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Juntando os Pedaços...

24/08/2026
Juntando os Pedaços...

O mito de Perséfone, deusa da tradição greco-romana me chamou muita atenção. Filha da deusa Deméter, ela é raptada por Hades, senhor do mundo subterrâneo. Desesperada, a mãe sai à procura da filha. Em vão. Sua tristeza faz os campos secarem e, com isso, a fome se alastra. Preocupado, Zeus manda Hermes resgatar a meia-irmã, mas àquela altura Perséfone já era rainha do mundo subterrâneo. De modo que ficou acordado que ela visitaria a mãe por seis meses- na primavera e no verão - e na outra metade do ano - no outono e no inverno - ocuparia seu posto de juíza dos morros do plano inferior.
Como Perséfone, transitamos lá e cá, entre as energias opostas e complementares traduzidas pelos pares de luz e escuridão, alegria e tristeza, vida e morte etc. No entanto, onde há padecimento, há descoberta. É a partir dessa perspectiva que o céu começa a clarear. “Os períodos de dor e confusão certamente nos ensinam mais a respeito das profundezas da alma do que os tempos de calmaria”. A adversidade incute um dado novo a nossa trajetória e passamos a enxergar aspectos normalmente ignorados.
Posso afirmar que durante a noite escura, não há escolha senão abrir mão do controle, ceder ao desconhecido e fazer uma pausa para atentar a quaisquer sinais de sabedoria que possam surgir.
Nos intervalos do breu, uns se anestesiam, alguns se trancam enquanto outros transbordam em praça pública. Têm-se a impressão de que a roda da vida empacou, que nada significativo está acontecendo. Mera aparência. Sigmund Freud, pai da psicanálise, dizia que durante crises de melancolia a vida exterior pode parecer vazia, mas, no paralelo, o trabalho interior está em franco expediente. Estamos crescendo por dentro. Não é raro admitirmos no final da tormenta, que ela teve um saldo positivo.
Dessa forma mais do que obter respostas que virão a seu tempo, o importante é voltar-se para si e respeitar o momento, escuta-lo e interpreta-lo. Se não o fizermos ele continuará tocando, também em outros números, até que seja tarde demais. Escutar a si mesmo o leva ao acolhimento, a sensibilização e a reflexão sobre o ocorrido, e por conseguinte a ressignificação dos eventos dolorosos.


Candice Maria de Mendonça Vasconcelos.
Psicóloga Existencial Humanista
CRP 3241-15