Alagoas
Rodrigo Cunha entrega secretaria de prefeitura a grupo político ligado a condenado na Taturana
Esposa de Tenorinho Malta e parente de ex-deputado condenado na Operação Taturana assume a Saúde em meio a articulações políticas ligadas ao projeto eleitoral do ex-prefeito; escolha amplia questionamentos sobre critérios técnicos na gestão da capital
A nomeação da estudante de medicina Lara Jayne Siqueira Barbosa Malta Brandão para a Secretaria Municipal de Saúde de Maceió, oficializada nesta terça-feira (15) no Diário Oficial, acirrou as críticas à forma como cargos estratégicos vêm sendo ocupados na gestão municipal e reforçou, entre adversários e observadores da cena política, a avaliação de que a Prefeitura de Maceió estaria sendo utilizada como espaço de acomodação eleitoral e política.
Lara Jayne é esposa do ex-prefeito de Inhapi, conhecido como Tenorinho Malta, e cunhada do ex-deputado estadual Celso Luiz. Sua chegada ao comando de uma das pastas mais sensíveis da administração ocorre em meio às movimentações políticas que cercam o projeto de candidatura do ex-prefeito JHC, hoje no PSDB, e amplia a percepção de que a máquina pública da capital tem servido para consolidar alianças, premiar grupos políticos e manter apoios de ocasião.
A leitura que se faz nos bastidores é de que a Prefeitura de Maceió, cada vez mais, tem sido povoada por nomes vinculados a interesses eleitorais, sobretudo de grupos do interior que se aproximam do núcleo político de JHC. Esse fenômeno, por si só, já mereceria uma apuração específica e mais ampla, diante dos sinais de que a estrutura administrativa do município vem sendo usada não apenas para governar, mas também para montar e alimentar uma engrenagem política com vistas a 2026.
No caso da Secretaria de Saúde, a repercussão ganha ainda mais peso por causa do histórico político da família à qual a nova secretária está ligada.
Condenação ligada à Taturana
O ex-deputado estadual Celso Luiz foi condenado em processos relacionados ao esquema investigado pela Operação Taturana, que apurou o desvio de cerca de R$ 300 milhões da Assembleia Legislativa de Alagoas entre 2003 e 2006. Ele também foi alvo de investigações da Polícia Federal por suspeitas de desvios de recursos públicos no município de Canapi. Em 2018, chegou a ser preso no âmbito dessas apurações e, posteriormente, obteve liberdade por decisão judicial, mediante medidas cautelares.
A ligação familiar da nova secretária com esse histórico político-criminal acentua o desgaste da nomeação e alimenta o discurso de que a administração municipal se distancia do critério técnico para abraçar a lógica da conveniência eleitoral.
Contradição com o discurso de Rodrigo Cunha
A escolha também impõe desgaste direto ao prefeito em exercício, Rodrigo Cunha, que ao longo de sua trajetória como deputado e senador construiu parte de sua imagem pública associada ao discurso da moralização administrativa e da defesa de processos seletivos para cargos comissionados, como forma de priorizar qualificação e mérito.
A nomeação agora feita sem explicações mais detalhadas sobre os critérios adotados, somada à ausência de um anúncio consistente de reestruturação da pasta, faz emergir uma contradição política difícil de ignorar. Entre o discurso antigo e a prática atual, cresce a percepção de que o compromisso com a tecnicidade foi sendo substituído pela necessidade de acomodar interesses e consolidar composições.
Saúde em crise e sob pressão
A situação se torna ainda mais delicada porque a Secretaria Municipal de Saúde não é uma pasta qualquer. Trata-se de uma área sob pressão crescente, marcada por dificuldades conhecidas e críticas recorrentes de profissionais, usuários e entidades ligadas ao setor.
Dados do programa Previne Brasil apontam desempenho abaixo do esperado em indicadores importantes da atenção básica. A cobertura de pré-natal adequado, por exemplo, não alcança metade das gestantes, enquanto o acompanhamento de doenças crônicas, como hipertensão e diabetes, segue aquém do necessário.
Em meio a esse cenário, a nomeação de uma titular sem trajetória consolidada na gestão pública de sistemas de saúde inevitavelmente amplia os questionamentos. Mais do que o currículo individual da nova secretária, o que está em xeque é a mensagem política enviada pela prefeitura: em vez de priorizar uma resposta técnica à crise, a gestão parece ter optado por uma escolha de nítido conteúdo político.
A máquina e a política
O episódio reforça uma crítica que ganha corpo nos bastidores da política alagoana: a de que a Prefeitura de Maceió, sob influência do grupo de JHC, vem se convertendo em instrumento de montagem de alianças eleitorais, com espaços administrativos sendo distribuídos para contemplar grupos, famílias e lideranças que possam ter utilidade no projeto político do ex-prefeito.
Nesse contexto, a nomeação para a Saúde passa a simbolizar mais do que uma simples troca de comando. Ela representa, para os críticos da gestão, mais uma peça de um modelo em que a ocupação da estrutura pública deixa de obedecer prioritariamente ao interesse administrativo e passa a se submeter à lógica do arranjo político.
A pasta da Saúde, que deveria ser tratada como setor estratégico e técnico, entra assim no centro de uma disputa em que o interesse público parece dividir espaço com a conveniência eleitoral.
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