Alagoas
Pesquisa iniciada na Ufal gera patente para compostos com potencial contra parasitas
Estudos do Grupo de Catálise e Reatividade Química buscam alternativas para doenças como malária e leishmaniose
Em uma descoberta que começou quase por acaso no laboratório, uma molécula sintetizada na Universidade Federal de Alagoas (Ufal) abriu caminho para uma patente concedida nos Estados Unidos. O estudo, desenvolvido em parceria com a Fiocruz, PUC-Rio e uma universidade da Califórnia, une química, inovação e saúde pública na busca por novos compostos capazes de agir contra parasitas causadores de doenças negligenciadas, como malária e leishmaniose.
A descoberta teve origem em uma linha de pesquisa iniciada há cerca de 15 anos, quando pesquisadores buscavam sintetizar novas substâncias com possível ação contra doenças consideradas de menor interesse comercial pela indústria farmacêutica. A proposta inicial, segundo o professor Mário Meneghetti, era desenvolver moléculas classificadas como metalofármacos, ou seja, compostos farmacologicamente ativos que possuem elementos metálicos em sua estrutura.
Meneghetti explica que a equipe pretendia criar moléculas semelhantes à cloroquina, mas com a presença de metais, na expectativa de potencializar a atividade antimalárica. Para isso, o grupo da Ufal, com experiência em síntese molecular, precisava da colaboração de laboratórios especializados em avaliação farmacológica de substâncias.
Foi nesse contexto que surgiu a parceria com o grupo da professora Antonia Krettli, da Fundação Oswaldo Cruz em Minas Gerais, no Instituto René Rachou, referência em estudos sobre o potencial antimalárico de novas substâncias químicas.
Durante o processo de síntese, antes mesmo da adição do elemento metálico planejado, uma molécula intermediária apresentou resultado inesperado. “A molécula intermediária preparada já se mostrou bastante ativa contra a malária em ensaios preliminares, principalmente em cepas de parasitos resistentes à cloroquina”, relatou o pesquisador. O desempenho chamou a atenção dos grupos envolvidos e motivou estudos mais aprofundados.
Avanço da pesquisa com a Ufal e parcerias
O principal problema científico enfrentado pela pesquisa foi a resistência dos parasitas à cloroquina. De acordo com o pesquisador da Ufal, a estratégia foi elaborar moléculas semelhantes ao medicamento, mantendo o potencial antimalárico, mas capazes de contornar os mecanismos utilizados pelos parasitas resistentes para escapar da ação da cloroquina.
Mário conta que essa resistência representa um desafio importante para o desenvolvimento de novos tratamentos, pois reduz a eficácia de medicamentos historicamente utilizados contra a malária. Por isso, compostos capazes de agir sobre cepas resistentes têm relevância científica e tecnológica.
A participação da Ufal foi concentrada na etapa de síntese de pelo menos uma molécula farmacologicamente ativa. O trabalho foi desenvolvido no Grupo de Catálise e Reatividade Química (Gcar), que possui expertise em síntese molecular.
Segundo o pesquisador, a contribuição institucional foi decisiva para o avanço do estudo. “Nossa participação foi crucial e focada na síntese de pelo menos uma molécula farmacologicamente ativa, de tal forma que os pesquisadores das outras instituições realizassem os estudos biológicos, farmacológicos e químico-computacionais”, destacou.
Ele também ressaltou que o grupo de pesquisa da Ufal já tinha a infraestrutura mínima necessária para preparar a molécula e de boa parte dos equipamentos utilizados em sua identificação.
A pesquisa cresceu a partir da formação de uma rede de pesquisadores com expertises complementares. Além da Ufal e da Fiocruz, participaram do trabalho pesquisadores ligados à University of California San Francisco (UCSF) e à PUC-Rio.
A colaboração permitiu que a molécula sintetizada fosse analisada de forma mais ampla, com estudos biológicos, farmacológicos e químico-computacionais. O esforço conjunto resultou em dissertações, teses, artigos científicos e depósitos de patentes.
Para o pesquisador, a parceria surgiu do interesse comum na área de antimaláricos e da possibilidade de reunir competências distintas em torno de uma pesquisa com maior impacto científico, tecnológico e social.
Resultados que projetam a Ufal
Entre os resultados mais promissores observados durante a pesquisa estão a ação da molécula contra cepas de parasitas resistentes à cloroquina e características consideradas relevantes para o desenvolvimento tecnológico. “O principal resultado foi o fato da molécula por nós preparada agir sobre cepas de parasitos resistentes à cloroquina, ser de síntese relativamente fácil e de custo financeiro competitivo”, afirmou Mário Meneghetti.
Ele contextualiza que esses aspectos são importantes porque indicam não apenas o potencial biológico da molécula, mas também a possibilidade de continuidade dos estudos em direção a aplicações futuras.
Para o pesquisador, o resultado mostra que pesquisas produzidas na universidade têm potencial para gerar inovação e proteção tecnológica em nível internacional, como esse reconhecimento nos Estados Unidos.
“Muitos pesquisadores da Ufal têm resultados de pesquisa que seguramente podem ser patenteados em qualquer país do mundo, mas tive a felicidade de estabelecer colaborações que facilitaram o depósito/concessão da patente no exterior, pois parte da equipe já atuava nos Estados Unidos”, enalteceu.
Novos estudos avaliam toxicidade e moléculas mais potentes
Apesar da patente concedida, a pesquisa ainda precisa avançar antes de chegar a possíveis aplicações práticas. Segundo o pesquisador, novos estudos estão em andamento, principalmente relacionados à toxicidade da molécula.
Além disso, o grupo da Ufal busca sintetizar outras moléculas, ainda mais potentes, dentro do contexto de proteção da patente concedida. “Se tivermos sucesso, é provável que tenhamos condições de atrair empresas e licenciarmos a patente”, vislumbrou o pesquisador.
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