Alagoas

Dia da África reforça conexões culturais dentro da Ufal

Data promove reflexões sobre a relação entre Brasil e África e fortalece o acolhimento de estudantes africanos na universidade

Layla Alves, jornalista e bolsista da ASI 21/05/2026
Dia da África reforça conexões culturais dentro da Ufal
Estudantes africanos e professora Manuela Callou, coordenadora da Assessoria de Intercâmbio Internacional da Ufal - Foto: Renner Boldrino

Dia da África, celebrado em 25 de maio, representa a independência dos países africanos, sua cultura e união. A origem da data faz referência à criação da Organização da Unidade Africana (OUA), fundada em 1963 por 32 países independentes do continente. 

Além da celebração, a data também reforça a importância de compreender a relação histórica entre o continente africano e o Brasil. A influência africana está presente em diferentes aspectos da cultura brasileira, como na culinária, religiosidade, arquitetura, música e costumes. O cuscuz, por exemplo, é um prato típico do Nordeste brasileiro e possui origem africana. 

Segundo Gian Melo, professor de História do Brasil e coordenador do Núcleo Escravidão e Sociedade na Época Moderna (Nesem) da Ufal, embora a influência africana esteja presente em diferentes aspectos da cultura brasileira, ainda existe pouco conhecimento sobre a história do continente africano e sua contribuição para a formação do Brasil, devido a um apagamento histórico.

“A gente não sabe o nome de muitos africanos influentes porque a condição da época não permitia que deixassem seus nomes gravados e registrados. A gente conhece o Aleijadinho, que é descendente de escravizados, mas quem ensinou a ele? Quem são os primeiros que ensinaram?”, questiona o pesquisador.

Uma discussão que envolve a necessidade de ampliar o conhecimento sobre a história africana e afro-brasileira dentro das escolas, conforme a lei 10.639/2003 que tornou obrigatório o ensino na educação básica. Compreender essa relação também passa pelo entendimento do processo histórico da escravidão no Brasil, uma vez que o país foi o último das Américas a abolir a escravidão e o que mais recebeu africanos escravizados na história.

Para levantar o debate e realizar um resgate histórico, a Universidade Federal de Alagoas tem promovido ações como o programa ‘’Sabores do Mundo’’, que tem como objetivo trazer pratos típicos do continente para o restaurante universitário (RU), além de entrevistas na Rádio Ufal e muito mais.

“Existem alguns projetos antigos que são desenvolvidos pela Pró-reitoria de Graduação, como o programa PEC-G, que recebe estudantes africanos para a graduação. A Assessoria de Intercâmbio Internacional e a Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação também têm ações voltadas para esse público. Além disso, recentemente, houve a Bienal do Livro, cujo tema foi a África, entre outros inúmeros projetos, grupos de pesquisa e extensão que tratam de temas ligados aos países africanos, sua cultura, história e relações com outros países”, detalhou Janaina Alves, relações públicas da Assessoria de Comunicação da Ufal.

Educação pluricultural 

A data também é mais uma chance de criar conexões com estudantes africanos que estudam na Ufal. Segundo registros da Assessoria Intercâmbio Internacional (ASI), a instituição recebe discentes africanos desde 2005, totalizando cerca de 106 alunos e alunas que já passaram pela universidade. A maior parte desses intercambistas vieram de Cabo Verde, Guiné-Bissau e Angola.

“A ASI está à frente dos convênios internacionais. Nós recebemos estudantes estrangeiros por meio de inúmeros programas, mas o principal tem sido o PEC-G. A pandemia diminuiu a frequência de estudantes intercambistas na Ufal, já que ninguém podia viajar. Agora, estamos retomando o recebimento desses alunos e alunas, e também firmando novos acordos para enviar nossos estudantes para fora. A Ufal está sempre aberta para trocas culturais. A educação tem que ser para o mundo”, disse José Niraldo de Farias, assessor de Relações Internacionais da ASI.

Para a estudante de intercâmbio Blessing Iloh, mestranda em Psicologia, “a Ufal é uma das universidades mais prestigiadas” que ela já conheceu. ‘’A instituição oferece um ensino detalhado e um desenvolvimento voltado ao avanço da minha pesquisa acadêmica e do meu conhecimento. A comida é próxima da cultura africana. por exemplo, o inhame, a farinha e até o azeite de dendê. Meu professor é definitivamente incrível e instruído além das minhas expectativas”, enfatizou. Natural da Nigéria, ela tem cinco irmãos com quem mantém contato frequente. Atualmente, Blessing está na Ufal desenvolvendo sua pesquisa sobre a influência da mídia nos valores morais e preconceitos dos jovens adultos no seu país natal e na África.

