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Entre o esporte e o luxo: o desafio de democratizar o turismo esportivo

Grazielle Ueno* 26/06/2026
Entre o esporte e o luxo: o desafio de democratizar o turismo esportivo
Grazielle Ueno - Foto: Thiago Silveira

O turismo esportivo vive um momento de forte expansão global. Impulsionado por megaeventos, competições amadoras e pela busca crescente por experiências ativas, esse segmento deixou de ser restrito aos grandes espetáculos esportivos. Hoje, viajar para praticar esporte, participar de provas, correr em novos destinos, pedalar por rotas turísticas ou vivenciar atividades ao ar livre tornou-se tão relevante quanto assistir a uma partida em um estádio.

A Copa do Mundo de 2026, por exemplo, deve reunir milhões de espectadores e movimentar bilhões na economia. Esse fluxo demonstra o poder dos eventos esportivos como catalisadores do turismo, da hotelaria, da gastronomia, do transporte e do comércio local. Além disso, turistas desse segmento tendem a permanecer mais tempo nos destinos e a apresentar gastos elevados, o que torna o turismo esportivo especialmente atrativo para governos e empresas.

No Brasil, esse impacto já foi perceptível. A Copa do Mundo de 2014 impulsionou a entrada de turistas internacionais e reforçou a imagem do país como destino capaz de receber grandes eventos. Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, ampliaram ainda mais essa visibilidade global. Paralelamente, práticas como corridas de rua, cicloturismo, trilhas, esportes aquáticos e turismo de aventura passaram a ganhar espaço, indicando uma mudança importante no comportamento do viajante.

Esse é, talvez, o ponto mais interessante dessa transformação: o turismo esportivo está deixando de ser passivo para se tornar cada vez mais experiencial. O turista contemporâneo não quer apenas assistir; ele quer participar, sentir-se parte do evento e construir memórias associadas ao movimento, ao corpo e ao território. Essa mudança abre oportunidades importantes para destinos que sabem valorizar seus recursos naturais, culturais e urbanos.

No entanto, há um risco evidente que não pode ser ignorado. O mesmo mercado que se expande em experiências também pode reproduzir desigualdades. Grandes eventos esportivos, que deveriam aproximar as pessoas do esporte, tornam-se cada vez mais caros e inacessíveis para grande parte da população. Ingressos, hospedagem, transporte e pacotes turísticos muitas vezes alcançam valores incompatíveis com a realidade do público comum. Assim, aquilo que deveria promover integração pode acabar reforçando exclusões.

A própria lógica da chamada “economia da experiência” também precisa ser analisada com cautela. Quando toda vivência esportiva é transformada em produto premium, corre-se o risco de limitar o acesso apenas a quem pode pagar mais. Nesse cenário, o turismo esportivo cresce economicamente, mas perde parte de seu sentido social. Afinal, de que adianta movimentar bilhões se os benefícios não chegam de forma mais ampla à população local e aos diferentes perfis de turistas?

Por isso, a pergunta central não deve ser apenas quanto o turismo esportivo movimenta, mas quem realmente consegue participar dele. Estamos ampliando o acesso ao esporte ou apenas sofisticando seu consumo? Essa reflexão é essencial para que o crescimento do setor não seja confundido com democratização.

Entendo que o turismo esportivo representa uma oportunidade concreta de desenvolvimento, especialmente para países como o Brasil, que possuem diversidade natural, cultural e esportiva. No entanto, para que esse potencial se realize de forma justa, é necessário investir não apenas em infraestrutura e promoção, mas também em acessibilidade, preços mais inclusivos, valorização das comunidades locais e diversidade de experiências. O verdadeiro desafio é fazer com que o turismo esportivo seja, ao mesmo tempo, um motor econômico e uma prática socialmente mais democrática.

*Grazielle Ueno é professora e coordenadora de curso no Centro Universitário Internacional Uninter. Administradora e Turismóloga, especialista em Educação, mestre em Turismo e Doutora em Tecnologia e Sociedade.