segunda-feira, 19 de Abril de 2021
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Com apenas 19 anos, Madson Costa é um dos ganhadores do Prêmio Diversidades Literárias, promovido pela SECULT.

Foto: Guilherme Jeronimo

Com apenas 19 anos, o jovem escritor alagoano Madson Costa foi um dos ganhadores do Prêmio Diversidades Literárias, promovido pela Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas, através da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc (Lei nº 14.017/2020). Ele foi contemplado nas duas categorias em que se inscreveu, obras inéditas e concurso de poesias, mas só pôde receber a premiação de uma delas, já que o prêmio vetou que os concorrentes pudessem ganhar mais de uma premiação em alguns certames. O que o decepcionou, já que seu nome não constou no resultado final do concurso de poesias, apenas no resultado preliminar.

Madson Costa ficou em segundo lugar no concurso de poesias e seu livro de poemas “Os Meninos da Parte Alta” foi classificado com nota máxima na categoria obras inéditas. Agora resta ao autor iniciar as preparações para a publicação e lançamento do seu livro, que será sua primeira obra publicada individualmente. Além de conter poemas, “Os Meninos da Parte Alta” também contém um manifesto literário intitulado de “O Manifesto Parte Alta” e um ensaio crítico chamado de “Onde estão os negros”.

O jovem escritor não atua somente no ramo literário, ele também ensina inglês e dá aulas de reforço escolar, fala quatro idiomas diferentes (francês, inglês, espanhol e português), escreve para portais de notícias e revistas de cultura, além de atuar como divulgador da arte alagoana.

Em relação ao Prêmio Diversidades Literárias, ele foi um dos mais importantes do ano em Alagoas e faz parte dos editais da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, os quais contemplaram artistas de diversos segmentos e cidades. Os resultados dos editais podem ser conferidos no Diário Oficial do Estado de Alagoas e no site da Secretaria de Estado da Cultura de Alagoas (SECULT), responsável por promover os editais.

BIOGRAFIA DO ESCRITOR

Madson Costa dos Santos é discente na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), poeta, escritor, professor, poliglota e colunista. Filho de Maria Cristina Santos Costa e Marcio Matos dos Santos, nasceu no dia 17 de outubro de 2001, no município de Arapiraca, mas é radicado em Tanque D’arca, interior alagoano, onde passou grande parte da infância com sua família materna. Mudou-se para Maceió em 2009, onde reside até os dias de hoje.

Foi selecionado em diversas antologias poéticas, sendo elas; Concurso de Poesia Minorias Sociais FAD, Concurso Nacional Novos Poetas, também foi selecionado para a Antologia Poética — Poemas do Coração — Engajado na militância estudantil pelo Movimento Por uma Universidade Popular (MUP) e organizador de rodas de debates. 

Aos 17 anos, se torna professor de inglês em algumas instituições de ensino, também lecionou inglês, artes e filosofia no cursinho pré-vestibular comunitário Equânime, situado na Universidade Federal de Alagoas, e também dá aulas particulares. Aos 18, se tornou colunista do 082 notícias e da Revista Alagoana, onde escreve sobre cultura. 

PERFIL DO ESCRITOR

Em entrevista concedida ao portal 7 Segundos, o poeta confidenciou que sempre gostou de ler e a curiosidade o levou ao universo dos livros. Passou a infância em Tanque D´arca, município Alagoano, mas foi somente na adolescência, quando se mudou para a capital, Maceió, que iniciou uma busca por si próprio através dos versos, nisso sua trajetória de vida transcorreu como a métrica de um soneto de anunciação. Ele debutou no ramo literário por meio da publicação de uma de suas poesias na antologia poética ‘‘Desabafo Social, As Minorias Sociais do Brasil’’ publicada no ano de 2019, pela editora online ‘‘ Clube dos autores’’. O livro Desabafo Social contém poemas com ênfase nas minorias sociais do Brasil, os escritos foram feitos pelos participantes do I Concurso de Poesias FaD, organizado pelo poeta maranhense Natanael Vieira. Contendo assim, versos leves e de bastante expressividade poética.

POEMA PUBLICADO NA ANTOLOGIA:

VIDAS SECAS

terra seca e árida

coberta de marrom-poeira

vidas secas e lassas

pobres moças magras

rodeadas pelo vazio das matas

no alto do dia

ao cair da noite

exauridas pela rotina

banham-se no mar de barro

de solo seco-quebrado

a enxada é sua vida

o calor — seu inimigo —

perambulando pelas terras vastas do Sertão

homem sempre atento ao silêncio que o perturba

faz-se práxis a foice para viver

faz-se práxis o balde para beber

Segundo o escritor Wellington Amâncio, apesar de jovem, sua produção literária aponta para a proposição de reflexões sobre a questão da negritude, suas raízes são intrínsecas ao que escreve, desse modo, engendrando uma literatura crítica, reflexiva e, como ele próprio costuma dizer, de vanguarda. Ainda de acordo com Amâncio, a palavra vanguarda é um ponto chave para entendê-lo, já que sua estrutura estético-poética propõe a inovação e o rompimento com o passado.

