O dinheiro do pão não pode alimentar o tigrinho

03/11/2026

Imagine uma cozinha depois da meia-noite. A luz apagada, um copo de café esquecido sobre a mesa e o rosto de alguém iluminado pelo celular. Na geladeira, a lista do que precisa ser comprado. Na tela, a promessa de que tudo poderá ser resolvido com mais uma aposta.

Só mais uma.

Talvez essa tenha sido a frase mais cara que a jogatina ensinou ao brasileiro.

Mais uma para recuperar os vinte reais. Depois, mais uma para buscar os duzentos. Quando a pessoa percebe, já está tentando recuperar o salário. O dinheiro que tinha destino certo - feira, aluguel, prestação, remédio - entrou numa viagem sem passagem de volta.

E, pela manhã, alguém precisa explicar por que a conta continua aberta.

As bets chegaram com nome estrangeiro, cores alegres e uma intimidade impressionante. Entraram no intervalo do futebol, na conversa entre amigos, no vídeo do sujeito famoso. A propaganda mostrava a vitória, o sorriso, a facilidade. A derrota ficava para ser vivida longe das câmeras, dentro de casa.

Era ali que a conta aparecia inteira.

O problema de chamar tudo isso de diversão é que a palavra parece pequena demais diante de uma família que perdeu o dinheiro do mês. Diversão termina quando se desliga a televisão. A dívida permanece. A ansiedade atravessa a madrugada. A vergonha faz a pessoa esconder justamente aquilo para o qual mais precisa de ajuda.

O Ministério da Saúde reconhece que os problemas com apostas podem comprometer a vida financeira, os vínculos familiares e a saúde mental. Há sofrimento que precisa de acolhimento e tratamento, não de deboche.

É preciso pensar nisso antes de apontar o dedo para quem caiu.

Quem trabalha o mês inteiro e continua fazendo contas para comprar o básico pode se agarrar à promessa de um dinheiro rápido. O anúncio encontra uma necessidade verdadeira e oferece uma saída ilusória. A pessoa procura alívio; acaba levando para casa mais uma preocupação.

Há uma corrupção moral nessa maneira de explorar a esperança: transformar a aflição de alguém em oportunidade de lucro e ainda apresentar a operação com música de festa.

Por isso, considero acertada a decisão de Lula de proibir as bets. Em 25 de setembro, o presidente editou a medida provisória que vedou a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa, abrangendo apostas esportivas e jogos on-line.

O valor dessa decisão pode ser medido numa cena muito simples: a ida ao mercadinho com dinheiro suficiente para trazer o que está na lista.

Pode ser medido também no salário que chega e permanece na conta até o pagamento das despesas. Na conversa que volta a acontecer durante o jantar. No celular deixado sobre o móvel enquanto alguém consegue, finalmente, dormir.

A proibição, porém, não quita sozinha o que ficou para trás. Há dívidas, relações feridas e pessoas que precisam reconstruir a confiança em si mesmas. O poder público terá de sustentar o cuidado com essas famílias e enfrentar a oferta clandestina. A medida também está sob discussão judicial: o STF convocou audiência pública para tratar de seus impactos.

Defender a decisão exige acompanhar seus resultados. É preciso que a proteção anunciada alcance a vida de quem sofreu.

Durante muito tempo, o brasileiro ouviu que precisava ter responsabilidade com cada centavo. Economizar na compra, pesquisar preço, apagar a luz, evitar desperdício. Então apareceram telas por toda parte convidando esse mesmo brasileiro a entregar seu dinheiro à sorte.

Uma sociedade precisa decidir quanto vale o descanso de quem trabalha.

Naquela cozinha que imaginamos, a lista continua presa à geladeira. Arroz, feijão, leite, café. Nada extraordinário. Apenas as pequenas necessidades que sustentam uma casa e que, juntas, dão ao salário sua razão de existir.

Que o dinheiro consiga chegar até elas.

Que, na próxima manhã, alguém entre no mercadinho, abra a lista e possa pedir:

- Pode separar tudo.

Vladimir Barros

Vladimir Barros

Jornalista filiado ao Sindjornal/FENAJ, é membro efetivo da Associação Alagoana de Imprensa (AAI) e editor do jornal Tribuna do Sertão. Advogado militante, formado pela Universidade Federal de Alagoas, com pós-graduação em Direito Processual e Docência Superior. É também membro da Academia Palmeirense de Letras e fundador da Rádio Cacique FM de Palmeira dos Índios.