Artigos
Bahia de todos os Ângelos
Recentemente participei da 8ª Festa Literária do Pelourinho – 8ª FLIPELÔ. Hoje a melhor Festa Literária do Brasil. Nos intervalos, fui rever a velha Bahia, quando morei em terras soteropolitanas. Muitas recordações, onde aprendi uma outra visão do Brasil real. Onde me diverti as ladeiras da Bahia.
Em 1962 terminei o curso da Academia Militar de Agulhas Negras (AMAN) no Rio, com sangue, suor e lágrimas. Tive uma razoável classificação no final do curso, deu para escolher uma boa cidade para iniciar a carreira como tenente do Exército Brasileiro. Meu coração pediu uma terra que só conhecia pelos livros de Jorge Amado e pelas músicas de Caymmi. Escolhi o 19˚ Batalhão de Caçadores, Salvador.
Com uma mala na mão, me vi em frente ao prédio de dois pavimentos, todo ajanelado, paredes cinzentas, construção tipicamente militar.
Havia um quarto de oficial à minha espera, onde descansei um pouco. Mais tarde, da janela, contemplei um alaranjado pôr-do-sol no meu primeiro dia na Bahia. Naquele momento, me deu uma apreensão, um certo medo do desconhecido que viria pela frente. Fiquei refletindo, olhando o Sol que se punha. Mas no fundo, com certeza, sabia que tudo daria certo. Tinha aprendido muito na AMAN, estava preparado para a profissão que havia escolhido: oficial do Exército Brasileiro.
Minha casa seria, por algum tempo, o quartel, o pequeno quarto, pelo menos teria uma janela que me dava um magnífico pôr-do-sol.
Com pouco tempo, já desempenhava os trabalhos normais, os serviços relativos a tenente na 1ª Companhia de Fuzileiros.
Nos dois anos que servi em Salvador tive o privilégio de conhecer figuras incríveis que me fizeram ver uma Bahia mais bonita. Entre elas, o Subcomandante do Batalhão, coronel Diamantino Fiel de Carvalho, carioca, boêmio, homem da noite no Rio de Janeiro, amigo de artistas e de pessoas badaladas.
Quando apareciam em Salvador, havia sempre um jantar, uma festa para recepcioná-los. Na casa de Diamantino, conheci grandes figuras do meio artístico brasileiro: Haroldo Barbosa, Elizeth Cardoso, Vanda Moreno, Luís Vieira e outros nomes da música popular e do teatro. Diamantino escrevia esquetes de humor para teatro e TV, era cidadão do mundo, inteligente, tremendo boa praça e bom caráter, mas na profissão era de uma exigência inarredável, principalmente com os amigos. Nas noites da Bahia, chamava Diamantino pelo nome próprio; no dia seguinte, com todo o respeito, era o Senhor Coronel.
Dava-me essa liberdade, mas dentro do quartel era mais que exigente com o amigo tenente, não dava trégua na hora do trabalho. Afeiçoei-me e muito aprendi com essa figura humana extraordinária, doublé de militar e artista. Foi meu primeiro comandante.
Outra figura inesquecível, nos tornamos irmãos por adoção, era um tenente provindo do CPOR, Ângelo Roberto Mascarenhas. Ângelo me apresentou e eu conheci os mistérios da Bahia. Ele, um artista, aluno da Escola de Belas Artes. Depois do expediente do quartel, rumávamos em direção à noite baiana.
Muitas vezes, passávamos na Escola de Belas Artes, eu gostava de ver as modelos nuas, mulheres lindas posando. Ângelo foi meu guia espiritual e boêmio da misteriosa Bahia. Dancei no Tabariz, frequentei a Rua Chile, o Hotel Palace. Bebemos no 63, no 44 e na Ladeira da Montanha. Na Boate Clock dancei e namorei a morena mais frajola da Bahia. Pulei o carnaval no Clube Baiano de Tênis. Foram farras homéricas na Cidade Baixa, no antigo Mercado Modelo, nas Setes Portas. Amanheci o dia em serenata no Forte de São Marcelo. Frequentei o terreiro de Mãe Menininha do Gantois. Ela jogou búzios para mim; hoje sei que sou filho de Xangô.
Foram muitas as noites conhecendo a vida mágica e musical do povo da Bahia, guiado pela mão desse artista, um dos maiores pintores de Salvador, o melhor bico de pena do Brasil.
Ângelo Roberto foi embora, me deixou chorando. Saudades do amigo, meu irmão. Ele desenhou a capa de meu primeiro livro, “Confissões de um Capitão”. Guardo com carinho sua imagem e nossas aventuras boêmias na terra de São Salvador.
Mais lidas
-
1PALMEIRA DOS ÍNDIOS
Prefeitura regulamenta rateio das sobras do FUNDEB e professores cobram transparência nos valores
-
2ENERGIA NUCLEAR
Financiamento nuclear do BRICS liderado pelo Brasil pode reequilibrar acesso a tecnologias
-
3VIDA SILVESTRE
Médico-veterinário registra nascimento e primeiros dias de filhotes de tucanuçu
-
4INTERNACIONAL
Crescimento econômico da China deve dobrar o dos EUA em 2026, aponta Academia Russa de Ciências
-
5EQUILÍBRIO MILITAR
EUA manifestam preocupação com avanço da aviação embarcada chinesa