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Agenda Setorial: o futuro do segmento elétrico em pauta

Marcelo Mendes* 15/04/2026
Agenda Setorial: o futuro do segmento elétrico em pauta
Marcelo mendes

Tradicionalmente a Agenda Setorial é o evento que abre o ano regulatório e estratégico do setor elétrico. Realizado em março no Rio de Janeiro, o congresso, com participação de mais de 300 especialistas e autoridades, contou com 21 destacados palestrantes que examinaram as reformas estruturais e a transformação do modelo de mercado. O conteúdo abrangeu as mais importantes diretrizes que devem conduzir as decisões ao longo do ano. Este tipo de encontro tem sido essencial para que sejam debatidos publicamente todos aspectos essenciais e com o propósito do setor elétrico acender uma luz nos melhores caminhos.

Em nossa visão, o produto final do encontro acenou que o setor elétrico do Brasil entra num momento de transição estrutural. Há quem entenda que está havendo uma efetiva substituição de paradigma, passando de um modelo centralizado para um sistema com distribuição mais equalizada. Os preços regulados devem apresentar uma sinalização mais orientada ao mercado, e o que é mais instigante, aquela operação previsível deve se tornar uma gestão mais flexível e com mais variáveis à disposição.

A maior dificuldade será harmonizar mercado, regulação e tecnologia sem prejudicar a segurança e também a fixação das tarifas cobradas pelas empresas concessionárias, que prestam serviços públicos. Será preciso encontrar um sensível equilíbrio que deve permear este ano inteiro. Num período eleitoral e particularmente polarizado e acalorado, todos teremos que encontrar a iluminação da sensatez em nossas mentes.

Na agenda político-regulatória de 2026 se encontra a obrigatoriedade da modernização do Marco Regulatório do Setor Elétrico Brasileiro, estabelecido pela Lei 15.269/2025, que visa modernizar o sistema, reduzir tarifas e aumentar a segurança energética. Serão necessários, portanto, ajustes institucionais para dar mais apoio ao novo modelo de mercado. As mudanças mais imediatas, hoje em dia, passaram a ser uma prática recorrente no planeta. Além disso, os especialistas em relações governamentais das organizações do segmento terão que trabalhar com empenho no avanço das pautas de nosso interesse no Congresso Nacional e no Poder Executivo.

E não é só isso. A esmagadora maioria dos participantes do evento concorda que este ano será um momento de decisões críticas, que incidirão rigorosamente sobre a segurança jurídica e principalmente nos investimentos previstos para o exercício.

O direcionamento do setor elétrico brasileiro aponta que será inevitável a reforma regulatória, a abertura do livre mercado com mais rapidez, a profunda revisão do modelo de preços, e o ajuste de toda a estrutura do sistema (técnica, operacional, regulatória e de mercado) para funcionar adequadamente, com a participação maior das fontes solar e eólica. E finalmente, como base do novo sistema elétrico a digitalização.

A expansão do mercado livre de energia tem como expectativa a abertura mais ampla para os consumidores. Essa demanda abrange o preparo operacional para atender milhões de novos usuários. Vai também obrigar evoluir os sistemas e a governança de mercado. Na dinâmica do setor haverá um papel cada vez maior das novas condições de comercialização. Por sinal, a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica atualmente tem como seu ponto central a implementação prática de regras, para na transição garantir plena segurança e eficiência.

Nesta edição da Agenda Setorial a formação de preços se tornou o centro das discussões e foi considerado fundamental para atrair novos investimentos o aperfeiçoamento do modelo de precificação final. O intuito é gerar indicativos econômicos mais nítidos para profissionais do mercado, a fim de reduzir distorções e aumentar previsibilidade no setor.  Sempre é bom lembrar o que o megaempresário Warren Buffett disse: "O preço é o que você paga; o valor é o que você leva".  E complementou: “Falando de ações (na bolsa) ou de meias, eu gosto de comprar mercadoria de qualidade quando está barata.”

Vários participantes defenderam a aproximação dos preços à realidade da operação do sistema. Também pleitearam o estabelecimento de novos modelos como a dupla contabilização, em que se estabelece os preços da energia em duas etapas. Uma implementa antecipadamente (ex ante) para um acordo contratual obrigatório e outra posteriormente (ex post) com base no consumo/geração real.  Desta maneira, diminuiriam os encargos repartidos entre os consumidores.

Segundo a opinião comum do público na Agenda Setorial, para reduzir dúvidas e aumentar a confiança do mercado, será essencial melhorar também a metodologia dos cálculos, e como eles são acompanhados e validados (governança – PLD/PMO).

Um dos maiores desafios estruturais tratados no evento foi a expansão do sistema elétrico brasileiro, em especial o Sistema Interligado Nacional (SIN). Para os presentes o crescimento das energias renováveis requer abordagem e planejamento diferentes. Na relação de temas tratados nesse quesito estava o Curtailment (ou corte de geração), que é a redução ou interrupção da produção de energia renovável (eólica/solar) pelo operador do sistema (ONS).

O aumento de episódios de curtailment e a necessidade crescente de flexibilidade operacional mostram que o sistema atual ainda não está plenamente preparado para lidar com essa nova realidade. Os participantes entendem que é preciso mais flexibilidade na operação, integração com fontes intermitentes como a solar e eólica, e evoluir o armazenamento de energia.

A transformação da tecnologia foi vista no evento como um corte transversal e exigirá mudanças para o setor alcançar mais descentralização e, com base nas tecnologias inteligentes, ser mais orientado ao consumidor. O sistema elétrico ficará mais digitalizado, haverá aumento na automação e uso de dados, e integração com soluções mais flexíveis.  Novos modelos de consumo como o prosumidor se fortalecerão. Os prosumidores (termo em inglês que combina producer e consumer) segundo o sociólogo e escritor Alvin Toffler, são aquelas pessoas ou empresas que produzem e consomem, simultaneamente, bens ou serviços, atuando como consumidores ativos. 

No que pese a expansão renovável a segurança do sistema segue como prioridade. As discussões no evento interpretaram que deverá haver o equilíbrio entre a confiabilidade da operação e a sustentabilidade. O gerenciamento de risco climático e hidrológico devem progredir, e fontes firmes e flexíveis serão necessárias para proporcionar confiabilidade e maior capacidade de controle de geração de energia no patamar desejado.

Estavam presentes na pauta da Agenda, os leilões de capacidade, que são eventos realizados para contratar a disponibilidade de usinas elétricas (potência em MW) e não apenas o volume de energia consumida. Juntamente com os remates vão se somar os mecanismos de reserva, que são sistemas, técnicas ou acordos para garantir a disponibilidade de energia no futuro, garantindo que ela esteja disponível quando for necessária. O armazenamento de energia, a resposta para demanda e modernização da operação, deixa de ser tendência para se tornar urgência. Essa visão de provisionamento é muito estratégica e oportuna numa época tão incerta.

A Agenda setorial de 2026 expôs que o setor está se desenvolvendo, mas principalmente está se transformando muito. Aquele modelo previsível, centralizado, e muito regulamentado está ficando mais aberto, direcionado pela sinalização do mercado e também mais complexo. Outra sensação é que há necessidade de decidir tudo com mais agilidade neste ano para termos um futuro no setor elétrico consistente e seguro. Por isso, é o momento de efetivamente planejar o que vai ser construído e aperfeiçoado. É a ocasião para decidir o que vai ser edificado para o País ter mais energia em suas veias.