Reprodução/ 7 Segundos

Em entrevista concedida à Wellington Amâncio do Correio Notícia, o escritor comentou o seguinte sobre suas influências:

Para ele, suas maiores inspirações são dois escritores alagoanos Edson Bezerra, autor do livro ‘‘Manifesto Sururu. Por Uma Antropofagia das Coisas Alagoanas’’ (2019), ensaio que propõe um olhar atento e a exaltação às questões identitárias alagoanas. A provocação que nasceu do batuque dos negros e da mistura da lama. No texto, Edson Bezerra evoca uma ancestralidade escondida, soterrada pela construção da modernidade e Lucas Litrento autor do fascinante ‘‘Os meninos iam pretos porque iam’’ (2019), no livro autor segue em busca da própria identidade em meio a uma multiplicidade de linguagens e discursos que vão de Homero a Mano Brown, do jazz ao rap. Alagoas entre quilombos e quebradas: imagens em tons de marrom, sons de liberdade, além do grande Ferreira Gullar (1930-2016), que tem como magnum opus, o livro ‘‘Poema Sujo’’ (1976), com texto de composição complexa, ao mesmo tempo lírico e narrativo. A escrita segue flutuante e divaga sobre o próprio corpo do eu lírico, sobre os limites da carne, da mente, sobre os encontros entre homem e mulher, sobre as relações entre pais e filhos, sobre o estar na cidade, sobre a perenidade do tempo, sobre os abismos sociais. Em termos estilísticos, a composição é uma mescla das várias fases da lírica do poeta. Há trechos, por exemplo, rigorosos em relação à métrica e a rima, e há trechos completamente despojados de qualquer preocupação formal.

Livros citados

PANORAMA DA OBRA

‘‘Os Meninos da Parte Alta’’ está em processo de publicação através da editora Parresia e deve sair ainda esse ano. Conta com a apresentação de Lucas Lisboa e o prefácio de Vanderlei Tenório. 

O leitor mais atilado perceberá que o livro analisa aspectos da historicidade negra em nosso país, a historicidade se manifesta no poema tanto no tempo como no espaço. A mesma assume em cada poema suas características próprias, seu jeito de ser nacional, ou mesmo local, ditado pelas circunstâncias que a história lhe impôs. Há também poemas que discorrem sobre os sentimentos de pertencimento, identidade, etnia e cultura, evidenciando a autenticidade e o orgulho em ser nordestino e negro. O autor aponta características da territorialidade, da paisagem, e do território da região em que reside, dirige críticas ao modo de produção capitalista e seus efeitos na sociedade, enfatizando o padrão de vida do trabalhador assalariado, sua rotina no processo de produção, seu status na estratificação e na luta que daí deriva, abre parênteses ao detalhar a trajetória de vida do trabalhador, que inclui a vida cotidiana, e transcorre simultaneamente nas esferas da objetividade e da subjetividade, da classe em si e da classe para si.

O principal objetivo do conjunto de poemas é confrontar e discutir os contrastes entre a cidade e a sociedade e suas diferenças dicotômicas, na busca de uma reflexão. Que se aprecie a métrica, o verso, a escola literária e o belo, mas que se olhe também para o outro lado e suas implicações sociais, essas que são amplamente discutidas no livro, de forma alegórica, hipotética, retórica, metafórica, histórica, social, politica e principalmente crítica.

Menção honrosa do poema laureado no Prêmio Diversidades Literárias, na seção concurso literário, categoria poesia.

TERRA DE SÓIS

em 1500 Vera Cruz é tomada

e repartida entre eles

o cheiro de morte, da tão amarga morte

apodrece a jângala de nômades

de longe vieram em seus barcos fúnebres com incontáveis galinhas

em suas memórias traziam

d. dinis nunca será trovador provençal”

sobre as portentas margens latinas

chegaram em roupas pesadas no calor tropical

pero vaz sem caminho veementemente escreveu

“o melhor fruto, que nela se pode fazer,

é salvar essa gente de terra afável

essa gente sem lei e nem rei

que andam com suas vergonhas despidas”

e que meu deus que os salve

nas sarças pré-colombianas

bebiam cachaça cuspida de mandioca

nas tardes com mais de mil sóis

nas terras com mais de mil povos

os povos de longe sequer saberão tupi-guarani

nem Bakairi, Suruí

tampouco o tore Oiapoque

ou o cocar Yahua

 

caiapó não conhece holandês

os Tiriyó-Kaxuayana não destruíram florestas inteiras

nem os pataxós trouxeram consigo centenas de vidas roubadas da África

sardinha morreu porque não era caeté

porque o Brasil sempre será Marajó

O MEU POEMA FAVORITO:

PELE NEGRA

o toque na pele Negra
abre as portas do Nilo
para a multidão de coisas de África
os ventos, os dias, os risos
o mato verde seco da selva
os azuis das lagoas, dos mares

um poema não muda a história
não muda que brancos invadiram as margens continentais de África
tocaram a pele Negra
mataram a pele Negra
escravizaram a pele Negra

navios de cascos fétidos com suas paredes tumescentes
de cheiro de morte
de cheiro de dor

navios negreiros trazendo angústias às margens latinas
navios negreiros trazendo consigo cargas de poesia
navios negreiros levando consigo vidas roubadas de África

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