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Obrigado JHC, o paraíso voltou

Carlito Peixoto Lima 12/04/2026
Obrigado JHC, o paraíso voltou
Carlito Peixoto Lima - Foto: Assessoria

Nós, meninos da Avenida da Paz, mesma idade, amigos, juntos, tínhamos predileções semelhantes. Gostávamos de pescar no Riacho Salgadinho. Empurrávamos uma jangada de tronco de bananeira para o meio do riacho, jogávamos a tarrafa aberta, puxávamos cheia de peixes. O siri era pescado com teteia. Nas margens e imediações do Salgadinho, por ser terra salobra, lama salgada, mangue, era “habitat” de caranguejos, o goiamum azulado. Com lata quadrada de azeite, fabricávamos armadilhas para capturá-los. Armávamos a arapuca, com uma isca, no buraco do caranguejo. Quando o bicho saía da toca, beliscava a isca, fechava a arapuca. Dava um ar de felicidade ao ver a arapuca com a tampa fechada e um baita goiamum preso. Cevava, engordava os caranguejos num gradeado. Dias depois nos deliciávamos com uma caranguejada, feita por nossas mães, o caldo gordo escorria pela boca.

À noite o calçadão da Avenida da Paz era uma festa, transformava-se em palco e campo de jogos e brincadeiras. Correr, “Roubar-Bandeira” era a primeira diversão. Dividia a calçada em dois campos, um para cada equipe de sete ou oito jovens, no final de cada campo fixava uma pequena bandeira pregada numa vara. O objetivo da brincadeira era entrar pelo campo adversário e roubar a bandeira do time adversário. Havia outros jogos, ximbra (bola de gude), pião, bicicleta, patinete. Mas nossa maior diversão era jogar futebol na areia da praia, de manhã e de tarde, às vezes, em noite de lua, quando fazia um gol depois que a lua aparecia, a partida acabava, era o gol da Lua. Mergulhar naquele mar azul esverdeado e nadar até perto dos navios, era nosso exercício lúdico.

Final do ano chegavam as férias, os jovens que estudavam fora retornavam à vida livre, leve e solta no Paraíso, a praia da Avenida. Adolescentes, inventávamos outros programas: andar de bicicleta batendo a cidade de Maceió e olhar na praia as mulheres de maiôs com intensões pecaminosas.

À noite sentávamos nos bancos da Avenida contando piadas e aventuras ou saíamos à cata de namoradas nas redondezas. Eram namoros à antiga, pegar na mão, em vez em quando um abraço mais quente.

Os empresários de turismo perceberam que a bela praia da Avenida da Paz era um paraíso, construíram os primeiros hotéis modernos, Luxor e Beira-Mar, havia o belo e antigo Hotel Atlântico. Foi a Avenida da Paz a pioneira do turismo em Maceió nos anos 70. Pouco tempo depois aconteceu a mecanização da lavoura no interior, os fazendeiros e usineiros compraram máquinas, não havia uma política pra fixar o homem no campo, aconteceu a primeira invasão de trabalhadores rurais desempregados, invadiram a capital, se fixaram, criaram favela no Vale Reginaldo-Salgadinho. Em 1988 a Constituição cidadã previu o usucapião rural, quem morasse num imóvel por mais de cinco anos, teria sua posse. Os fazendeiros preferiram convocar os boias frias e demoliram mais de 20 mil casas de trabalhadores rurais em suas fazendas. Houve a segunda invasão no Vale Reginaldo-Salgadinho poluindo drasticamente o riacho e a praia da Avenida da Paz, a mais bonita de Maceió. Os hotéis fecharam, os prédios foram vendidos para repartição pública. Os moradores da Avenida da Paz se mudaram devido a fedentina dos 17 km do vale do Reginaldo-Salgadinho, com os casebre lançando os dejetos in natura no riacho. Uma pena, nesses quase 50 anos nenhum governador ou prefeito tentou realizar uma obra séria de despoluição do Salgadinho. Só pequenos paliativos. Até que apareceu um Prefeito de coragem, determinado, iniciou a obra “Renasce Salgadinho”. Muitos não acreditaram.

Sábado passado tive a honra em assistir a inauguração do projeto, “Renasce Salgadinho”, deu-me uma alegria, voltei a ser menino, qualquer dia vou mergulhar na mar da Avenida da Paz, a mais bela de Maceió. Obrigado prefeito JHC, obrigado secretário de obras Rodrigo Cunha pelo renascimento do Salgadinho e da belíssima praia da Avenida da Paz. O paraíso voltou. O turismo vai estourar em Maceió.