
Entre o silêncio comprado e a dignidade invendável

Na última sessão da Câmara Municipal de Palmeira dos Índios, realizada nesta quarta-feira (2), não foi o debate que chamou atenção. Tampouco a defesa dos professores contratados, dos estudantes que enfrentam ônibus sucateados, ou das mães que amanhecem nas filas do SUS em busca de uma simples consulta. O que ganhou destaque, entre justificativas frágeis e discursos prontos, foi a covardia travestida de "voto contrário" e o compadrio político selado com a frieza de quem assina um cheque em branco — pago, claro, pelo povo.
Onze vereadores rejeitaram requerimentos essenciais à fiscalização da gestão pública. Documentos que pediam informações sobre o piso dos professores, problemas no transporte escolar, no pagamento do Bônus de Desempenho Educacional e até possíveis irregularidades previdenciárias detectadas pela Receita Federal. Votaram contra a transparência, contra o interesse público e a favor do silêncio — o silêncio que mais dói, o silêncio comprado.
A sessão da vergonha ocorreu exatamente quinze dias após a publicação, no Diário Oficial, de cargos estratégicos distribuídos a aliados da prefeita. Coincidência? Para boa parte da população, não. Como desabafou uma usuária do SUS, que aguardava na fila da central de marcação: "Os vereadores foram comprados pela prefeita. E quem sofre é o povo."
E, de fato, não é preciso ser especialista em política para perceber o acordão em curso. Durante duas semanas, nenhuma sessão ordinária foi realizada. Esperava-se o tempo ideal para que a poeira baixasse e o constrangimento fosse amenizado. Mas ontem, não teve como fugir. Foi preciso votar. E, com isso, se expor.
Nesse cenário, cabe uma reflexão necessária: há silêncios que custam caro. Mas há palavras que valem ouro — especialmente quando ditas com coragem.
Aproveito este espaço, inclusive, para fazer um breve e sutil recado. Há quem, mesmo sem conseguir distinguir com clareza um verbo de um substantivo, se arvore a atacar a imprensa livre, acusando-a de mentirosa. Curioso, não? Sobretudo quando parte de quem tentou — por meio de seis pessoas diferentes — comprar o silêncio justamente dessa imprensa que ele acusa.
Mas aqui vai a lição que talvez não se aprende em discursos escritos por assessores: imprensa livre não troca dignidade por dinheiro. Pode-se tentar quantas vezes quiser. A resposta será sempre a mesma: não estamos à venda.
Quem vive no bolso da prefeita pode até imaginar que todos têm um preço. Mas há quem prefira dormir no chão da coerência a se deitar na rede fofa da conveniência política. Há quem escolha a consciência limpa, mesmo sob pressão.
Aos vereadores que resistem e ainda exercem seus mandatos com respeito ao povo, nosso reconhecimento. Aos que votam contra o interesse público e silenciam diante dos desmandos da prefeita, o julgamento virá — se não no Ministério Público, certamente nas urnas.
E à imprensa, que segue firme, denunciando, cobrando, enfrentando, recusando propostas indecentes: que nunca lhe falte fôlego, nem coragem. Porque quando o Legislativo se omite e o Executivo se esconde, só a imprensa pode manter as luzes acesas.
E que nunca nos acostumemos com o silêncio comprado.