Para Iloh, a iniciativa da universidade em colocar o continente africano em papel de destaque é indispensável na luta contra a xenofobia. ‘’Sinto-me surpreendentemente orgulhosa pela África estar sendo celebrada na Ufal, isso mostra que não há espaço para opiniões tendenciosas aqui’’, disse. 

A surpresa dela não é só por conta do mês reservado para a cultura africana, mas também pela importância e zelo que os alagoanos deram para a data. ‘’Não costumamos celebrar o Dia da África, apenas o Dia da Independência do meu país. Sempre há feriado para o Dia da Independência, que foi em 1960’’, explica Blessing, animada por comemorar a data pela primeira vez.

Fortalecer o sentimento de pertencimento

Blessing é uma das diversas estudantes que conseguiram realizar o sonho da mobilidade acadêmica através de convênios firmados pela ASI e que é auxiliada diariamente pelo setor. 

A Assessoria de Intercâmbio Internacional da Ufal lida diretamente com os alunos estrangeiros, desde a recepção, para que se sintam acolhidos na universidade, até as idas à Polícia Federal para organizar a documentação.

Especialmente neste mês de maio, a ASI tem atuado em conjunto com a Ascom da Ufal para promover ações que buscam fortalecer o sentimento de pertencimento dos estudantes africanos que vivem longe de seus países de origem.

A cabo-verdiana Jennifer Semedo, estudante de Odontologia na Ufal, conta que a data é ensinada nas escolas para reforçar a importância dessa união para as futuras gerações. Ela conta que sua escola, em Cabo Verde, desenvolvia atividades para que os alunos pudessem pesquisar e estudar sobre outros países do continente. “Cada um fica com um país para representá-lo em sua tradição, cultura, comida e suas vestimentas”, lembrou.

“Eu estava no RU, esperando a janta, e acabei por ouvir a música do meu país. Foi a música que eu escolhi, eu fiquei muito emocionada e até filmei. É uma coisa pequena no olhar, mas é grande para gente. Ouvir a música do meu país aqui foi incrível”, relata Jennifer sobre uma das ações promovidas. 

Essas ações vêm trazendo retorno positivo e reconhecimento do trabalho desenvolvido pela ASI Ufal. “O que estamos fazendo com a internacionalização é inédito na Ufal. E em comemoração ao Dia da África, o Ministério da Educação convidou reitores africanos e brasileiros para participação do 1º Fórum Brasil África, em Brasília. O foco é a cooperação acadêmica e fortalecimento do Sul Global. Estarei presente nesse momento, representando a ASI, fortalecendo ainda mais o networking e a cooperação da universidade em nível nacional e internacional”, conta a professora Manuela Callou, coordenadora da Assessoria de Intercâmbio Internacional da Ufal.

Mais do que uma celebração dentro da universidade, o professor Gian defende que momentos como esse são oportunidades de aproximar a sociedade das discussões sobre a África e trocar conhecimentos de como suas influências estão presentes no nosso cotidiano. “É necessário não deixar esse conhecimento preso dentro dos muros da universidade. É buscar realizar trocas com quem está fora dos muros da universidade, mas também possibilitar a troca de fora para dentro”, afirmou.

Celebrações como o dia da África são necessárias para romper visões limitadas sobre o continente e reconhecer a pluralidade histórica, cultural e social do continente. “A grande provocação seria conseguir reconhecer essa África, desde lá de trás até hoje, como uma África que não tem um passado único. Como uma África que é um continente diverso, múltiplo e que tem forte impacto e atuação dentro dessa dinâmica que a gente conhece de mundo até hoje e que vai ter muito mais no futuro,” projeta o professor Gian Melo.

Saiba mais

O Dia da África, celebrado em 25 de maio, representa a independência dos países africanos, sua cultura e união. A origem da data faz referência à criação da Organização da Unidade Africana (OUA), fundada em 1963 por 32 países independentes do continente. 

A organização intergovernamental surgiu como símbolo de luta e resistência contra a colonização europeia, além de fortalecer a liberdade, igualdade, dignidade e cooperação entre os países. Em 1972, a Organização das Nações Unidas (ONU) oficializou a data, que se tornou feriado na Zâmbia, Gana, Namíbia e Zimbábue. Em 2002, a OUA foi substituída pela União Africana (UA), reunindo todos os países do continente, com sede na Etiópia, um dos únicos países que não passou pela colonização europeia. 

Para além do contexto histórico, a ênfase nesse dia também é vista como uma forma de fortalecer a valorização cultural, ampliar o conhecimento sobre o continente africano entre as novas gerações e conscientizar contra o racismo.