Alagoas
Pesquisa sobre IA em laudos radiológicos conquista prêmio de Computação
Trabalho usa modelos de linguagem de grande escala para transformar laudos de tomografia de tórax em português em dados estruturados, processáveis por sistemas computacionais
Uma pesquisa da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) que aplica inteligência artificial à estruturação de laudos radiológicos foi reconhecida nacionalmente no Simpósio Brasileiro de Computação Aplicada à Saúde (SBCAS 2026). O artigo Large Language Models for Structured Chest CT Reporting in Portuguese: a Comparative Study with Radiologist Validation (Modelos de linguagem de grande escala para estruturação de laudos de tomografia computadorizada de tórax em português: um estudo comparativo com validação por radiologistas) recebeu o prêmio de Melhor Artigo, ou Best Paper, durante o evento, realizado de 1º a 4 de junho de 2026, em Ouro Preto, Minas Gerais.
Promovido pela Sociedade Brasileira de Computação (SBC), por meio da Comissão Especial de Computação Aplicada à Saúde (CE-CAS), o SBCAS é um dos principais eventos nacionais dedicados à interface entre computação e saúde. O simpósio reúne pesquisadores, estudantes e profissionais de diferentes instituições para discutir avanços em informática médica, ciência de dados em saúde, processamento de linguagem natural, sistemas de apoio à decisão clínica e aplicações de inteligência artificial na área da saúde.
A seleção dos trabalhos também reforça a relevância da premiação. O artigo foi premiado na trilha principal da Conferência, que é a de artigos científicos completos. Foram mais de 168 trabalhos submetidos e o trabalho da Ufal foi o selecionado. De acordo com os anais do evento, a taxa de aceitação dos artigos completos no SBCAS 2026 foi de aproximadamente 35%, evidenciando o caráter competitivo da trilha principal.
O artigo é assinado por Juliana Simon Petruceli, egressa do Programa de Pós-Graduação em Informática (PPGI) da Ufal e médica radiologista do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes (HU/Ufal), pelo professor Marcelo Costa Oliveira, do Instituto de Computação (IC), por José Arthur Lopes Sabino, graduando em Ciência da Computação no IC, e por Tarcísio Lima Ferreira, egresso do PPGI.
A pesquisa integra uma linha de trabalho consolidada pelo grupo de pesquisa Artificial Intelligence Applied to Computer-Aided Diagnosis (Icad), coordenado pelo professor Marcelo Oliveira, dedicada ao uso de inteligência artificial aplicada à saúde, com foco em telessaúde, processamento de dados clínicos e sistemas de apoio à decisão médica.
“Ser reconhecido em um evento dessa relevância reforça a qualidade da pesquisa em inteligência artificial aplicada à saúde que vem sendo desenvolvida no PPGI e no Instituto de Computação da Ufal. Também evidencia o potencial da colaboração entre computação e medicina para gerar soluções com impacto científico e social”, afirma o professor Marcelo Costa Oliveira.
O problema: laudos em texto livre
Na rotina dos hospitais, o laudo radiológico é o documento que conecta a interpretação das imagens médicas à tomada de decisão clínica. No entanto, esses laudos ainda são produzidos, em grande parte, em texto livre, com variações de estilo, terminologia e nível de detalhe entre profissionais e serviços.
Essa heterogeneidade dificulta não apenas a leitura padronizada pela equipe assistencial, mas também o uso computacional das informações contidas nos laudos. Dados clínicos registrados em texto livre são complexos de serem analisados em processos de auditoria, vigilância clínica, pesquisa científica, integração com prontuários eletrônicos e sistemas de apoio à decisão em saúde.
“A estruturação de laudos é um passo essencial para que a informação clínica possa ser utilizada por sistemas de saúde de forma confiável. O desafio é ainda maior em português, pois a maior parte dos modelos de linguagem, ferramentas e estudos disponíveis foi desenvolvida originalmente para o idioma inglês”, explica Juliana Simon Petruceli.
A proposta da pesquisa
O estudo avaliou a capacidade de modelos de linguagem de grande escala, conhecidos como LLMs, de converter laudos de tomografia computadorizada de tórax escritos em texto livre, em português, para um formato estruturado e padronizado em JSON. Esse tipo de estrutura permite que as informações clínicas sejam lidas, organizadas e reaproveitadas por sistemas computacionais.
Para isso, a equipe desenvolveu um modelo de preenchimento adaptável, capaz de organizar automaticamente informações presentes nos exames, como tipo de exame, técnica utilizada, achados radiológicos e impressão diagnóstica, preservando a terminologia empregada pelo radiologista.
Foram utilizados 1.102 laudos reais e anonimizados. A validação combinou duas abordagens: uma avaliação qualitativa, conduzida por 12 radiologistas, e uma análise quantitativa, comparando as saídas geradas pelos modelos com uma referência construída manualmente por especialistas.
Resultados e impacto
Os resultados demonstraram que a estruturação automatizada de laudos de tomografia de tórax em português é viável, mesmo sem a necessidade de treinamento específico dos modelos, processo conhecido como fine-tuning. Os modelos avaliados produziram resultados consistentes, especialmente em campos mais padronizados dos laudos.
A pesquisa também identificou desafios importantes. Campos mais descritivos e dependentes de contexto clínico, como achados incidentais, ainda exigem maior refinamento, indicando caminhos para o aprimoramento da técnica em estudos futuros.
Segundo os pesquisadores, a tecnologia tem potencial para apoiar a prática radiológica sem substituir o papel do profissional de saúde. A proposta é contribuir para que as informações clínicas sejam mais organizadas, reutilizáveis e interoperáveis, favorecendo a qualidade do atendimento, a pesquisa em saúde e a integração entre sistemas.
“O objetivo não é substituir o radiologista, mas oferecer uma ferramenta de apoio que torne a informação clínica mais estruturada, acessível e útil para diferentes finalidades, como pesquisa, gestão, auditoria e continuidade do cuidado. Isso é especialmente relevante no contexto do sistema público de saúde, onde a organização da informação pode contribuir diretamente para a eficiência e a qualidade da assistência”, destaca o professor Marcelo Costa Oliveira.
Mais premiação
Além do prêmio com a pesquisa sobre inteligência artificial em laudos radiológicos, a Ufal conquistou o prêmio de Melhor Artigo, na categoria “Ferramentas", com o trabalho GestAR: uma plataforma de telessaúde para triagem e acompanhamentolongitudinal de gestantes de alto risco, selecionado entre mais de 30 produções científicas submetidas à premiação.
Para saber mais, acesse o site.
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