Alagoas

Mestrado da Ufal produz e-book sobre maternidade atípica e inclusão escolar

Produto educacional foi o primeiro desenvolvido pelo Programa de Pós-graduação Profissional em Educação Especial

Redação com Ascom Ufal 17/06/2026
Mestrado da Ufal produz e-book sobre maternidade atípica e inclusão escolar
Capa e-book Maternidade atípica

Há pesquisas que nascem de uma pergunta acadêmica. Outras começam pela escuta. Foi ouvindo histórias de mães que acordam cedo, atravessam rotinas de terapias, negociam com escolas, enfrentam o cansaço e ainda encontram forças para celebrar cada pequena conquista dos filhos, que a médica pediatra Dayse Isabel Coelho Paraíso Belém construiu a primeira dissertação defendida no Programa de Pós-graduação Profissional em Educação Especial da Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

A defesa marca um momento histórico para o Propgees/Ufal, desenvolvido em associação com a Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas, a Uncisal. Criado no segundo semestre de 2024, o programa chega agora ao encerramento de seu primeiro ciclo formativo com uma pesquisa que une rigor científico, sensibilidade social e aplicação prática: um e-book sobre saúde mental na maternidade atípica e inclusão escolar de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Para Dayse, tornar-se a primeira mestra do programa foi mais do que uma conquista acadêmica. Pediatra há 30 anos, com atuação em desenvolvimento infantil e transtornos do neurodesenvolvimento, ela encontrou no mestrado profissional a possibilidade de aproximar ainda mais a medicina, a educação e a vida concreta das famílias.

“Defender minha dissertação e me tornar a primeira mestra do Programa de Mestrado Profissional em Educação Especial da Ufal foi um marco muito especial na minha vida pessoal, profissional e acadêmica”, afirma Dayse. Segundo ela, a oportunidade de ingressar no mestrado surgiu como um convite para “respirar novos ares”, dialogar com outras áreas do conhecimento e devolver à sociedade algo realmente útil para o público com o qual trabalha diariamente.

O tema nasceu em diálogo com a orientadora, a professora Deise Juliana Francisco. A proposta era encontrar um assunto que unisse a trajetória profissional de Dayse ao campo da Educação Especial. O caminho apareceu quando as duas chegaram à saúde mental das mães de crianças com TEA — mulheres que, muitas vezes, são as principais cuidadoras e acabam invisibilizadas em suas próprias necessidades.

Quem cuida de quem cuida?

A pesquisa foi construída a partir de entrevistas com dez mães de crianças com TEA atendidas na Clínica de Terapias Especiais Espaço TEU, em Maceió. “Para compreender, pela voz delas, como é viver essa maternidade atípica. Suas histórias, dores, forças e vulnerabilidades foram fundamentais para construir o caminho da pesquisa”, contextualiza Dayse.

O e-book, intitulado Saúde Mental na Maternidade Atípica: desafios e estratégias de apoio para a inclusão escolar de crianças com TEA, parte de uma afirmação direta: cuidar da saúde mental materna também é cuidar da escolarização da criança com TEA. O material mostra que a inclusão escolar não depende apenas de matrícula, adaptação pedagógica ou presença física em sala de aula. Ela exige uma rede de cuidado que reconheça a família, acolha a mãe e compreenda que o esgotamento materno também chega à escola.

“[O livro] traduz a pesquisa científica em orientações práticas para profissionais da educação, saúde e terapias e para as próprias mães — mostrando como observar, acolher e encaminhar essas mães nos espaços que elas frequentam com seus filhos: escolas, consultórios, clínicas e serviços de apoio. É um material pensado para ser acessível, útil e transformador”, definiu a pediatra, sobre a proposta de ajudar diferentes públicos a enxergar essas mulheres para além do papel de cuidadoras.

Um produto para sair da universidade e chegar à vida real

A escolha pelo e-book tem relação direta com a natureza do mestrado profissional. Diferentemente de uma pesquisa voltada apenas à produção acadêmica, o trabalho precisa gerar um produto educacional com aplicação prática nos contextos sociais e profissionais. No caso de Dayse, o resultado foi um material gratuito, de fácil circulação e pensado para ser utilizado em escolas, clínicas, consultórios, serviços de apoio e grupos de famílias.

“Minha expectativa é que esse trabalho, pioneiro no Nordeste, alcance realmente seu público-alvo e contribua para multiplicar o cuidado com essas mães”, vislumbra. No e-book, a comunidade escolar aparece como parte essencial da rede de acolhimento. O material conversa com direção, coordenação pedagógica, professores, profissionais do Atendimento Educacional Especializado, porteiros, secretarias, monitores e famílias.

Dayse conta no livro que a ideia é mostrar que a inclusão de uma criança com TEA e o acolhimento da mãe que a acompanha não dependem de uma única função, mas atravessam toda a escola — da portaria à gestão.

Para a orientadora Deise Francisco, o trabalho foi construído com cuidado, sensibilidade e rigor. Ela destaca que a pesquisa partiu da experiência profissional de Dayse e buscou produzir algo que fizesse sentido para Alagoas, mas também pudesse ultrapassar fronteiras.

“Foi um trabalho muito bonito, no sentido de poder pensar, de poder usar as nossas experiências e construir um e-book. A gente fez um trabalho bem articulado com o Programa de Educação Especial e também com a capacidade que a gente vê de dar um olhar cuidadoso e acolhedor com relação às mães atípicas”, comentou a professora Deise.

Marco para o Propgees

A coordenadora do Propgees, professora Neiza Fumes, avalia que a defesa da primeira dissertação representa a consolidação de uma trajetória iniciada muito antes da abertura da primeira turma. O programa é fruto de quase dez anos de planejamento, elaboração da proposta, submissão, aprovação e implantação.

O Propgees tem como objetivo formar profissionais de diferentes áreas, com competências técnicas e bases teórico-metodológicas aplicadas, para atuar colaborativamente no campo da Educação Especial. A formação busca contribuir para minimizar barreiras no processo de escolarização do público-alvo da Educação Especial, em diferentes contextos, modalidades e níveis de ensino.

“A dissertação defendida tratou de um tema atual, necessário, muitas vezes, invisibilizado - a mãe de pessoas com TEA”, corroborou Neiza, sobre o papel do mestrado profissional na formação de pesquisadores que estudam problemas sociais e produzam respostas qualificadas, aplicáveis e comprometidas com a transformação da realidade.