Gabriel, o menino que não volta

28/08/2025 02h02 - Atualizado em 28/08/2025 02h02
Gabriel, o menino que não volta

Há histórias que, infelizmente, não pedem licença para existir. Elas nos atravessam como uma bala perdida que encontra alvo certo, rasgam a rotina da cidade e nos obrigam a encarar aquilo que mais tememos: a barbárie travestida de autoridade.

Gabriel Lincoln Pereira da Silva tinha apenas 16 anos. Adolescente. Filho, irmão, amigo, talvez vizinho de alguém que nos lê agora. Estava sobre uma moto, carregando mochila, capacete e sonhos — sonhos esses que, como todo jovem, não precisavam caber em relatórios policiais ou laudos técnicos para serem reais. E foi ali, numa perseguição desmedida, que a vida lhe foi arrancada. Não pela mão fria de um bandido de esquina, mas pela farda que deveria protegê-lo.

Bandidos de farda. Eis a contradição cruel que assombra o país. O uniforme que deveria ser escudo se converteu em disfarce para o abuso. O distintivo, que deveria significar lei e ordem, serviu como salvo-conduto para a violência. E o que dizer de uma versão oficial que cai por terra diante da ciência? Laudos da Polícia Científica atestaram o óbvio que o coração já sabia: Gabriel não disparou arma alguma. Não havia como. Não tinha condição física nem circunstância para isso. A história que tentaram impor era mentira.

Pior: o revólver apresentado como prova trazia impressões de outros, nunca de Gabriel. O adolescente jamais o tocou. Testemunhas confirmaram: só houve um tiro. O tiro que calou um jovem e, junto dele, a esperança de sua família.

E o que fizeram os policiais? Tentaram arrumar a narrativa, manipular a cadeia de custódia, maquiar a verdade. Como se uma mentira bem contada tivesse o poder de ressuscitar um garoto. Como se a farda tivesse direito de zombar da justiça.

Mas justiça — ainda que lenta, ainda que ferida — respira. E foi por ela que o Ministério Público de Alagoas ergueu a voz, denunciando os três militares. O sargento, por homicídio qualificado e fraude processual. Os outros dois, por ajudarem a forjar a farsa. Um ato cívico de coragem institucional que precisa ecoar além dos autos processuais: a sociedade não pode normalizar a morte de seus jovens pelas mãos de quem jurou defendê-los.

Não, não se trata de criminalizar a polícia. Trata-se de expurgar dela os que a desonram. Os verdadeiros policiais, aqueles que sabem o peso e a honra de usar a farda, também clamam por isso. Porque quando um “bandido de farda” age, não é apenas um jovem como Gabriel que cai; é a própria credibilidade da corporação que sangra.

Gabriel tinha apenas 16 anos. Poderia estar estudando, namorando, discutindo com os pais sobre a hora de voltar para casa. Poderia estar planejando uma vida que nunca terá. No lugar disso, está em uma fotografia autorizada pelo pai a circular na imprensa como prova do inaceitável. Uma foto que se torna símbolo, bandeira, grito.

Hoje, Palmeira dos Índios não chora sozinha. Cada brasileiro que se recusa a aceitar a tirania travestida de autoridade chora com ela. Cada cidadão que acredita na justiça como pilar da democracia ergue a voz. Porque não é apenas por Gabriel. É por todos os Gabriéis que ainda caminham pelas ruas, que pegam ônibus para a escola, que sonham com uma vida longe da violência.

Que o caso não se perca nos corredores abafados do esquecimento. Que o processo não seja apenas mais um número em estatísticas. Que o sangue derramado de Gabriel seja um divisor de águas. E que este país, tantas vezes ferido, se olhe no espelho e escolha de uma vez: a lei não pode servir de manto para a barbárie.

A justiça que se espera não é vingança. É reparação, é dignidade, é um basta. Que os culpados sejam punidos. Que a família tenha o mínimo de consolo que o Estado pode oferecer: a verdade reconhecida e os responsáveis atrás das grades.

Porque se a vida de um jovem pode ser ceifada sem consequência, então nenhum de nós está seguro.

Gabriel não volta. Mas sua memória precisa nos empurrar adiante. Pela vida, pela justiça, pela paz.