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Crendices narcísicas

Léo Rosa de Andrade 08/07/2026
Crendices narcísicas
Léo Rosa de Andrade - Foto: Arquivo

Narciso não tem culpa, afinal, não compreendia que apreciava a própria figura, ao ver-se refletido na água. Ademais, cumpria um castigo divino: apaixonar-se pelo próprio reflexo na lagoa de Eco. Encantado com sua bela imagem, procurando-a nas águas de um rio, dedicou-se a ela até definhar. Após sua morte, Afrodite o transformou em flor: Narciso.

Trago da Wikipédia: “O narcisismo tem o seu nome derivado de Narciso e ambos derivam da palavra grega narke (entorpecido), de onde também vem a palavra narcótico. Assim, para os gregos, Narciso simbolizava a vaidade e a insensibilidade, visto que ele era emocionalmente entorpecido às solicitações daqueles que se apaixonaram pela sua beleza.

Mas Narciso não simboliza apenas mera negatividade: ‘o mito de Narciso representa (senão para os gregos ao menos para nós) o drama da individualidade’; ‘ele mostra, isto sim, a profundidade de um indivíduo que toma consciência de si mesmo’ em si mesmo e perante si mesmo, ou seja, no lugar onde experimenta os seus dramas humanos”.

O narcisismo, pois, é saudável; é visto como doentio só quando exacerbado, quer dizer, quando a apreciação de alguém por si mesmo está demais da conta: há quem não vá ao médico porque está convencido de doença alguma lhe alcançará; muita gente não atinge seus desideratos e conclui que o insucesso decorre de perseguição de “todo mundo”.

Seja na grandeza, seja na desventura, o narcisista coloca-se em posição de importância particular, assim, em exemplo, admitir-se doente feriria a própria imagem, havida acima do comum. Igualmente, a adversidade que lhe obstaculize: não será a que atinge a massa geral; tem-se em relevância tamanha que “as pessoas” desejam magoá-lo.

No nosso país de muitas crenças, algumas crendices narcísicas: não faz muito tempo, viam-se discos voadores. Mirava-se o Céu e lá estava o que ninguém enxergava sendo avistado por seres “especiais”, “sensíveis”. Nada grave, afinal conceber na imaginação não machuca. Com menos adeptos a tais visões, a questão dos OVNIs, hoje, é menos frequentada.

Menos frequentada, porém não menos reunida em pessoas com autoatribuídas condições especiais no mundo. Daí, ainda se delira, falsificam-se histórias, ou crê-se em haver sido abduzido por extraterrestres; claro, só humanos com destacada importância chamariam a atenção de alienígenas a ponto de fazerem-se objeto de interesse, quiçá de estudo.

Outro tipo narcisista é o que está seguro da conspiração do Universo para ordenar-se de maneira tal a servir-lhe aos interesses. “O Universo conspira, entende? Ele devolve o que se faz por ele: energia boa”. É de pensar: “fazer pelo Universo” com tal e tamanho resultado que ele inteiro, agradecido, devolverá o benefício. Não é pouca coisa, pois não?

Há quem seja servido pelos astros: os astros se ordenarão para si. O Céu está em movimento, com mais ou menos velocidade, porém, algumas pessoas especiais promovem alinhamentos astrológicos que, de tal forma dispostos, os corpos celestes fazem-se agentes da ambição do narcísico. Grandeza assim, só para uma mente especial, a mente narcísica.

Há os “evoluídos”: creem que estamos todos na Terra para evoluir; que há quem já evoluiu bastante. “Naturalmente”, quem crê em tal progressividade coloca-se como já progredido, titular de um bom lugar na “escala de evolução”; desta vida de “aprendizado” ressurgirá como um “espírito de luz”. Alguém se reconhece como irrelevante alma obscura? Nunca.

Há uma diversidade muito grande de narcisistas no campo da religião. Para o que está em pecado, o “demônio em pessoa me atentou”. Assim, o iníquo narcisista, sendo ele quem é, errou porque o “senhor das trevas” saiu das profundezas do Inferno e ocupou-se particularmente dele. Não é qualquer anjo caído que o alcança, é o próprio Lúcifer que lhe veio.

Agora, sobressaído é o religioso cristão em glória: ele crê numa divindade que criou o Céu e a Terra e está acima de todas as coisas. Seu deus é ubíquo, onisciente, atemporal. É incognoscível, não cabe na consciência humana. Todavia, o narcisista cristão jacta-se: “deus é fiel”; põe seu deus a seu serviço. Não é coisa pequena. Narciso, por menos, virou flor.