tiveram menos condições de proteção.

Um filme contra o esquecimento


Dandara Ferreira decidiu acompanhar os trabalhos da CPI presencialmente em Brasília, em abril de 2021, quando a pandemia ainda provocava milhares de mortes e o país enfrentava um ambiente de medo, incerteza e desinformação.

A diretora afirma que o filme nasceu da necessidade de preservar a memória daquele período e prestar solidariedade às vítimas e aos familiares.

“Anatomia do Caos” não pretende ser apenas um arquivo audiovisual da CPI. A obra questiona o que significa para o Brasil seguir em frente sem que todas as responsabilidades tenham sido esclarecidas e sem que a memória das vítimas ocupe um espaço permanente na história do país.

O longa adota uma perspectiva crítica sobre a gestão de Jair Bolsonaro e investiga como decisões políticas, ausência de respostas adequadas, desinformação e conflitos com a ciência contribuíram para ampliar a crise.

A proposta é obrigar o país a olhar novamente para imagens que muitos prefeririam esquecer.

Estreia e debates pelo Brasil


Com distribuição da Descoloniza Filmes, “Anatomia do Caos” estreia em 2 de julho.

O lançamento será acompanhado por um circuito de exibições seguidas de debates em diferentes cidades. Estão previstas sessões especiais em São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Recife, Curitiba, Salvador, Brasília e Fortaleza.

A direção e o roteiro são assinados por Dandara Ferreira, com Élcio Verçosa Filho também no roteiro. A direção de fotografia é de Roberto Stuckert, e a montagem ficou a cargo de Lara Beck e Renato Sircilli.

Este é o segundo longa-metragem dirigido por Dandara, que estreou no cinema com “Meu Nome É Gal”, cinebiografia da cantora Gal Costa protagonizada por Sophie Charlotte.

“Anatomia do Caos” chega aos cinemas como uma obra sobre política, saúde pública, desinformação, memória e justiça. Mas, sobretudo, como uma advertência: um país que apaga as próprias tragédias corre o risco de repeti-las.

Assista ao trailer oficial no vídeo inserido nesta matéria.